Halloween party ideas 2015

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Como antes já tinha escrito há algum tempo, o Tarrafal tem aquele charme de cidade, antes vila, onde até as pedras sabem demais, mas são caluda, há demasiado tempo. Cada beco conhece um segredo, cada praça e banco bem identificado tem um palanque (in)visível e cada estrada sabe o que é ser prometida, adiada, esquecida, relembrada, e depois adormecida num despacho qualquer.

Estamos a viver tempos onde a política se faz como se faz o funaná talvez até umas sangazuzas em casamentos: com um passo à frente, dois para o lado e muitos tropeços que ninguém quer assumir. A diferença é que o funaná é honesto e sangazuza é uma espécie zanga. Já os discursos…

A verdade é simples: criámos um exército. Não um com botas e fuzis com vontade de disparar o fim da alegria, que esses, coitados, só marcham em desfiles, mas um batalhão de comentadores da rede, repetidores de verdades recicladas, clones políticos com microfone nos dedos e slogan nos dentes bem ensaiados e repetidos em algum comité central nos gabinetes municipais.

São os “copistas da verdade paralela”: gente que repete até acreditar. Mentiras? Só até à segunda-feira. Na terça já são dogmas.

Este exército repete que "eles" — a oposição — são os maus, e "nós" — os novíssimos salvadores de calça engomadae perfumados com cheiros vindos da novíssima loja da primark da capital, é que somos os bons. O velho enredo da telenovela do poder. Entretanto, as obras?


— A estádio de raiz e polidesportivos reabilitados já tem mais idas e voltas que o Tarrafalense num campeonato distrital ou campeonato de takada.

— A rua pedonal, no futuro terá o seu impacto esperado a Santa Engrácia dos nosso tempos , esperado há cinco anos? Está em obras há tanto tempo que já devia pedir bilhete de identidade.

E claro, enquanto se adiam aumentos salariais por “falta de verba”, há sempre verba para mais uma viaturazinha com ar condicionado. Duas, três… Sete mil contos, ainda se ouve a frase mágica: “Foi tudo dentro da legalidade.” Legalidade, neste contexto, é só o nome simpático que se dá àquilo que se faz porque pode, mesmo que não se deva.

Lembro, a título de crónica e não de ofensa, que o Presidente da Câmara Municipal, que tem dias de Sócrates e outros de coach motivacional, reapareceu recentemente para largar umas pérolas discursivas com mais raiva que razão. Está no vídeo. Circula. Ganha views. E é ali, naquele momento, que percebemos que a raiva também é um plano de comunicação.

Mas o mais poético, se me permitem usar essa palavra num texto sobre política local, é que ele próprio, no seu primeiro mandato, prometeu uma auditoria à Câmara. Palavra de honra! Prometeu com a convicção de quem jura que segunda-feira vai ao ginásio. Nunca mais se ouviu falar da tal auditoria. Talvez esteja guardada numa gaveta com as medalhas do tempo de juventude.

Enquanto isso, as sessões da Assembleia transformaram-se num misto de novela mexicana e “stand-up” com má dicção. Quem discorda é acusado de estar “contra o desenvolvimento” contra o sôr presidente. Como se pensar fosse traição. Como se questionar fosse crime. Como se o Tarrafal fosse um aquário e nós os peixes decorativos, bonitos, silenciosos e sempre a girar em círculos.

Sim, senhor Presidente: fui um dos que reclamou. Reclamo outra vez. E volto a lembrar, com o respeito que se deve a qualquer servidor público, que o discurso de “não há dinheiro” não combina com viaturas novas, salários gordos para uns e atrasos para outros. E sobretudo, não combina com arrogância. A arrogância é o perfume dos incompetentes. E não, isto não é despeito. É cidadania. O Tarrafal não precisa de muralhas ideológicas, mas de pontes. Pontes para as zonas esquecidas, para os jovens sem futuro, para os trabalhadores que já não acreditam em nada.

