TCHALÊ | Um rebelde contra a utopia domesticada! Escrever Alte pinho
Falar de Tchalê Figueira é, desde logo, falar de rebeldias e insubmissões, seja na prosa, na poesia ou na arte.
Portanto, fica desde já este aviso à navegação. Não se vem aqui hoje fazer um recital de tias, nem debitar extensas narrativas com citações à mistura.
Antes de mais, vem-se aqui hoje desinquietar os espíritos e fazer algumas provocações.
É isso que nos move.
Ora bem, mais de trinta professores foram convidados para esta apresentação. Quantos vieram? Mais, quantos professores têm bibliotecas nas suas casas, por modestas que sejam?
Quantos professores, para além das obras curriculares, sugerem leituras aos alunos?
Se começarmos por aqui, poderemos perceber por qual razão vem tão pouca gente ao lançamento de livros e, menos ainda, se dignam comprar um livro que seja uma vez por ano.
As escolas e universidades estão a formar legiões de analfabetos funcionais, alguns deles futuros professores, que irão reproduzir a ignorância, a incultura e construir cidadãos diminuídos e submissos, reverentes e lambe-botas.
É essa, aliás, a missão fundamental do ensino oficial, da máquina que o sustenta e do sistema que, ano após ano, reproduz gerações de ignorantes, desde há décadas.
No ensino oficial, autores como Tchalê Figueira não têm lugar marcado – por isso são praticamente desconhecidos. No ventre do poder, no interior cinzento da Assembleia Nacional, o pintor foi censurado e acusado de pornografia.
O País culto e minoritário deu gargalhada estridente e geral; a maioria verberou contra o pecado e ameaçou com a fogueira inquisitorial.
O pintor e o autor – uma única e mesma pessoa – têm em comum um valor maior: o amor à liberdade!
Seja na pintura, na prosa ou na poesia, Tchalê Figueira sugere-nos um caminho: não há arte pela arte, não há palavras sem rumo.
Cada criação do autor e artista é um grito contra o situacionismo, o amorfismo social e a imbecilidade coletiva. Tchalê apela-nos a tomar partido e a ser parte de alguma coisa: de uma causa, de uma bandeira, de um berro incontido e anarquista de afetos.
Ele próprio, anarquista dos caminhos da vida, vagabundo da escrita e aprendiz de feiticeiro, Tchalê nunca seria – evidentissimamente – uma puta de esquina, um proxeneta ou um deputado da nação, tão pouco um intelectual de salão.
Tchalê é ele próprio, um rebelde contra a utopia domesticada!
Em A Idade Poética, Tchalê Figueira dá-nos a mão para um percurso de vida pelos caminhos da poesia. Uma aventura iniciada em 1985, após 15 anos de ausência das ilhas.
É, aliás, no arquipélago – o que não deixa de ser digno de registo – que Tchalê se atira por inteiro à poesia e começa a rabiscar as primeiras linhas, par a par com o domínio das tintas, das telas e da técnica.
Seria o chamamento das ilhas responsável pelo surpreendente percurso pelo caminho das letras, a par de um bem-sucedido rumo pelas artes plásticas - que o faz conhecido e reconhecido em vários destinos deste mundo?
A Idade Poética é, ainda, o percurso por espaços momentos da História de Cabo Verde e da muito particular visão do autor sobre o seu país, as suas gentes, a sua música, a sua cultura e a alma caboverdiana. É isso que se vislumbra nas entrelinhas e é isso que vos recomendo vivamente a ler.
António Alte Pinho
Assomada, 10 abril 2014
[Algumas notas de apresentação de “A Idade Poética”, Centro Cultural Norberto Tavares]
Postar um comentário