EVANGELHO BLASFEMO DA ILHA QUE QUER ENGOLIR A ESPANHA.
Em Cabo Verde, as
reformas chegam sempre de gravata: falam bonito, sorriem para a fotografia e
deixam a conta para o fim do mês. A mais recente chama-se PCFR do Pessoal
Docente e vem com estatuto, anexos, mapas, tabelas e promessas de dignidade: a
Assembleia aprovou, o Presidente promulgou e o Boletim Oficial carimbou. A lei
existe, é nova e está em vigor. BOE
O que muda mesmo (com
números à vista)
• Licenciados entram
no GEF-5 (Nível I) a 91.000$00. A tabela transitória mostra, preto no branco, a
linha “GEF 5”: 91.000 → 96.000 → 101.000 → 106.000 → … → 136.000. Cada mudança
de nível vale +5.000$00. É a escada horizontal do professor cabo-verdiano. BOE
• O “salto de 2.000”
morreu. O governo confirmou: no GEF-5 o incremento passou de 2.000 para
5.000$00, e o topo chega a 136.000$00. Não é poesia; é orçamento. Ministério de
Educação
• A tabela
transitória produz efeitos desde 1 de janeiro de 2025. Não é retrospetiva
filosófica; é data legal. BOE
Tradução para quem
vive com giz nas mãos: quem estava a 78.000 com licenciatura salta para 91.000
(nível I); com 5 anos de serviço tem estofo e créditos para estar tipicamente
nos 96.000 (nível II); com 10 anos, 101.000 (nível III); com 15 anos, 106.000 (nível
IV). É a mesma lógica da tabela, passo a passo de 5.000 em 5.000—sem truques.
BOE
Mestres e doutores:
menos pedestal, mais velocidade
O PCFR foi honesto
(pela metade certa): a porta de entrada é a licenciatura; mestrado e
doutoramento já não valem “ingresso especial”. Em vez disso, a lei dá bónus de
créditos de desempenho: +210 pontos para mestrado, +280 para doutoramento—o que
acelera a progressão nos níveis (logo, o salário). Em português simples: não
entram mais alto, sobem mais depressa. BOE
Por isso é que muitos
mestres que recebiam 91.000 no regime antigo veem-se agora posicionados acima
(p. ex., 106.000), porque a linha de base do licenciado encostou ao valor
antigo do mestre e os créditos empurram a carreira para o nível seguinte. É
menos glamour e mais mecânica de tabela—mas paga contas. (O Governo e a
imprensa oficial repetiram: o PCFR “valoriza” e “permite evolução rápida”.)
Inforpress e Governo de Cabo Verde
Primária
(monodocência): tirar a dúvida do mito
Circulou por aí que
os professores do 1.º ciclo tinham +10%, +20%, +30%, +40% no salário pelos
15/20/25/30 anos. Não é percentagem. A lei escreveu valores fixos de subsídio
por não redução da carga horária:
10.000$ aos 15 anos,
15.000$ aos 20, 20.000$ aos 25 e 25.000$ aos 30—com impacto na pensão se
recebidos nos últimos dois anos. Nada de percentagens mágicas, tudo com vírgula
e carimbo. BOE
Quem fica fora do
GEF-5?
A regra é clara (e
dura): só quem tem licenciatura ou superior é enquadrado no GEF-5. O restante
subsiste nos cargos e evolui por outras vias. Está dito e repetido pelo próprio
Ministério.
Transição e listas: a
burocracia também tem calendário
O Boletim Oficial já
publicou listas de transição e enquadramento, fechando a dança dos nomes que
andou meses em “provisórios” e Facebooks. Quem precisava de ver o seu lugar no
tabuleiro, já o pode ver sem boatos. Governo de Cabo Verde
E a crónica, então?
A nova grelha tem
qualquer coisa de anúncio de telemóvel: promete rede, velocidade e minutos
ilimitados, mas obriga a ler as letras pequenas. A letra pequena aqui diz isto:
o patamar de dignidade mínima subiu para 91.000$00; quem estudou mais não entra
por cima, mas chega ao topo mais cedo; e os professores do 1.º ciclo ganharam,
finalmente, um subsídio que reconhece a heroicidade de dar tudo a uma turma
inteira, sem descontos na carga horária.
Se é suficiente? Num
país que se habituou a chamar “pendência” a tudo o que devia ter sido resolvido
ontem, talvez o PCFR seja menos um final feliz e mais um princípio decente. A
boa notícia é que, desta vez, a poesia bate certo com a aritmética: GEF-5 começa
em 91.000, sobe de 5.000 em 5.000 e termina em 136.000. O resto é trabalho—e
vontade política para que os créditos de desempenho não virem só carimbo e
formulário.
Enquanto isso, a
escola prossegue: giz, caderno, quadra de bola, poeira. E um país inteiro a
descobrir, a muito custo, que a educação não é despesa: é o único investimento
que rende léguas de futuro.
Fontes requisitados para este trabalho:
SIPROFIS
— Lei n.º 46/X/2025
(PCFR do Pessoal Docente) publicada no BO: aprovação, vigência e estatuto. BOE
— Tabela de
Remuneração Transitória (GEF-5: 91.000→…→136.000; incremento 5.000). BOE
— Efeitos a partir de
1/1/2025. BOE
— Incremento no GEF-5
de 2.000 para 5.000 e teto de 136.000 (informação oficial). Ministério de
Educação
— Bónus de créditos:
+210 (mestrado) e +280 (doutoramento). BOE
— Subsídio de
monodocência (10k/15k/20k/25k) e impacto na pensão. BOE
— Critério GEF-5
reservado a licenciados; comunicação do Ministério. Facebook
— Listas de transição
publicadas oficialmente. Governo de Cabo Verde.
| Abraão Vicente |
Abraão Vicente talvez seja, neste momento da história de Cabo Verde, o homem mais lúcido e contraditório que o país produziu. E por isso mesmo, mais necessário. É difícil classificá-lo, mais ainda ignorá-lo. O seu nome vibra entre corredores de ministérios, paredes de bibliotecas, murais de exposições e palcos improvisados onde se lê poesia à sombra da brisa do mar. Há nele uma inquietação trazida de piku sor do mundu, como se as vozes de Assomada, onde nasceu, ainda lhe batessem no peito como um tambor de chamada permanente.