E olhe que voltarei ao assunto, com mais ironia se for preciso, com mais poesia se for justo. Porque amar uma terra não é bater palmas. É bater o pé. E fazer barulho quando ela está a ser maltratada. E fiz no passado e volto a fazer, é a minha maldição e faça questão que ela seja assim.




Um município com 16 mil almas e 800 funcionários não é uma cidade. É um palco.

E um povo inteiro, sem saber, faz figuração num teatro de subvenções, salários congelados e promessas que chegam sempre com a próxima eleição.

Na Câmara Municipal do Tarrafal, não se governadistribui-se silêncio com crachás, salário mínimo abaixo do mínimo e contratos que duram o tempo que dura o favor. É uma espécie de programa alimentar disfarçado de administração pública. Uma bolsa família (Brasil) que se veste de farda azul e bate ponto. Não por missão, mas por medo. Medo de dizer que não. Medo de não dizer sim.

Enquanto isso, os jovensos que ainda sonham com dignidadefazem fila no aeroporto. Partem. Fogem. Escapam de uma cidade que cresce só em folha de pagamento. Partem como quem arranca uma raiz e a lança ao mar. Em troca de quê? Em troca de qualquer coisa mais parecida com futuro.

É um fenómeno curioso: todos os outros municípios do país, mesmo os que ainda tropeçam, já implementaram ou estão no processo de implementar o PCFR, reajustaram o salário mínimo, fizeram contas à vida e tentaram pôr ordem na casa. Mas Tarrafal não. Tarrafal faz diferente. Não corrige injustiças, cria mais cargos. Não valoriza carreiras, valoriza lealdades. Não organiza a função públicaabarrota-a.

E ainda assim, ou talvez por isso mesmo, o presidente é aclamado como um herói do povo. Um grande homem. Um humilde. Um salvador.

Mas humildade, meus amigos, não é sorrir muito nas inaugurações. Humildade é pagar o justo. É formar quem trabalha. É governar sem vanglória. É sentar com os invisíveisos precários, os sem voz, os que limpam o chão do poder sem nunca subir ao segundo andar.

No Tarrafal de hoje, ser crítico é ser inimigo. Questionar virou ofensa. Esperar mais virou traição. E o povoexausto, empurrado para o costume, moldado pela necessidadeaceita a precariedade como se fosse destino. Mas não é. Nunca foi.

Tarrafal merece mais. Muito mais do que empregos fictícios que compram silêncio. Mais do que líderes que confundem populismo com política, favoritismo com fidelidade. Merece uma câmara que se pareça com o povo e não com o partido. Uma máquina pública que não se alimenta da pobreza para se perpetuar. Uma gestão que trate o orçamento como ferramenta de mudançae não como herança de campanha.

Se tivéssemos investido os 800 milhões de escudos de 2024 em coisas mais prioritárias, talvez hoje o município não exportasse gente, mas exportasse ideias. Talvez não construíssemos apenas folhas de excel, mas dignidade em alvenaria.

Governar é escolher. E quem governa por aplauso escolhe o barulho à verdade. Mas quem escolhe a verdade, sabe: mais vale um voto consciente do que mil palmas sem consciência.

É tempo de recomeçar. Com coragem, com educação, com memória.
Porque há dias em que amar a terra é dizer-lhe a verdade.

 Mário Loff

 


Mário Loff

Ô KÔROSIVO LÔKÔ



Neste preciso instante, não amanhã, nem ontem, mas agora, neste segundo amargo e simultaneamente absurdo, todo tarrafalense que respira sente, mesmo que não diga, que está a ser feito de trouxa. Ou pior: que já foi. E que agora finge não saber.

