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Por- Adilsom Santos |
GUERRA POLÍTICA EM TERRA DE PAZ!
Clivagens políticas e a política do ódio em cabo verde: uma reflexão a partir do Município do Tarrafal de Santiago.
A radicalização das clivagens políticas no município do Tarrafal de Santiago não é um fenómeno recente. Contudo, nos últimos dez anos, assistimos a uma intensificação preocupante deste processo, o qual tem gerado efeitos profundamente nefastos para a consolidação da democracia local e para o desenvolvimento harmonioso do município. Esta escalada do divisionismo político tem-se tornado uma bola de neve que mina os alicerces da convivência democrática, comprometendo a coesão social e a confiança nas instituições.
Assistimos hoje a uma normalização do ódio político e à prática sistemática do linchamento moral como forma de exercício do poder e da oposição. A política deixou de ser um espaço de ideias e debate racional para se transformar num campo de batalhas simbólicas, onde os adversários são desumanizados e tratados como inimigos a abater. O fenómeno reflete uma fratura latente entre os decisores políticos e o povo — uma dissociação que se estende desde os centros do poder central até às instâncias locais, revelando a falência de uma cultura política inclusiva e responsável.
A Panfletagem Política e a Morte do Espírito Crítico
As redes sociais, enquanto novas ágoras do espaço público, tornaram-se ferramentas poderosas para o exercício da cidadania e da fiscalização dos poderes instituídos. Contudo, como já advertia Umberto Eco, “as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”. O que poderia ser uma revolução comunicacional democrática transformou-se, muitas vezes, num palco de manipulação, desinformação e propaganda cega. A facilidade de produção e partilha de conteúdos tornou-se terreno fértil para a proliferação de discursos vazios, agressivos e desprovidos de rigor, sobretudo no domínio político.
Em vez de promover o esclarecimento do cidadão, muitos agentes políticos aproveitam-se deste ambiente tóxico para perpetuar a ignorância política, infantilizando o eleitorado e cultivando o endeusamento de líderes. Esta lógica, que promove o culto da personalidade em detrimento da colegialidade e do pensamento crítico, tem fragilizado profundamente a democracia cabo-verdiana. A crença cega de que um político pode “salvar o país” é o cúmulo da precariedade democrática, revelando uma sociedade onde o individualismo do poder se sobrepõe ao projeto coletivo.
As Instituições e o Silêncio Cúmplice
Torna-se ainda mais grave quando partidos políticos com responsabilidades governativas se recusam a demarcar-se de páginas, perfis ou grupos que promovem a difamação, a exposição de dados pessoais, a instrumentalização da justiça e o linchamento moral como armas de combate político. Esta cumplicidade silenciosa é uma forma de legitimar o absurdo e institucionalizar o ridículo como norma da vida política. Documentos oficiais vazam com facilidade; acusações infundadas tornam-se virais; e a verdade perde valor perante a eficácia da mentira partilhada e curtida.
Estamos, assim, perante uma nova forma de panfletagem política, mais sofisticada, mais perigosa, pois conta com a inteligência artificial e os algoritmos para amplificar mensagens tóxicas e distorcer a opinião pública. A lógica do “like” passou a ser o novo barómetro da verdade, e a política converteu-se num espetáculo onde o ruído substitui o conteúdo.
As Milícias Digitais e o Clientelismo como Projeto de Poder
As chamadas milícias digitais constituem um dos sintomas mais visíveis da degeneração da ética política. São frequentemente compostas por indivíduos com baixa escolarização e dependência direta de empregos públicos obtidos por via do clientelismo político. Tornaram-se porta-vozes de uma ideologia acrítica, de defesa cega do poder, transformando-se em cães de guarda de interesses partidários.
Esta prática remete-nos à advertência de Amílcar Cabral: “Pensar pelas nossas próprias cabeças”. A incapacidade de desenvolver pensamento autónomo transforma estes cidadãos em instrumentos do atraso democrático, em autênticos analfabetos políticos que reproduzem e legitimam sistemas de dominação e exclusão.
Uma Oportunidade para Ruptura e Renascer Democrático
Apesar do cenário preocupante, ainda vamos a tempo de romper com essa lógica de dependência e cegueira política. Quase cinco décadas após a independência e mais de trinta anos de democracia multipartidária, persiste uma forte dependência do Estado como garante de tudo. Esta dependência tem sido estrategicamente alimentada por elites políticas com fins eleitoralistas, promovendo um assistencialismo que impede o empoderamento real da população.
Uma democracia verdadeira exige não só liberdade política, mas também liberdade económica e justiça social. É necessário criar condições para que os indivíduos possam realizar-se plenamente na sociedade, com acesso a emprego digno, educação de qualidade, saúde universal, saneamento básico, mobilidade segura e acesso justo ao solo urbano. Esses setores não podem continuar a ser usados como iscos eleitorais, mas devem ser tratados como compromissos estruturais de longo prazo com o desenvolvimento e o bem comum.
Caminhar para uma Nova Ética Pública
Chegou a hora de uma nova geração de líderes — éticos, informados e comprometidos — protagonizar uma ruptura com as lógicas clientelistas do passado. São esses cidadãos e cidadãs que devem assumir o protagonismo na reconstrução de um espaço público democrático, plural e respeitador da dignidade humana. Não podemos continuar a construir o futuro com os alicerces podres do divisionismo. Precisamos de uma ética da responsabilidade, uma política da verdade e uma cultura de serviço ao bem comum.
Só assim Cabo Verde poderá honrar os seus mártires da liberdade, os seus construtores de democracia, e cumprir plenamente o seu projeto de nação soberana, justa e verdadeiramente livre.
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