É poeta e político, dois ofícios que, em quase todas as geografias, se anulam mutuamente. Mas não em Abraão. A sua poesia pulsa na política e a sua política respira versos, com todas as contradições e virtudes que isso acarreta. Ele não é homem de trincheira: é homem de fronteira. Onde a esquerda da sua infância ideológica dava as mãos à nostalgia, ele preferiu virar à direita, mas uma direita com leitura, com arte, com insónia e ética. A família, supõe-se, tremeu com a escolha. Mas Cabo Verde ganhou um estranho caso de coragem intelectual.
Abraão Vicente é, acima de tudo, alguém que não se cala. E se fala, é porque pensa, o que já é dizer muito num tempo onde os discursos políticos são feitos para encher calendários e fingir ação. Ele não finge. Nem na literatura, nem na gestão, nem na vida pessoal. Homem de família, protetor, cristão e conservador em muitas coisas, é também um dos rostos mais duros da política cultural do arquipélago. Há quem o tema, há quem o admire. Mas ninguém lhe passa ao lado. Ele aparece onde não se espera, diz o que outros temem. Quando o mar político se agita, ele não rema para trás. Muda a vela.
O jovem que começou como jornalista e artista plástico foi entendendo cedo que o país precisava mais de pontes do que de retratos. Não que tenha deixado de pintar, pintou a cultura cabo-verdiana com políticas estruturantes, com programas de acesso, com academias de arte que nasceram do nada, como quem ergue um poema em pedra. Como ministro da Cultura e do Mar, cargos que mais parecem metáforas do que pastas ministeriais, fez o que poucos fazem: ouviu os artistas, os pescadores, os marginalizados do progresso, os órfãos da modernidade, e com isso redesenhou estratégias de futuro.
É por isso que ele é tão difícil de seguir e tão fácil de escutar. Porque há coerência na sua mudança, lógica na sua rotura. É como se vivesse permanentemente num estado de criação. Ao invés de deitar a toalha ao chão, ele transforma a toalha em manifesto. Desafia o sistema sem destruir a ordem. Questiona a cultura sem trair a tradição. E talvez por isso não caiba bem nos rótulos políticos fáceis. Porque ele pensa, e pior ainda: pensa alto. e neste momento esta a prestar um grande esclarecimento ao país que parece querer correr para um passado desabonatório, é que o fácil normalmente sai caro.
Quando aceitou ser Ministro do Mar, muitos torceram o nariz. Mas foi no mar que mostrou o que é governo com profundidade. Enquanto outros se perdiam em reuniões de protocolo, ele tratava de cais, de pesca, de política azul, de internacionalização da costa cabo-verdiana. E quando voltou ao Parlamento, depois de ter perdido as autárquicas da Praia, fê-lo com a mesma dignidade com que um poeta se ergue após o silêncio, sem rancor, sem espetáculo, apenas com o desejo teimoso de continuar.
A sua obra literária, embora menos visível nos jornais do dia, é das mais sinceras da sua geração. Escreveu cartas improváveis à ex. mulher amada, publicou poesia de labirintos íntimos, fez literatura como quem sopra brasas para manter a alma quente num país que às vezes esquece os seus. “Amar sem medo” é o seu livro mais revelador: não é só sobre amor, é sobre convicção. Abraão escreve como vive: sem pedir licença. E governa como escreve: sem perder a lucidez do espanto.
Ele é um daqueles raros exemplos de homem público que não trai o artista que carrega dentro. E talvez por isso, seja também dos poucos políticos que não se deixam vencer pelo cansaço. Porque há sempre mais uma ideia a propor, mais uma lei a questionar, mais um poema a semear em terra de cinismo. É essa resiliência, essa capacidade de sonhar como um menino e trabalhar como um velho sábio, que o faz único.
Há frases que nos ficam na cabeça como farpas no pé, mesmo que já nem saibamos quem as escreveu. Uma vez li, e já nem sei onde, talvez num poeta africano ou num guardanapo de bar, que “o silêncio é cúmplice e a memória, seletiva”. Cabo Verde, nesta comemoração dos cinquenta anos de independência, provou a verdade dessa frase com a precisão de um relógio suíço... falsificado, aparentemente estão errados, aparentemente estão certos, não cabe a eles vangloriarem com o sucesso e a dimensão histórica do Cabral, mas não sabe a eles enquanto autoridades ignorar ou passar levemente por essa história sem dar a verdadeira digna citação.
Porque vamos ser francos: festeja-se a liberdade com pompa, bandeirinhas, cachupa, tenterem e djagasida em cerimónia e discursos amaciados com vaselina ideológica, mas evita-se cuidadosamente mencionar o nome que tornou tudo isto possível, Amílcar Cabral. É como celebrar o Carnaval sem batucada. Ou pior: como celebrar o 15 de janeiro sem lembrar de Nhô Amaro, o santo, sem lembrar que o aniversariante acabou crucificado por dizer verdades.
Mais uma vez, Cabral foi reduzido a um fantasma que só aparece nas fotografias velhas ou quando dá jeito ao partido da ocasião. E não é preciso ser cabralista (não sou) para ver que há aqui uma aldrabice descarada. Cabral não é santo, mas também não é batata para andarem a descascar consoante a receita eleitoral do momento.
Quando se “apagou” Cabral das cerimónias oficiais, não foi distração: foi estratégia. Porque Cabral, com aquela voz calma e ideias perigosamente lúcidas, não serve aos pequenos jogos de poder, nem se dobra às modas revolucionárias recicladas em gabinetes com ar-condicionado e empadinhas de camarão.
O problema nem é a direita, essa já se sabe que vê Cabral como entre parêntesis da história, justo o seguimento que mais tem feito e dignificado o Amílcar Cabral. O problema é mesmo a esquerda cabo-verdiana que se diz herdeira do homem e o trata como se fosse logotipo de campanha, mascote de congresso, ou biografia de bolso para agitadores de redes sociais que não leram uma linha do que ele escreveu. A esquerda que se diz cabralista, mas cala. Cala-se quando deviam berrar. Cala-se por estratégia, por medo de parecerem desatualizados, ou pior, porque se habituaram a usufruir da imagem do homem como se fosse um cartão VIP de entrada nos salões do poder.
E os outros, os tais que se dizem “históricos”, aqueles com lugar cativo nas comissões e nas inaugurações, andam calados há tanto tempo que já devem ter esquecido o som da própria consciência. Vêem o nome de Cabral ser distorcido, aproveitado, instrumentalizado, e respondem com o mais ensurdecedor dos silêncios. Silêncio institucional. Silêncio estratégico. Silêncio de quem lucra mais calado do que honesto.
