O burro chegou à velha Ponte de São Domingos como um espectro cansado, arrastando os cascos como quem carrega o peso não apenas do corpo, mas de todas as passagens já feitas por aquele caminho. Das suas narinas, pingos de água escorriam com a lentidão de uma febre silenciosa, como se o próprio ar, saturado de exaustão, se recusasse a entrar em seus pulmões. Ao redor, a névoa engolia o mundo com uma delicadeza cruel, dissolvendo contornos, apagando horizontes, abafando sons. Nada existia senão aquele instante suspenso entre o que se lembrava e o que se temia.
Sentado junto ao parapeito de pedra, um homem, ou o que restava de um homem, fundia-se à bruma, indistinto, imóvel, como uma estátua que tivesse esquecido o seu propósito. Era impossível dizer se respirava ou apenas imitava o gesto da vida. O seu corpo apoiava-se na antiga ponte, monumento de uma era em que atravessar aquelas pedras era mais do que deslocar-se: era sobreviver, era desafiar os ventos interiores da ilha, era enfrentar as bruxas que, dizem, ainda guardavam os montes.
Lá em baixo, no vale esquecido, o rio deslizava como uma serpente cansada, entoando um murmúrio que parecia um adeus prolongado às chuvas que se recusaram a partir. Esperavam-se três meses de água. Chegaram seis. Um dilúvio lento, piedoso e impiedoso ao mesmo tempo, que lavou as igrejas e os pecados com a mesma indiferença. Os homens, os que resistiram, os que ficaram, comentavam que talvez tivesse valido a pena benzer-se diante de cada templo das ilhas, que talvez o céu tivesse, por um instante, escutado.
Mas a ilha, agora, era toda ela uma prece verde. Um manto húmido cobria montanhas e vales com uma uniformidade quase opressiva. Não havia outra cor, não havia outra matéria. As folhas tremiam com uma vitalidade inquieta, e cada gota de orvalho parecia conter uma lembrança esquecida ou um pensamento que ninguém ousava confessar.
O tempo, nessa manhã insone, parecia coagulado. Os segundos não passavam, pairavam, como insetos parados no meio do ar. O céu, denso e baixo, apertava os ombros dos vivos e fazia-os lembrar-se das terras distantes que haviam abandonado, como se o passado sussurrasse dentro de cada nuvem. As viaturas, antes impacientes e ruidosas nas estradas curvas, jaziam imóveis — resignadas, talvez, ou adormecidas. O mundo, inteiro, parecia à espera de um gesto que não viria.
E nesse tempo suspenso, quase absurdo, os homens reaprendiam a sonhar. As terras, antes duras e esquecidas, devolviam brotos como se, subitamente, lembrassem o que era ser fértil. As mãos, que um dia empunharam ferramentas sem esperança, agora dançavam com paus e enxadas, como se escavassem não a terra, mas uma possibilidade. Talvez fosse a terra, ela mesma, que decidira acreditar.
Quando o meio-dia se insinuou por entre os véus da névoa, como um intruso relutante, a bruma começou, lentamente, a retirar-se, não como um gesto natural, mas como quem cede espaço a algo inevitável. E foi então que as figuras surgiram: primeiro o burro, depois o homem, ambos esculpidos em silêncio, como se tivessem sido ali colocados por um escultor hesitante que abandonara a sua obra a meio.
O rosto do homem não pertencia a São Domingos. Havia algo de deslocado, algo de ausente e, ao mesmo tempo, excessivo. Era um rosto que não pertencia a lugar algum, e talvez por isso perturbasse os que o viam. Tinha o olhar de quem testemunhara algo que não deveria ser lembrado, e no entanto carregava a lembrança consigo como um fardo inevitável.
O burro, firme sobre as pedras da ponte, parecia ter-se fundido à matéria mineral, como se a sua alma tivesse escolhido aquele exato ponto para repousar eternamente. Era um animal vencido e, ao mesmo tempo, invicto, recusava-se a continuar, não por medo, mas por convicção.
— Anda, burro! — bradou o homem, e a sua voz, ao rasgar o silêncio, soou como um açoite contra a carne do mundo.
Mas o burro não se moveu. Havia na sua imobilidade uma força ancestral, uma obstinação que desafiava a lógica. Ele olhava adiante, ou talvez dentro de si, com olhos que continham séculos de submissão e resistência, como se ali, na sua paralisia, estivesse toda a sua liberdade.
