Halloween party ideas 2015

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Por estas horas em que este texto chega às mãos do leitor, Cabo Verde está prestes a entrar em campo no mundo inteiro. E isto não é apenas uma figura de estilo: é quase uma irregularidade no calendário universal. Um jogo, um simples jogo, mas, em futebol nada é simples, até houve tolerância de ponto decretada pelo Governo, para que o país inteiro pudesse parar para assistir ao batimento cardíaco do seu próprio orgulho.
Do outro lado está a Espanha, essa ideia de país convertida em sistema futebolístico, em metodologia, em gramática minuciosa do passe, em religião do posicionamento em campo, um território onde a bola parece ter passado primeiro por uma escola técnica (longe da variante em São Domingos,) antes de aprender a tocar no relvado, onde o remate já vem com diploma e o passe curto tem genealogia europeia certificada, quem não se lembra do Barcelona de Pep?
Aqui, porém, a realidade é outra, aqui, apesar de termos escolas de futebol e alguma efervescência amadora, até para discutir o relvado é preciso convocar assembleia, comissão, parecer técnico e, se possível, uma espécie de consenso nacional que chega sempre atrasado ao apito inicial. E ainda assim… jogamos.
Do nosso lado há dez ilhas. Nove habitadas com uma teimosia que já devia constar em tratados de sobrevivência humana por sermos os últimos a chegar ao mundo. Não temos uma liga que se venda em catálogo internacional. Não temos a sofisticação industrial do futebol como produto global, mas temos os nomes dos craques internacionais por todas as ilhas, sempre cheiramos a fórmula do sucesso, nem que seja só pelos nomes dos outros. Temos outra coisa: improviso com dignidade, futebol de poeira nos pés e orgulho nos olhos, futebol que muitas vezes nasce em campos de terra batida que parecem ter sido desenhados por um vento distraído, com pressa de ir embora, e ainda assim, ou talvez exatamente por isso, continuamos a existir.
Há jogadores desta seleção que vivem do futebol, outros vivem com o futebol, e há ainda aqueles que vivem apesar do futebol, mas todos carregam a mesma contradição: nenhum joga verdadeiramente em casa, porque o “em casa” já não é geografia, a cabo-verdianidade atravessou os mapas físicos das ilhas e passou a residir na memória, a seleção nacional é, nesse sentido, a sua forma mais visível.
Desde os primeiros tempos, havia mais sonho do que estrutura, mais orgulho do que plano, mais improviso do que metodologia, jogava-se por prazer, sim, mas também por algo mais perigoso: a ideia de país. E isso, num arquipélago, nunca é simples, porque um país feito de ilhas nunca é inteiro, é sempre um esforço de junção.
Disse alguém, com razão emocional se não académica, que Cabo Verde é um país de insistência, e talvez seja isso: um país que só existe porque nunca desistiu de parecer possível, um país onde o impossível não é negação, mas apenas atraso, este último inspirei no PP e Ulisses, apesar de que neste momento o presidente José M. Neves, estar a medir a sua popularidade com a dos jogadores lá nos Staites, de qualquer forma, os dois estão em campanhas, uma para a nação e outros para a reeleição.
Há quem diga, com uma ousadia poética perigosa, que somos um país “sexualmente transmissível no sentido simbólico da palavra”: quem nos encontra leva-nos consigo, fica com um ritmo, uma leve febre, uma alegria triste que não sabe bem onde pousar, e então chega o jogo, amanhã, 15 de junho, data que já se comporta como história antes mesmo de acontecer.
Cabo Verde contra Espanha. O improviso contra a máquina, a ilha contra o continente, o instinto contra a técnico, o poeta contra o engenheiro, e, se quisermos exagerar com alguma elegância Literária, Manuel Veiga contra Cervantes, Mário Lúcio contra Javier Marías e José Luís Tavares contra Juan Ramón Jiménez, sem livros, apenas no relvado, respiração e transpiração.
Se empatarmos… o mundo não saberá onde guardar o espanto ou encanto. Se ganharmos… o mundo terá de reorganizar os mapas mentais onde guarda as suas certezas, e se perdermos… não será exatamente uma derrota, será apenas mais um capítulo da nossa forma peculiar de resistência: perder sem desaparecer.
Mas há uma verdade que resiste a tudo isto, uma verdade quase infantil, irresponsável, quase sagrada: Cabo Verde acredita, sem provas, sem garantias, sem estatuto, acredita como quem respira. Porque aqui o futebol é como se fosse uma espécie de linguagem, um passe errado pode ser uma teoria do destino, um drible pode ser identidade nacional em estado puro, um golo pode ser um país inteiro condensado numa única sílaba: golo.
Talvez seja isso que amanhã está realmente em jogo, não o resultado, mas a confirmação de que a grandeza não depende do tamanho, depende da insistência.
Cabo Verde não entra em campo para ser respeitado, entra para ser inevitável, e mesmo que o resultado diga outra coisa, já venceu aquilo que não cabe em estatísticas: o direito de ser visto.
E quando a bola começar a rolar, talvez o mundo descubra o que nós já sabemos há muito tempo: há países que não jogam futebol. Jogam destino.
E às vezes, só às vezes, o destino veste azul. Respira fundo.
E grita.
É Golo de alimária de oceano.