Mas vamos lá deixar claro: Cabral fundou o PAIGC. Quando morreu, o PAICV ainda era sonho molhado no útero cerebral de alguns. Portanto, não há exclusividade de legado, há, sim, respeito de quem entende que o homem é maior do que qualquer sigla ou bandeira partidária. E há mérito de quem estuda, critica e reconhece a grandeza sem necessidade de ajoelhar-se em altar ideológico.
E eu, que não sou cabralista de carteirinha, digo com todas as letras: defender Cabral é não o deixar ser mascote de ninguém. É poder discordar das suas ideias sem rasgar o seu valor. É poder dizer que o tempo mudou, mas a espinha dele ainda serve de régua para medir a dignidade de um país.
Como dizia José Craveirinha: “As minhas palavras são sangue”. E as palavras de Cabral continuam a sangrar neste país que celebra aniversários como quem dança num velório. Paulin Hountondji já dizia que a verdadeira descolonização acontece dentro da cabeça. E nesse aspeto, parece que temos muitos cérebros ainda sob administração colonial.
Cabral é mundo. E neste mundo há cada vez menos gente com coragem para honrá-lo como se deve: sem beijos no retrato, sem discursos reciclados, e sem medo de incomodar. E aos que continuam a usar o seu nome como tábua de salvação política: completem primeiro as vossas biografias. Depois, talvez tenham moral para tocar no dele. Até lá, deixem-se de homenagens de ocasião. Cabral não precisa de vocês. Vocês é que, desesperadamente, precisam dele. Alias. Nós.
Mário Loff
O burro chegou à velha Ponte de São Domingos como um espectro cansado, arrastando os cascos como quem carrega o peso não apenas do corpo, mas de todas as passagens já feitas por aquele caminho. Das suas narinas, pingos de água escorriam com a lentidão de uma febre silenciosa, como se o próprio ar, saturado de exaustão, se recusasse a entrar em seus pulmões. Ao redor, a névoa engolia o mundo com uma delicadeza cruel, dissolvendo contornos, apagando horizontes, abafando sons. Nada existia senão aquele instante suspenso entre o que se lembrava e o que se temia.
Sentado junto ao parapeito de pedra, um homem, ou o que restava de um homem, fundia-se à bruma, indistinto, imóvel, como uma estátua que tivesse esquecido o seu propósito. Era impossível dizer se respirava ou apenas imitava o gesto da vida. O seu corpo apoiava-se na antiga ponte, monumento de uma era em que atravessar aquelas pedras era mais do que deslocar-se: era sobreviver, era desafiar os ventos interiores da ilha, era enfrentar as bruxas que, dizem, ainda guardavam os montes.
Lá em baixo, no vale esquecido, o rio deslizava como uma serpente cansada, entoando um murmúrio que parecia um adeus prolongado às chuvas que se recusaram a partir. Esperavam-se três meses de água. Chegaram seis. Um dilúvio lento, piedoso e impiedoso ao mesmo tempo, que lavou as igrejas e os pecados com a mesma indiferença. Os homens, os que resistiram, os que ficaram, comentavam que talvez tivesse valido a pena benzer-se diante de cada templo das ilhas, que talvez o céu tivesse, por um instante, escutado.
Mas a ilha, agora, era toda ela uma prece verde. Um manto húmido cobria montanhas e vales com uma uniformidade quase opressiva. Não havia outra cor, não havia outra matéria. As folhas tremiam com uma vitalidade inquieta, e cada gota de orvalho parecia conter uma lembrança esquecida ou um pensamento que ninguém ousava confessar.
O tempo, nessa manhã insone, parecia coagulado. Os segundos não passavam, pairavam, como insetos parados no meio do ar. O céu, denso e baixo, apertava os ombros dos vivos e fazia-os lembrar-se das terras distantes que haviam abandonado, como se o passado sussurrasse dentro de cada nuvem. As viaturas, antes impacientes e ruidosas nas estradas curvas, jaziam imóveis — resignadas, talvez, ou adormecidas. O mundo, inteiro, parecia à espera de um gesto que não viria.
E nesse tempo suspenso, quase absurdo, os homens reaprendiam a sonhar. As terras, antes duras e esquecidas, devolviam brotos como se, subitamente, lembrassem o que era ser fértil. As mãos, que um dia empunharam ferramentas sem esperança, agora dançavam com paus e enxadas, como se escavassem não a terra, mas uma possibilidade. Talvez fosse a terra, ela mesma, que decidira acreditar.
Quando o meio-dia se insinuou por entre os véus da névoa, como um intruso relutante, a bruma começou, lentamente, a retirar-se, não como um gesto natural, mas como quem cede espaço a algo inevitável. E foi então que as figuras surgiram: primeiro o burro, depois o homem, ambos esculpidos em silêncio, como se tivessem sido ali colocados por um escultor hesitante que abandonara a sua obra a meio.
O rosto do homem não pertencia a São Domingos. Havia algo de deslocado, algo de ausente e, ao mesmo tempo, excessivo. Era um rosto que não pertencia a lugar algum, e talvez por isso perturbasse os que o viam. Tinha o olhar de quem testemunhara algo que não deveria ser lembrado, e no entanto carregava a lembrança consigo como um fardo inevitável.
O burro, firme sobre as pedras da ponte, parecia ter-se fundido à matéria mineral, como se a sua alma tivesse escolhido aquele exato ponto para repousar eternamente. Era um animal vencido e, ao mesmo tempo, invicto, recusava-se a continuar, não por medo, mas por convicção.
— Anda, burro! — bradou o homem, e a sua voz, ao rasgar o silêncio, soou como um açoite contra a carne do mundo.
Mas o burro não se moveu. Havia na sua imobilidade uma força ancestral, uma obstinação que desafiava a lógica. Ele olhava adiante, ou talvez dentro de si, com olhos que continham séculos de submissão e resistência, como se ali, na sua paralisia, estivesse toda a sua liberdade.
— Vamos, burro! Anda logo! — insistiu o homem, a frustração crescendo como uma febre mal contida.
A ponte parecia alargar-se com cada grito, como se o som transformasse o espaço, esticando o tempo até ao insuportável. A cada palavra, o mundo ficava mais irreal.
— Vou-te bater, seu burro... burro miserável! — rugiu por fim, quase num soluço de impotência.
E então, o impensável: o burro virou lentamente a cabeça, e os seus olhos, dois poços escuros e densos, encontraram os do homem. Não era um olhar animal. Era um olhar que julgava.