Recuemos a 2020, ano fatídico e promissor. Entra a nova equipa camarária, cheios de energia e boas intenções, presos, literalmente, à questão da viatura presidencial pouco tempo depois. Não havia carro para o homem. E, como bons cristãos tropicais, em vez de resolver o problema com a lógica elementar de quem gere um município e não uma paróquia, optaram por invocar a santidade do improviso. O novo presidente passou a usar, com muito orgulho e alguma encenação, uma viatura branca, de caixa aberta, do pelouro da Coesão Social. Uma pickup missionária, praticamente. Um veículo que transportava, antes de mais nada, uma ideia: a ideia de que um presidente deve ser humilde, quase pobre, quase mártir.

E assim se instituiu uma nova catequese municipal. A liturgia do "não precisamos de luxo", onde o carro não era símbolo de serviço, mas de sacrifício. O presidente, afinal, não era mais um gestor. Era um pastor. Um santo sobre rodas. Se estas não caíssem.

Esqueceram-se, porém, de um pequeno detalhe: a Câmara não é um mosteiro. Um município precisa de representação, eficácia, presença. E o presidente não é um figurante de novela bíblica, é a face política de uma máquina pública. Mas não. Institucionalizou-se o humildismo bacoco, a estética do faz-de-conta, o marketing da pobreza voluntária.

Avancemos quatro anos. Surge o comunicado solene, que ninguém sabe se vem do presidente enquanto indivíduo ou enquanto instituição, mas, a cada comunicado, outros muito pouco profissional, tem animado os seus seguidores que se recusam a contrair, mesmo notando o absurdo reinante, porque tudo no Tarrafal é tão simbiótico que já não se distingue o público do privado, o camarário do pessoal.

"Caros Munícipes Tarrafalenses, quero informar-vos por esta via, de que a Câmara Municipal do Tarrafal, no quadro da parceria com a TUACAR, negociou uma viatura no valor total de 3.500 contos para a necessária dignidade do seu Presidente."

Aleluia! Quatro anos depois, a dignidade apareceu, na forma de uma viatura preta, marca “JAC”, comprada (ou será oferecida? cedida? doada? benzida?) pela TUACAR, parceira do município. A viatura antiga, aquela da Coesão Social, era, afinal, um embaraço funcional. Aleluia, de novo!

Mas o que intriga, e muito, é a novela paralela que corre nos bastidores, nas oficinas e nas rodas da cidade: a "recuperação" da velha viatura presidencial, com mais de 12 anos de fidelidade cega. Foi retirada da sua sepultura mecânica, ressuscitada a muito custo, e exposta como símbolo de orgulho nacional, como se fosse uma relíquia de guerra. "Recuperámos a nossa velhota!" — bradam os convertidos do populismo manso.

E nós, pobres tarrafalenses, assistimos a esta pantomima como se fosse um milagre. Fica a sensação, não dita, mas sabida, de que fomos enganados. Todos. Vendidos a uma ética plástica, a um discurso de humildade conveniente, que afinal encobria o mais puro dos calculismos políticos.

A verdade? O populismo desmonta-se sozinho. É frágil como a tinta que cobre o carro velho. E agora, com a viatura nova a brilhar sob o sol da parceria, percebe-se que o tempo da encenação passou. Ou devia ter passado.

Que fique claro: um presidente de câmara merece uma viatura digna. Não por vaidade, mas porque o cargo exige mobilidade, representação, eficiência. Deve sair e entrar com sobriedade e sentido de Estado. O que não pode é continuar a ser vítima de uma ideologia falsa de humildade transformada em fetiche político.

E se há dinheiro para carros, que haja também para resolver as injustiças salariais dentro da própria câmara. Porque há trabalhadores que ainda hoje ganham o mínimo legal, esquecidos nos corredores desde os tempos do MPD, enquanto outros, mais recentes, mais bem relacionados, recebem muito mais, como se tivessem sido nomeados por decreto divino.

Por fim, uma nota de etiqueta institucional: o comunicado deveria ter sido publicado na página oficial da Câmara, e não apenas nas redes pessoais do presidente. Porque dinheiro público exige transparência, e o que é da Câmara não é do homem, é da República.