                                   




Colhe Bicho nunca pediu licença ao Estado para existir. Nasceu da força das suas gentes, dos braços calejados e das mães que criaram filhos de mil homens e mil mulheres, porque muitos pais emigraram e nunca mais voltaram. O bairro cresceu sozinho, à margem, sem Estado colonial, sem partido único, sem os discursos ocos da capital. Cresceu com aquilo que sempre foi o mais precioso: a união e o orgulho de ser comunidade.

Éramos conhecidos por andar juntos, por não aceitar desrespeito nem abuso. Chamaram-nos de tudo: mokerus, salbaxus, malcriados, antissociais. Mas ser “antissocial” fora de portas até tinha o seu charme era a nossa marca de resistência, uma espécie de luxo político, um casaco malcheiroso mas cheio de estilo. Quem chegava com respeito, ficava. Quem vinha com pose, levava corretivo não com comunicados da Câmara, mas com o poder anónimo da comunidade.

No meio da dureza, havia festa. As crismas em julho viravam quase congressos populares: mesas na rua, kaldu pexi a rebentar as costuras das panelas, danças intermináveis e jovens com intenções sérias ou nem tanto. A fama era simples: quem viesse brincar com as moças do bairro, sem respeito, ficava a saber o que era disciplina popular. Um bairro que criava mais professores por metro quadrado do que muitas capitais africanas. E tudo isso sem Estado.

Depois, vieram os anos 90: água, luz elétrica, estradas, organização. Descobrimos que havia mundo para lá da vila, mas nunca perdemos a união. Até que um dia nos roubaram o campo de Txam Riba. Roubaram-nos o coração do bairro. Levaram o símbolo e deixaram a urbanização.

E chegamos ao presente, aos últimos cinco anos: um bairro arrumado, organizado, com quadros e doutores, mas também com jovens deixados à sua sorte, usados em campanhas e descartados como latas de cerveja no chão. A PJ invade, prende futuros ainda em gestação. As drogas circulam, as bebidas pesadas substituem a revolta e a alma virou negócio barato.

O mais engraçado ou trágico é que este foi o bairro que deu ao atual presidente alguns dos melhores resultados eleitorais. Aqui houve campanha, bandeira, promessas e até vereadores. Hoje, há abandono. Os jovens olham para os outros bairros com programas camarários e atividades financiadas, enquanto Colhe Bicho serve apenas para duas coisas: votos e relatórios da polícia.

Dizem que temos partidos, mas o que perdemos foi a alma. Vendida em discursos de humildade inúteis, esquecida em cerimónias de “faz de conta”, corrompida pelas drogas que substituíram a dignidade.

As autoridades que nos lêem se é que leem devem ser lembradas disto: O Estado só aparece em Colhe Bicho quando quer votos ou quando vem de farda e arma na mão.

O bairro que outrora criou professores, atletas e líderes comunitários é o mesmo que hoje exporta jovens para as prisões.

A alma que foi motor de revolta virou estatística de crime.

Mas Colhe Bicho não é só desgraça. Ainda respira. Ainda há velhos que contam histórias de união, ainda há mães que seguram a vida com mãos de ferro e ainda há jovens que sonham, mesmo quando o Estado insiste em tratá-los como pesadelo.

A pergunta é simples: até quando o Tarrafal vai permitir que um dos seus bai
rros mais históricos seja apenas visitado em tempo de campanha? Até quando a Câmara vai fechar os olhos à degradação, fingindo que “urbanizar” é suficiente? Até quando o Estado vai usar Colhe Bicho como vitrine de pobreza para relatórios internacionais, em vez de a reconhecer como o que sempre foi — uma comunidade com dignidade, memória e voz?

Porque Colhe Bicho não nasceu com Estado. E, se for preciso, também não morrerá com ele.

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