E num instante que durou mais que todos os outros, uma voz surgiu — não do burro, mas de algo que parecia ecoar através dele, talvez da terra, talvez do próprio homem.
— Por que tanta pressa, homem? — disse a voz. Era grave, pausada, como se cada sílaba carregasse a dúvida de séculos. — Não vês que o caminho à frente é incerto? Que talvez não haja sequer caminho? Talvez seja melhor parar. Pensar. Lembrar o que procuras, se é que procuras.
O homem recuou, o corpo tenso como um arco que se desfaz. Aquilo não era natural. Mas, de algum modo, era necessário.
— O que eu procuro? — murmurou, como se a pergunta tivesse sido arrancada de dentro de si. — Procuro sobreviver... trabalhar a terra... arrancar da vida o pouco que ela ainda me oferece.
O burro — ou a presença que falava através dele — inclinou ligeiramente a cabeça. Havia compreensão, mas também lamento.
— Trabalhar a terra é um ato de fé, homem. Fé no invisível, no imprevisível. Fé de que o solo te dará o que precisa, de que as chuvas virão quando chamadas. Mas e quando não vêm? Quando o solo te nega até o pó? E tu, o que cultivas dentro de ti?
O homem calou-se. Algo no ar tinha mudado. A ponte já não era apenas uma ponte, o burro já não era apenas um animal. E ele próprio, talvez já não fosse apenas um homem. Um silêncio espesso voltou a descer, e com ele, uma pergunta invisível: quando foi que esquecemos de parar?
O homem permaneceu calado. Mas não era um silêncio comum — era um silêncio que se adensava no ar, espesso, quase palpável, como se o tempo tivesse suspendido o próprio fôlego. As palavras do burro, tão absurdas quanto reveladoras, haviam se infiltrado na sua consciência com a lentidão implacável das chuvas que escavam montanhas.
Ergueu os olhos para as serras ao longe. As encostas, agora recobertas de um verde denso e quase irreal, pareciam observá-lo. E, sob aquele olhar vegetal, percebeu — com um misto de desconforto e clareza — que a sua presença ali não se devia apenas a uma necessidade bruta de sobrevivência. Não era só a fome ou o trabalho que o prendiam àquela terra. Era algo mais íntimo, mais primitivo. Uma espécie de confissão muda à existência. Um amor, talvez. Um amor rude e sem palavras pela terra que lhe arranhava as mãos, mas lhe sustentava a vida.
— Tens razão, burro — murmurou, e as palavras pareceram pesar mais do que deveriam. — Sempre acreditei que bastava curvar o lombo, arrancar da terra o que ela pudesse dar. Mas agora vejo... há mais. Há sempre mais. Esperança. Amor. E isso... isso eu deixei morrer em mim.
O burro, imóvel como um monumento ancestral, inclinou levemente a cabeça, como se aquele gesto milimétrico carregasse séculos de sabedoria silvestre.
— O amor ao próximo — disse ele, com voz antiga — é como a chuva que se espera sem saber se virá. Alimenta o invisível. Preenche o que a terra não alcança. Quando dedicas as mãos à terra, dedicas também o coração aos que dela dependem. Somos raízes de uma mesma árvore. Ignorar isso é secar por dentro.
O homem deixou escapar um sorriso breve, quase um espasmo de incredulidade.
— E tu, burro, o que sabes do amor? — perguntou, a voz tingida de uma leve ironia, como quem testa a realidade apenas para certificar-se de que ela ainda resiste.
Mas o burro não se ofendeu. O burro não podia ofender-se — ou talvez pudesse, mas escolhera não o fazer.
— Sei que o amor é uma força que não se vê, mas que nos obriga a caminhar, mesmo sem saber o destino. — respondeu com tranquilidade. — Tu e eu... somos carne diferente, sim. Mas espírito semelhante. Ambos carregamos o peso do que não escolhemos, ambos buscamos um lugar onde sejamos menos estranhos. No fundo, procuramos o mesmo: um sentido. Ou, ao menos, o consolo da procura.
O homem aproximou-se devagar. Os seus dedos tocaram o pescoço do animal com uma ternura que não julgava possível em si. A aspereza dos pelos, o calor vivo do corpo que persistia em existir, deram-lhe uma estranha paz. Era como se ali, no toque, houvesse uma comunhão sem linguagem.
— Talvez sejamos mais parecidos do que eu queria admitir — disse, com um riso cansado, quase melancólico. — Ambos obstinados. Ambos... com sede de mais do que apenas continuar vivos. E talvez eu tenha de aprender contigo. Ou... reaprender.
O burro não respondeu de imediato. Pisou o chão com uma lentidão cerimonial, como se testasse a realidade. Depois, disse:
— A vida é um campo sem margens, homem. Vasto. Imprevisível. Mas se nos permitirmos partilhar o peso, mesmo que em silêncio, ela torna-se menos cruel. Cultivar a terra é necessário. Mas cultivar o que te move... isso é urgente.
Houve então uma pausa. E nessa pausa, o mundo pareceu suspenso. Não por medo, nem por dúvida, mas porque, por um instante, tudo fazia um estranho e inquietante sentido.
O homem assentiu. Mas o seu gesto, simples à primeira vista, carregava um peso novo. Não era apenas a aceitação das palavras do burro, mas a aceitação de si próprio, da sua falha, da sua fome não apenas de pão, mas de sentido. Sentiu nascer ali uma ligação antiga, como se o tempo tivesse voltado sobre si mesmo para costurar aquela cena em todas as outras em que havia passado em silêncio por algo essencial.
E ali ficaram, lado a lado, homem e burro, na velha Ponte de São Domingos, a ponte de pedra que atravessava mais do que o rio, atravessava também um limiar invisível entre o que se é e o que se pode tornar. Acima deles, o céu deixava a neblina dissipar-se, revelando um azul tímido, como se também ele estivesse a aprender a existir de novo.
Por instantes que pareciam séculos, nenhum som se ouvia, senão o rumor discreto da água correndo sob os seus pés. E naquele silêncio, um entendimento ancestral firmava-se: às vezes, o mundo não grita. Sussurra. E é preciso parar, quase deixar de ser, para poder escutá-lo.
Quando o homem, enfim, ajeitou a alça do saco ao ombro e se preparou para seguir, o burro, como que tocado por um mesmo sopro interior, avançou. Não era uma obediência qualquer, era um acordo tácito entre dois seres que, por fim, se reconheciam. Já não eram apenas um homem e um burro. Eram algo mais: espelhos vivos de um mesmo cansaço e de uma mesma esperança, companheiros de uma travessia onde a jornada real se fazia por dentro.