— Vamos, burro! Anda logo! — insistiu o homem, a frustração crescendo como uma febre mal contida.
A ponte parecia alargar-se com cada grito, como se o som transformasse o espaço, esticando o tempo até ao insuportável. A cada palavra, o mundo ficava mais irreal.
— Vou-te bater, seu burro... burro miserável! — rugiu por fim, quase num soluço de impotência.
E então, o impensável: o burro virou lentamente a cabeça, e os seus olhos, dois poços escuros e densos, encontraram os do homem. Não era um olhar animal. Era um olhar que julgava.
E num instante que durou mais que todos os outros, uma voz surgiu — não do burro, mas de algo que parecia ecoar através dele, talvez da terra, talvez do próprio homem.
— Por que tanta pressa, homem? — disse a voz. Era grave, pausada, como se cada sílaba carregasse a dúvida de séculos. — Não vês que o caminho à frente é incerto? Que talvez não haja sequer caminho? Talvez seja melhor parar. Pensar. Lembrar o que procuras, se é que procuras.
O homem recuou, o corpo tenso como um arco que se desfaz. Aquilo não era natural. Mas, de algum modo, era necessário.
— O que eu procuro? — murmurou, como se a pergunta tivesse sido arrancada de dentro de si. — Procuro sobreviver... trabalhar a terra... arrancar da vida o pouco que ela ainda me oferece.
O burro — ou a presença que falava através dele — inclinou ligeiramente a cabeça. Havia compreensão, mas também lamento.
— Trabalhar a terra é um ato de fé, homem. Fé no invisível, no imprevisível. Fé de que o solo te dará o que precisa, de que as chuvas virão quando chamadas. Mas e quando não vêm? Quando o solo te nega até o pó? E tu, o que cultivas dentro de ti?
O homem calou-se. Algo no ar tinha mudado. A ponte já não era apenas uma ponte, o burro já não era apenas um animal. E ele próprio, talvez já não fosse apenas um homem. Um silêncio espesso voltou a descer, e com ele, uma pergunta invisível: quando foi que esquecemos de parar?
O homem permaneceu calado. Mas não era um silêncio comum — era um silêncio que se adensava no ar, espesso, quase palpável, como se o tempo tivesse suspendido o próprio fôlego. As palavras do burro, tão absurdas quanto reveladoras, haviam se infiltrado na sua consciência com a lentidão implacável das chuvas que escavam montanhas.
Ergueu os olhos para as serras ao longe. As encostas, agora recobertas de um verde denso e quase irreal, pareciam observá-lo. E, sob aquele olhar vegetal, percebeu — com um misto de desconforto e clareza — que a sua presença ali não se devia apenas a uma necessidade bruta de sobrevivência. Não era só a fome ou o trabalho que o prendiam àquela terra. Era algo mais íntimo, mais primitivo. Uma espécie de confissão muda à existência. Um amor, talvez. Um amor rude e sem palavras pela terra que lhe arranhava as mãos, mas lhe sustentava a vida.
— Tens razão, burro — murmurou, e as palavras pareceram pesar mais do que deveriam. — Sempre acreditei que bastava curvar o lombo, arrancar da terra o que ela pudesse dar. Mas agora vejo... há mais. Há sempre mais. Esperança. Amor. E isso... isso eu deixei morrer em mim.
O burro, imóvel como um monumento ancestral, inclinou levemente a cabeça, como se aquele gesto milimétrico carregasse séculos de sabedoria silvestre.
— O amor ao próximo — disse ele, com voz antiga — é como a chuva que se espera sem saber se virá. Alimenta o invisível. Preenche o que a terra não alcança. Quando dedicas as mãos à terra, dedicas também o coração aos que dela dependem. Somos raízes de uma mesma árvore. Ignorar isso é secar por dentro.
O homem deixou escapar um sorriso breve, quase um espasmo de incredulidade.
— E tu, burro, o que sabes do amor? — perguntou, a voz tingida de uma leve ironia, como quem testa a realidade apenas para certificar-se de que ela ainda resiste.
Mas o burro não se ofendeu. O burro não podia ofender-se — ou talvez pudesse, mas escolhera não o fazer.
