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kravu |
Lavei a boca, escutei o ranger da geladeira, o barulho surdo da panela sendo arrastada pelo fogão. O tilintar de talheres, um suspiro de impaciência. Terminando de lavar, entrei na cozinha e escutei a pergunta, carregada de um tom entre espanto e censura:
— A senhora não fez o almoço novamente?
Olhei-a de relance. O rosto juvenil, a pele ainda tensionada pela juventude, mas a expressão já marcada por uma insatisfação precoce.
— Não. Não fiz e pretendo não fazer daqui para frente.
Ela fechou a geladeira com força, cruzou os braços, uma tentativa infantil de impor autoridade sobre mim.
— Mas e eu? O que faço quando chego da escola?
— Cozinha e come.
Ela respirou fundo, os olhos semicerrados, buscando entender se aquilo era uma espécie de punição ou uma declaração definitiva.
— Mas eu, mãe... Eu?
O tom era de súplica, como se fosse um absurdo que eu a empurrasse para essa responsabilidade.
— Já vais fazer dezesseis anos e, pelo que sei, já estás a namorar. Se és capaz de te entregar a um homem, serás capaz de fazer a tua própria comida. Não tenho a mínima paciência para discutir com mulheres que arranjaram o seu homem.
O silêncio caiu como um tom inesperado num bidão fundo. Ela piscou rápido, a boca entreaberta, um breve rubor de indignação subindo às faces.
— Mãe, sou eu! A sua filha!
Disse aquilo como se isso invalidasse tudo o que eu acabara de afirmar, como se o parentesco carregasse uma espécie de dívida impagável. Mas não carregava. Pelo menos, não para mim.
Fiz dois ovos, esquentei o arroz de ontem, servi-me e comi. Ela me olhava, espantada, incrédula. Mastiguei devagar, sem pressa de suavizar o desconforto dela.
— Mãe, o que te fiz?
— Nunca me fizeste nada. Tu nunca me hás de fazer nada. Aliás, ninguém jamais me há de fazer alguma coisa.
O peso das palavras pairou no ar, e eu percebi que ela prendeu a respiração por um instante. Sua expressão era um misto de incredulidade e desamparo. Talvez pensasse que a minha nova maneira de encarar a vida fosse culpa dela. Ou talvez estivesse apenas à espera de um afago que eu não estava disposta a dar.
— Mãe! — chamou-me. A voz não trazia raiva, apenas perplexidade. Depois virou-se e foi para o quarto. Antes que a porta se fechasse, deixou uma frase flutuar na sala:
— O meu pai magoou profundamente o minha mãe.
Observei a madeira se encostar no batente e soltei o ar devagar. Não fui atrás.
Voltei a dormir pela tarde inteira. De vez em quando, sentia a porta abrir e fechar. Não precisava abrir os olhos para saber que era ela, hesitante, ainda presa à ideia de que a nossa relação poderia ser restaurada por alguma frase bem escolhida.
Acho que minha filha é ingênua. Eu deveria ter uma filha arrogante e estúpida, que não se entregasse a um homem bonito apenas porque os seus tempos se coincidiram num romantismo fermentado. Mas tive esta. Uma menina que ainda acredita no valor de laços que eu já nem sei se reconheço.
A porta bateu novamente. Os rapazes chegaram. O mais novo foi me acordar. Ele tem tendência a ser um homem romântico. Um homem romântico não é fraco, mas pode ser um boiola, nos tempos que correm. O mais velho saiu de casa sem dar cavaco a ninguém. Senti-me desrespeitada, mas agora eu o entendo. Levantei-me e fui esquentar comida. Terminei. Só para mim. Os meus filhos ficaram atônitos. A mesa vazia. A minha filha, impassível. Os rapazes, atordoados.
— Mas, mãe?
— Não tem mais "mas", nem "mãe". A partir de hoje, vocês vão se reorganizar e aprender a viver. Vou cumprir as minhas obrigações de mãe. Mas cozinhar, passar, lavar? Nunca mais. Filhos com menos de dez anos já não tenho.
— Isso é uma violação dos nossos direitos.
— Que direitos? A mais nova tem dezesseis. O mais velho vai fazer dezoito. E entre esses anos, eu perdi os últimos vinte. As oportunidades, as escolhas, a vida.
O meu filho mais velho falou comigo depois de quase um ano. Eu estava deitada. Ele bateu na porta. Confesso que já tinha perdido as esperanças de entendê-lo.
— Mãe, eu te entendo. Devias fazer o que eu faço.
— Fazer o quê? — Sair na sexta e voltar na segunda? Perder-me na noite sem mapa, sem culpa, sem santo? Rodopiar entre os homens sem nome, sem rosto, sem passado, beber deles o que têm de podre e rir do que julgam ter de puro? E se me chamarem de vadia, de perdida, de mulher que não se dá ao respeito, eu rirei, eu gargalharei como quem descobriu o truque do mágico?
—Beber. Sim, beber. Mas não qualquer bebida, não qualquer veneno. Beber o grogue mais fétido que se pode encontrar, aquele que cheira à sola dos pés dos desesperados, à baunilha dos corpos cansados das mulheres da noite. Sentir o álcool subindo dos pés até os ossos do crânio, latejando como um tambor primitivo, sentir a vida correndo pelas veias como um bicho recém-liberto da jaula. E cantar. Cantar desafinada e impura, nos bares onde as ratazanas rezam e as putas dançam, nos becos onde o mundo se esquece de existir, onde os santos se fazem de surdos e os anjos viram o rosto de vergonha. Cantar até as cordas vocais cederem, até a segunda-feira amanhecer de joelhos, exausta de esperar pelo meu retorno.
—E depois, voltar para casa, meu filho?
—Volte e conta tudo ao teu homem, ao marido, ao companheiro, ao acaso que te coube. Olhá-lo nos olhos e dizer: sim, estive lá, fiz tudo e mais um pouco, provei o fel e o mel da rua, e cá estou. Se ele rir, é porque é um grande homem.
— E Se ele me chamar de puta?
—Será porque finalmente és uma mulher livre!?
Foi a primeira vez que chorei desde o dia da leitura do acórdão de separação, há dois anos, no tribunal. Contudo, prometo viver.
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