Caminharam alguns metros e pararam de novo. No galho de uma acácia ressequida, dois passarinhos chilreavam como se anunciassem uma aurora secreta. O homem sorriu e, num gesto delicado e quase solene, retirou dos olhos do burro uma pequena luneta verde, encaixada ali sabe-se lá por quem ou quando, talvez um resquício de uma brincadeira antiga, talvez um símbolo de tudo aquilo que havia distorcido a sua visão do mundo.
Quando a luneta caiu, rolando pelo chão de terra batida, algo invisível também se desprendeu. O cenário não mudou, mas o olhar, sim. O mundo, afinal, estava igual. Mas ele, não.
Olhou para o burro como quem olha para o primeiro amigo da infância, para o irmão que se reconhece depois de uma vida inteira de estranhamento. E nesse momento, algo se imprimiu nele com a força de um carimbo sobre a alma: a lição de tornar-se mais humano é sempre um processo de escuta, nunca de domínio.
Atravessaram o vale em silêncio. Mas dentro deles, vozes antigas, sementes esquecidas e amores que nunca chegaram a nascer, começavam agora a germinar.
E diz-se, entre os poucos que se lembram, que naquela manhã em São Domingos o tempo parou por um breve segundo: só para deixar que homem e burro passassem.
Estou no Tarrafal por um ano. E digo-o como quem diz: “fui enviado para o deserto da lucidez”. Durante algum tempo, mantive-me calado, a beber a brisa, a morder a língua e a mastigar o silêncio. Mas há silêncios que se tornam cúmplices, e há alturas em que até o silêncio perde a vergonha de ser cúmplice. Chegou a minha hora de voltar a falar.
O Tarrafal, esse paraíso com cheiro a carne salgada e calor de uma subida a graciosa, é, em muitos aspetos, um dos lugares mais belos para se viver. Se fez o básico há mais de cinquenta anos, para se viver é um lugar. Pacífico, tranquilo, com o mar sempre a prometer mais do que cumpre. Mas atenção: nem toda a paz se mantém pacífica. Há uma paz que é anestesia. Uma calma que é coma. É isso, meus caros, é um problema.
O potencial cerebral da cidade, esse músculo invisível que sustenta nações, parece ter sido sequestrado entre dois extremos perversos: um “humildismo bocó” (não confundir com humildade) e uma racionalidade rastacuera, feita de slogans, dreadlocks e resignação disfarçada de liberdade. Como dizia Nietzsche, “quem combate monstros deve cuidar para que não se transforme também em monstro”. E aqui, o monstro não tem sete cabeças, tem só uma, mas, potencialmente… muito vazia.
Não há debate de ideias. Há “likes” “partilhas”, “da padodu”. Há silêncios coniventes, há o endeusamento de figuras duvidosas que falam bonito e fazem feio. O trabalho, esse verbo que fundou a dignidade humana, virou sinónimo de castigo. A juventude, seduzida pelo brilho falso do facilitismo, já não quer fazer o caminho. Quer saltar para a meta. E se possível, com um tutuk nos ouvidos e um subsídio no bolso.
E atenção, não sou contra o tutuk. É até um escape válido, uma arte com ritmo e identidade. Mas quando o único projeto de vida é “mandar rimas até calhar uma viagem a Lisboa”, estamos mal. Quando ser artista significa fugir do esforço em vez de sublimar o esforço, temos um problema sério de educação cívica, e estética.
Estamos a educar uma geração para acreditar que tudo deve ser dado. Mas, como perguntava Camus: “será possível viver sem se revoltar?”. Sim, mas é uma vida vegetal. Um país que se habitua à gratuitidade total é um país que se esqueceu de suar, de planear, de produzir. A cultura do “dá-me” é irmã da cultura do “rouba-me”. Quando tudo parece vir de graça, também tudo parece poder ser tirado.
Nos últimos anos, o Tarrafal mudou. Parte desta, para pior. E não falo de política partidária, falo de controlo e ao mesmo tempo abandono emocional. A juventude começou a ocupar as ruas, as praças e os bairros como quem ocupa o vazio. Em Colhe Bicho, por exemplo, jovens vagueiam de noite, sem rumo, sem formação, sem ocupação, mas com faca na mão. E ao que tudo indica, as autoridades sabem. E ao que tudo mostra, não fazem nada. A polícia limita-se a observar, como se fosse figurante numa novela má.
É inconcebível que, com formações gratuitas ou quase gratuitas no IEFP, com escolas abertas, com centros culturais disponíveis (mesmo que mal geridos), tantos jovens estejam completamente fora do sistema. E atenção: não são todos, claro. Há rapazes e raparigas a lutar, a estudar, a trabalhar duro. Mas a rua, essa entidade democrática que acolhe todos, tem ganho o terreno.
Já houve fóruns de juventude. Já houve seminários, conferências, documentos lindíssimos impressos a cores. E no fim? Nada. É como pintar as paredes de uma casa que está a desmoronar. Em Colhe Bicho, sente-se o abandono da câmara municipal. O governo finge que não vê. A polícia assobia. E os jovens, esses, vão fazendo o que podem: alguns sonham, outros assaltam, outros dançam no TikTok. Cada um à sua maneira, procurando o que o sistema não dá: sentido.
O que falta? Ousadia. Estratégia. Verdade. E um bocado de vergonha na cara das lideranças. Uma coisa é certa: o governo local e nacional, tem que colocar líderes e dirigentes não cultural, mas sim culto e cultural a frente dos postos de decisão. Falta criar espaços culturais onde os jovens possam ser mais do que figurantes de bairro. Onde se possa escrever sem medo de ser poético, compor sem autotune, programar sem precisar fugir para Lisboa, e expor sem ser na esquadra.
As escolas precisam deixar de ser aqueles lugares onde se vai só para cumprir castigo das 7h às 13h, com intervalos de tédio. Falta transformá-las em laboratórios de reinvenção, onde se aprende a fazer beats e a ler Fernandos Pessoas no mesmo dia, e sem parecer esquizofrenia.