— Sei que o amor é uma força que não se vê, mas que nos obriga a caminhar, mesmo sem saber o destino. — respondeu com tranquilidade. — Tu e eu... somos carne diferente, sim. Mas espírito semelhante. Ambos carregamos o peso do que não escolhemos, ambos buscamos um lugar onde sejamos menos estranhos. No fundo, procuramos o mesmo: um sentido. Ou, ao menos, o consolo da procura.
O homem aproximou-se devagar. Os seus dedos tocaram o pescoço do animal com uma ternura que não julgava possível em si. A aspereza dos pelos, o calor vivo do corpo que persistia em existir, deram-lhe uma estranha paz. Era como se ali, no toque, houvesse uma comunhão sem linguagem.
— Talvez sejamos mais parecidos do que eu queria admitir — disse, com um riso cansado, quase melancólico. — Ambos obstinados. Ambos... com sede de mais do que apenas continuar vivos. E talvez eu tenha de aprender contigo. Ou... reaprender.
O burro não respondeu de imediato. Pisou o chão com uma lentidão cerimonial, como se testasse a realidade. Depois, disse:
— A vida é um campo sem margens, homem. Vasto. Imprevisível. Mas se nos permitirmos partilhar o peso, mesmo que em silêncio, ela torna-se menos cruel. Cultivar a terra é necessário. Mas cultivar o que te move... isso é urgente.
Houve então uma pausa. E nessa pausa, o mundo pareceu suspenso. Não por medo, nem por dúvida, mas porque, por um instante, tudo fazia um estranho e inquietante sentido.
O homem assentiu. Mas o seu gesto, simples à primeira vista, carregava um peso novo. Não era apenas a aceitação das palavras do burro, mas a aceitação de si próprio, da sua falha, da sua fome não apenas de pão, mas de sentido. Sentiu nascer ali uma ligação antiga, como se o tempo tivesse voltado sobre si mesmo para costurar aquela cena em todas as outras em que havia passado em silêncio por algo essencial.
E ali ficaram, lado a lado, homem e burro, na velha Ponte de São Domingos, a ponte de pedra que atravessava mais do que o rio, atravessava também um limiar invisível entre o que se é e o que se pode tornar. Acima deles, o céu deixava a neblina dissipar-se, revelando um azul tímido, como se também ele estivesse a aprender a existir de novo.
Por instantes que pareciam séculos, nenhum som se ouvia, senão o rumor discreto da água correndo sob os seus pés. E naquele silêncio, um entendimento ancestral firmava-se: às vezes, o mundo não grita. Sussurra. E é preciso parar, quase deixar de ser, para poder escutá-lo.
Quando o homem, enfim, ajeitou a alça do saco ao ombro e se preparou para seguir, o burro, como que tocado por um mesmo sopro interior, avançou. Não era uma obediência qualquer, era um acordo tácito entre dois seres que, por fim, se reconheciam. Já não eram apenas um homem e um burro. Eram algo mais: espelhos vivos de um mesmo cansaço e de uma mesma esperança, companheiros de uma travessia onde a jornada real se fazia por dentro.
Caminharam alguns metros e pararam de novo. No galho de uma acácia ressequida, dois passarinhos chilreavam como se anunciassem uma aurora secreta. O homem sorriu e, num gesto delicado e quase solene, retirou dos olhos do burro uma pequena luneta verde, encaixada ali sabe-se lá por quem ou quando, talvez um resquício de uma brincadeira antiga, talvez um símbolo de tudo aquilo que havia distorcido a sua visão do mundo.
Quando a luneta caiu, rolando pelo chão de terra batida, algo invisível também se desprendeu. O cenário não mudou, mas o olhar, sim. O mundo, afinal, estava igual. Mas ele, não.
Olhou para o burro como quem olha para o primeiro amigo da infância, para o irmão que se reconhece depois de uma vida inteira de estranhamento. E nesse momento, algo se imprimiu nele com a força de um carimbo sobre a alma: a lição de tornar-se mais humano é sempre um processo de escuta, nunca de domínio.
Atravessaram o vale em silêncio. Mas dentro deles, vozes antigas, sementes esquecidas e amores que nunca chegaram a nascer, começavam agora a germinar.
E diz-se, entre os poucos que se lembram, que naquela manhã em São Domingos o tempo parou por um breve segundo: só para deixar que homem e burro passassem.
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