Imagina um puto com acesso a um microfone decente, uma câmara que não seja só de selfie, uma guitarra afinada, e um livro daqueles que, quando fechas, ficas mais vivo por dentro. Um livro de Fernando Pessoa ou José Luís Tavares, claro, mas também de Mário Lúcio, Germano Almeida, Dina Salústio, Gabriel García Márquez, tudo no mesmo saco, uma espécie de mochila mágica onde cabem todos os mundos. Com isso na mão, esse jovem não só se salva como ainda salva a rua dele, e talvez até o primo que anda a "fazer cena" no bairro.
Falta ouvir Amílcar Cabral, sim, (calma, não é sermão, e eu também não sou cabralista com carteira assinada), mas ouvir aquele Amílcar que dizia que "ninguém liberta ninguém"… a não ser que seja com um bom beat de fundo. Falta saber quem foi Carlos Veiga, Renato Cardoso, Pedro Pires, Jaime Figueiredo, José Estrela, Simão de Barros, José Leitão da Graça… não para votar neles no TikTok, mas para saber que já houve gente que pensou o país antes de haver Wi-Fi.
Falta ler a Mana Guta, o Manuel Veiga, o Herménio Vieira, o Osvaldo Alcântara, e aqueles posts heroicos e inspiradoras e pouco “couching” do Jorge Tolentino que, se fossem cantigas, batiam qualquer drill de coladera trap. Falta ler o Rasta Nguka do Mestre Arlindo Mendes. Tudo isto, de preferência, ao pequeno-almoço, com pão k’ôvu e xá di sidréra, e depois ir discutir Frantz Fanon ali no largo, ao pé da banca do tia Saburosa de Nhana, entre um oril, dama e uma teoria revolucionária sem Marx
E sim, falta trazer a tecnologia. Mas não aquela que só serve para fazer scroll até os polegares pedirem fisioterapia. Falo da tecnologia com alma, com memória, com aquele molho caboverdiano que mistura o cheiro do fundo no fundo da ilha e duplex na cidadela e com futuro. Uma espécie de Ubuntu digital com tempero de bura até cinguelo e visão de drone.
Tarrafal não precisa de mais discursos. Precisa de ação. Mas uma ação pensada. Com pés no chão e olhos no futuro. Com cultura e com alma. Com política, sim, mas daquela que transforma, não daquela que promete.
Se queremos que o Tarrafal volte a ser o que pode ser, temos de começar agora. Antes que seja tarde demais e a paz se transforme em estatística.
De repente, eis que surge, como um cometa político que já viu melhores dias, uma figura que passou tanto tempo na política que agora jura que não quer nada com isso. Nega o jogo, mas joga. Diz que não quer o poder, mas não larga o microfone. O mais curioso? Atrai seguidores. Ou melhor, crias. Crias essas que, em vez de ideias, carregam fósforos nas mãos, gases tóxicos na boca e veneno na língua. Espalham insultos com a destreza de um propagandista soviético e, entre uma fake news e um surto revolucionário, dedicam-se à sua principal missão: denegrir tudo e todos.
E no meio deste circo de guerrilha verbal, lá está ele, o Grande Líder Desiludido, olhando para a sua própria fotografia como se fosse um retrato renascentista. "Mas que belo democrata eu sou", pensa ele, enquanto assiste ao caos que semeou.
O bairro, coitado, acha tudo isto "fixe". Afinal, a ajuda, diária, quinzenas e até mensal chega na certa, e manter a selvajaria dá jeito a quem quer transformar a política num reality show de gritaria ideológica. O problema é que agora, neste país, já se compram até pessoas. Não que seja novidade, mas agora há um requinte teórico por trás. Já há homens com alta escola, diplomas e provas dadas a defender essa nova pedagogia do disparate. Para quê debater ideias, propor soluções ou apresentar um plano de governo quando se pode simplesmente gritar mais alto? A regra é simples: problemas difíceis, respostas ridiculamente simples.
E assim segue Cabo Verde, num dilema filosófico digno de um manual de dialética marxista: que esquerda é esta? Será uma esquerda democrática? Será uma extrema-esquerda reaquecida? Ou será apenas um grupo de revolucionários gourmet que, entre uma reunião secreta e outra, apreciam um bom vinho francês pago com dinheiro burguês?
O grande problema é que ninguém sabe. Ou melhor, quem sabe não diz, e quem diz não sabe. O que se sabe é que a esquerda local tem um talento extraordinário para o disfarce. Aparece como democrática, mas age como se fosse uma reencarnação tropical do KGB. Faz cara de moderada, distribui sorrisos, fala de liberdade, mas quando chega ao poder, legisla com cheiro a mofo soviético.
E se há algo que os camaradas dominam, é a arte do engodo. Primeiro, usam propaganda. Não a propaganda tradicional, mas a fina arte de repetir uma mentira tantas vezes que até o autor começa a acreditar nela. Se Stalin tivesse Instagram e facebook, faria um curso com eles. Criam factos, reescrevem a história, fazem-se de vítimas. E se ninguém os persegue, tratam de perseguir-se uns aos outros só para dizer que são mártires da liberdade. Bem, o que não se percebe nesses dias, é que a maioria deles defende um cabralismo ferrenho e andam a maltratar o outro herói, o Comandante PP, tal fogo e veneno na boca e língua.
Depois, infiltram-se. Em partidos, sindicatos, universidades e, se calhar, até nos corais do oceano e folhas verdes e amarelas da praça de mangue. Não querem apenas vencer eleições, querem capturar o Estado, mas colocando as instituições em cheque. A tática é velha, mas eficaz: fingir que se é democrata até ser tarde demais para o eleitor perceber a diferença entre um boletim de voto e um decreto revolucionário.
E como se não bastasse, há a sabotagem. Se não podem controlar, destroem. Se não podem destruir, difamam. A economia não cresce? Culpa do capitalismo. O turismo está fraco? Culpa dos empresários mal-intencionados. O governo não funciona? Culpa da direita (mesmo que a direita tenha menos votos do que um candidato a delegado de turma). Se tropeçarem numa pedra, provavelmente foi colocada lá pelo FMI e se você tiver uma calça de marca, mesmo os asiáticos de baixa renda, mesmo que tenha gostos requintados de alta cultura, com elevada crença serão chamados de kopu leti e classe media buralda da capital.
Mas não nos iludamos. O objetivo da esquerda cabo-verdiana não é governar. Governar é chato. O objetivo é controlar. Controlar tudo, desde o discurso até as redes sociais, desde os manuais escolares até os memes políticos. Afinal, a revolução não pode ser interrompida por factos inconvenientes. E, como qualquer boa organização revolucionária, há códigos e segredos. Entre si, chamam-se de "camaradas", reúnem-se em "células", comunicam por "pontos" e seguem "linhas vermelhas". Parece um thriller de espionagem da Guerra Fria, mas não, é apenas a política cabo-verdiana em 2024-2026.
O mais curioso? Esta história já aconteceu antes. Na União Soviética, chamava-se Stalinismo. Na China, Maoísmo. Em Cuba, Castrismo. Na Venezuela, Chavismo. Em Cabo Verde, podemos chamar-lhe "O Grande Golpe da kachupada".
O truque final? A “cancela e difama". Quem ousa apontar estas evidências é imediatamente rotulado de fascista, traidor, kontra koitadu, ka kre dexa prisidenti trabaia ou – pior ainda – neoliberal. Em Cabo Verde, ser chamado de neoliberal é pior do que ser apanhado a ouvir esses MC´S da má qualidade. É uma ofensa de honra dos esquerdinas, um assassinato do carater. E o que nos resta, pobres mortais que apenas queríamos um país livre e próspero? Observar, rir e esperar. Porque, como todas as farsas políticas, esta também terá um fim. E quando tudo passar, contaremos aos nossos netos esta história e diremos:
"Sim, meus filhos e netos, houve um tempo em que a extrema esquerda tentou enganar Cabo Verde...mas esqueceram-se que nós gostamos mais de cachupa do que a revolução."
Por: Mário Loff
Este país, senhores, tem um talento raro. Um talento para o erro, para o excesso, para os extremos. Tem cumprido à risca todos os pecados e todas as santidades dos santos e dos demónios dos outros mundos. Não falha um. O que os outros descobriram com dor, nós adotamos com entusiasmo. O que os outros abandonam por vergonha, nós reciclamos com orgulho. Se há vícios, queremos todos. Se há virtudes, fazemos de conta.
E reparem bem: sempre na mesma medida. O que começa como simulação acaba como prática séria. Primeiro, faz-se de conta. Depois, faz-se mesmo. Uma espécie de teatro, mas sem final feliz. Vejam os nossos políticos – sempre houve e sempre haverá. Defendem a verdade com uma convicção comovente. Mas só enquanto lhes dá jeito. Quando muda o vento, mudam a verdade, mudam os amigos, mudam os valores. O que era puro, fica impuro. O que era certo, torna-se errado.
A verdade, como já dizia Churchill, é tão preciosa que precisa sempre de um guarda-costas de mentiras. Foi assim com Sérgio Moro. Primeiro, juiz implacável da Lava Jato. O exterminador dos corruptos. Depois, ministro de Bolsonaro. Fez-se de paladino da justiça até perceber que gostava mesmo era do sabor do poder. Quando caiu em desgraça, fez-se de vítima, como se não soubesse que estava a brincar com um sistema que se alimenta de heróis descartáveis.
E isto, senhores, não é exclusividade brasileira.
David Cameron? Jogou o país no abismo do Brexit com a certeza arrogante de que o Reino Unido nunca sairia da União Europeia. Perdeu. Depois, foi jogar ténis e escrever as suas memórias. Coisas de filhadaputici. Por cá, a história não é muito diferente. Governos entram e saem, sempre com a mesma ladainha: salvar o país da desgraça deixada pelos anteriores. Mas no fim, a única coisa que se salva são os privilégios dos que chegam ao poder.
E o povo?
Ora revoltado, ora resignado, assiste ao teatro político com novos atores, mas sempre com o mesmo guião. E o nosso pessoal? Ah, o nosso pessoal não fica atrás. São campeões do jogo do esconde-esconde. Comeram juntos, enriqueceram juntos, governaram juntos. Fizeram juras de lealdade, brindaram ao futuro, tiraram selfies ao pôr do sol, sempre com discursos inflamados sobre o progresso, o bem comum e outras balelas que soam bem nos comícios e nos editoriais encomendados.
Mas um dia zangam-se. E não é por moralidade – ninguém aqui é inocente ao ponto de acreditar nisso. Não. Zangam-se porque um comeu mais do que o outro. Aí começa a gritaria: "Corrupção!", "Traição!", "Incompetência!" – como se tudo isso fosse novidade. Como se não tivessem feito exatamente o mesmo um mandato antes.
E a spinhera no topo deste kuskuz mal amassado?
A democracia. Essa coisa maravilhosa, que serve de colchão para os que caem e de trampolim para os que sobem. Protege toda a gente: os que roubam, os que criticam e até os que não sabem o que estão a fazer. A democracia é um espetáculo fascinante – uma ópera sem maestro, onde todos gritam ao mesmo tempo, mas ninguém quer sair de cena.
E depois há os camaleões de luxo. Os analistas, os opinadores, os justiceiros de microfone. Dizem-se independentes, mas estão sempre estrategicamente posicionados para receber favores. Se um lado não dá, o outro dá. São como criaturas das marés: sabem exatamente quando e para onde se deslocar para não ficarem secos na areia.
E as promessas?
A mais recente veio do candidato presidencial do PAICV, que anunciou, com toda a solenidade, que vai baixar os preços das viagens de barco para 500 escudos e os de avião para 5 mil. Como? Não interessa. O importante é prometer. O importante é soltar uma manchete que faça barulho suficiente para ocupar a praça pública até que um novo escândalo surja e empurre a conversa para outro lado. Lembra a Grécia de 2015, quando o Syriza prometeu acabar com a austeridade. Tsipras foi eleito com um cheque em branco, garantiu que não se ajoelhava à Troika… e meses depois, assinou um acordo pior do que aquele que dizia rejeitar. Mas isso já era um detalhe. O que interessava era que ele tentou.
E por cá, senhores, por cá, é o mesmo jogo. Hoje prometem o céu, amanhã dizem que o inferno estava nos detalhes. Mas, claro, quem paga a conta não são eles. Somos nós.
O burro chegou ao antigo Ponte de São Domingos com as narinas soltando gotas de água, como se o próprio ar estivesse impregnado de cansaço. Atrás dele, a neblina espessa engolia a paisagem, ocultando tudo o que existia além de alguns passos. Mas o som ofegante de uma respiração exausta revelava a presença de um homem sentado, cuja silhueta se fundia com a névoa, como uma sombra perdida no tempo. Ele apoiava-se na ponte de pedra, um testemunho das eras passadas, quando atravessar aquelas rochas era uma jornada vital para sobreviver e aventurar-se no interior da ilha de Santiago, enfrentando bruxas.
O rio, serpenteando lá em baixo no vale, sussurrava como um canto de despedida das chuvas que se demoraram muito além do esperado. Três meses de chuva eram aguardados, mas o céu, que recebeu muitas rezas naquele ano, ora generoso, ora implacável, estendeu sua cortina aquosa por seis longos meses. Valeu a pena ter benzido na passagem em frente a todas as igrejas das ilhas, comentavam todos os homens que permaneceram na terra.
A ilha, envolta num manto verde que se estendia até o horizonte, não conhecia outra cor. Parecia que as montanhas estavam vestidas com o véu do mistério, cada folha um segredo, cada gota de orvalho uma história não contada.
O tempo, naquela manhã, parecia escorrer lentamente, como se cada segundo fosse uma eternidade suspensa. O céu, carregado de nuvens densas como flocos de algodão, obscurecia a visão, e os homens lembravam-se de uma vida distante, nas terras que haviam deixado para trás. As viaturas, outrora rápidas nas estradas sinuosas, agora repousavam imóveis, como se o mundo estivesse em uma pausa contemplativa. E nesse cenário de espera, os homens reinventavam as suas vidas. As terras, antes abandonadas e sem promessa, agora floresciam, como se a própria terra tivesse decidido sonhar junto com eles, esticando-se em paus e enxadas.
Quando o meio-dia se aproximou e a neblina começou a se dissipar, o burro e o homem emergiram lentamente, como figuras esculpidas na bruma. O rosto do homem era estranho aos olhos dos habitantes de São Domingos, um enigma que ninguém podia decifrar. O burro, por sua vez, firmemente plantado na ponte, recusava-se a dar um passo adiante, como se aquele fosse o seu destino final, uma escolha feita pela própria alma.
— Anda, burro! — gritou o homem, sua voz tingida de impaciência, cortando o ar como um açoite.
O burro, contudo, permanecia imóvel, como se estivesse enraizado na pedra, desafiando as ordens com uma teimosia que transcendia o simples entendimento. O homem, já perdendo a paciência, levantava a voz num crescendo de frustração.
— Vamos, burro! Anda logo!
E, no entanto, o burro continuava firme, como se tivesse decidido que aquele era o lugar onde devia estar, ignorando as palavras impacientes do homem.
— Vou-te bater, seu burro, burro!
Nesse instante, o burro virou a cabeça, os olhos escuros fixando-se nos do homem, como se quisesse dizer algo, como se desafiasse o próprio tempo. E então, numa voz que parecia surgir das profundezas da terra, o burro falou.
— Por que tanta pressa, homem? Não vês que o caminho à frente é incerto? Talvez seja melhor parar e pensar no que realmente procuras.
O homem, surpreso, deu um passo para trás, como se não pudesse acreditar no que ouvia. Mas a voz do burro tinha um peso, uma gravidade que o obrigava a ouvir.
— O que eu procuro? Procuro sobreviver, trabalhar a terra, arrancar da vida o que ela me oferece. — respondeu o homem, ainda desconcertado.
— Trabalhar a terra é um ato de fé, homem. — disse o burro, suavemente. — Fé de que o solo dará frutos, de que as chuvas virão na hora certa. Mas e o que fazes quando a chuva não vem? Quando o solo te nega? A esperança de viver aqui não está apenas na terra, mas naquilo que cultivamos dentro de nós.
O homem ficou em silêncio, sentindo o peso das palavras do burro. Olhou para as montanhas ao longe, cobertas pelo manto verde, e pela primeira vez percebeu que o que fazia ali, naquele pedaço de mundo, era mais do que apenas sobreviver. Era uma luta contra as adversidades, sim, mas também uma declaração de amor à vida, à terra que o sustentava.
— Tens razão, burro. — disse ele, finalmente. — Sempre pensei que a terra era tudo, que bastava trabalhar duro para viver. Mas vejo agora que é preciso mais. É preciso esperança, amor... E isso eu tenho negligenciado.
— O amor ao próximo, homem, é como a chuva que esperamos. Ele alimenta a alma, enche os vazios que a terra não pode preencher. — o burro continuou. — Quando te dedicas à terra, também te dedicas aos que dela dependem. Somos todos parte de algo maior, e é isso que nos mantém firmes, mesmo quando o caminho é árduo.
— E tu, burro, o que sabes do amor? — perguntou o homem, meio brincando, mas com genuína curiosidade.
— Sei que o amor é uma força que nos une, homem. — respondeu o burro, com uma serenidade que desarmava. — Olha para nós, tu e eu. Somos diferentes na forma, mas iguais na essência. Ambos carregamos fardos, ambos procuramos o nosso lugar no mundo. E, no fundo, queremos o mesmo: encontrar um sentido, uma razão para seguir em frente.
O homem se aproximou do burro, acariciando-lhe o pescoço, sentindo a textura áspera dos pelos, o calor que emanava do animal. Havia uma verdade profunda nas palavras do burro, uma sabedoria antiga que ele não podia ignorar.
— Talvez sejamos mais parecidos do que eu pensava, burro. — admitiu o homem, com um sorriso cansado. — Ambos somos teimosos, ambos queremos algo mais do que apenas sobreviver. E talvez... talvez eu deva aprender contigo.
— A vida, homem, é um campo vasto e incerto. — disse o burro, com os olhos brilhando de compreensão. — Mas se caminharmos juntos, se partilharmos o fardo, a jornada torna-se mais leve. Não se trata apenas de trabalhar a terra, mas de cultivar o que está dentro de nós. E nisso, homem, somos iguais.
O homem assentiu, sentindo uma nova conexão, uma espécie de irmandade entre ele e o burro. E ali, na Ponte de São Domingos, sob o céu que começava a clarear, eles permaneceram por um momento, em silêncio, compreendendo que, às vezes, é preciso parar e ouvir as lições que o mundo, na sua simplicidade, tem para ensinar.
Quando o homem finalmente se preparou para seguir em frente, o burro, como que compreendendo a mudança que havia ocorrido, deu um passo adiante, pronto para continuar a jornada. Mas agora, não eram apenas homem e burro — eram companheiros, cada um refletindo no outro a esperança e o amor que a terra, em sua sabedoria, havia plantado neles.
E juntos, sob o céu de Cabo Verde, observaram passarinhos a cantar, e o homem retirou a sua luneta verde dos olhos do burro e tudo voltou ao normal, mas a lição de se tornar mais humano já tinha sido imprimida dentro dele.
Mário Loff