E sim, um presidente precisa de uma viatura só para ele. Mas também precisa de um novo condutor. Porque há viagens que exigem sigilo. E outras que exigem juízo.





 

 




Há uma cidade submersa no fundo do mar de Kokeiro. Chamam-lhe Contaminobo.
Os habitantes são peixes. Mas não os peixes comuns — esses que os pescadores puxam com linha e isco ainda vivos. Não. São peixes humanos ou humanos peixes. Uns são dourados, ostentando ares de grandeza, os outros são sardinhas pequenas, a mendigar migalhas lançadas da proa dos primeiros. Cada escama brilha de acordo com a conta bancária do seu dono. É uma república de náufragos, onde o luxo se confunde com a lama e a glória boia sobre lodo antigo.

Os mais humildes, coitados, contentam-se com a última sílaba da palavra dignidade. Vivem enfileirados, escutando discursos reciclados de promessas que jamais flutuam. São gente-peixe, escamas gastas, olhos que já viram o suficiente para não acreditar em mais nada. Mas ainda assim, madrugam. Esperam.

Entre eles, nada com astúcia um tal de Sérgio José — peixe de cauda comprida, ambicioso e com um paladar aguçado por poder. Não nasceu em Contaminobo, mas fez-se filho da água podre. Quando chegou, lambia-se de sabedoria, adulava a chefia, colecionava cargos e dizia que era melhor nadar com tubarões do que morrer sardinha. E foi isso que fez.

Primeiro aprendeu a nadar com os maiores. Depois roubou-lhes os anzóis.
Quis ser presidente de Contaminobo — não para salvar os outros, mas para instalar seu trono de algas douradas. Sabia sorrir com os dentes do elogio e ferir com a cauda da mentira. Com a ajuda dos peixes da classe média (aqueles que ainda acreditam no mapa do tesouro), prometeu um novo mar: mais azul, menos salgado, sem redes nem pescadores. Só que quem acredita nisso numa cidade submersa?

Do outro lado estava Tibazi Aziz, o velho rei dos recifes. Também peixe, também dourado, também mestre da camuflagem. Enrolava palavras com o mesmo talento com que se enrolam algas ao pescoço de quem afunda. Sabia que o segredo do poder é parecer mais afogado que os outros.

O povo-peixe nadava entre a dúvida e o nojo. Uns acreditavam em Sérgio José, outros apenas tinham raiva de Tibazi. E a eleição tornou-se um grande cardume de ilusão — cada peixe com a sua boca aberta à espera da próxima mentira.

No fundo mais fundo de Contaminobo, um polvo sábio, chamado Dom Octávio, observava tudo. Não se metia. Apenas escrevia com tinta negra nas pedras das profundezas:
"Neste mar, todo líder começa por prometer terra firme. Depois afunda tudo."

No final, ganhou Sérgio José. Subiu ao trono com o séquito de enguias bajuladoras, reformulou a constituição para que a presidência passasse a ser vitalícia — porque peixe não envelhece quando se cerca de peixes mais novos e burros.

E o povo? O povo continua a nadar. Uns aprendem a morrer com elegância, outros a fingir que vivem.
Mas uma coisa é certa: quem sonha com ar puro não dura muito tempo em Contaminobo.

Mário Loff







Há uma tradição em Achada Moirão que só sobrevive por teimosia. E é essa teimosia, que mais parece um pacto secreto com os antepassados, que acorda a vila antes do sol, antes do galo, antes até do primeiro pensamento do dia.

É de madrugada que as coisas mais doces e mais banais acontecem. Coisas que não servem para nada, mas sem as quais a vida se desorganiza.

Na escuridão ainda molhada da noite, ouvem-se passos suaves e o tilintar do vidro do leite dentro das garrafas, o som quase extinto de uma economia feita à unha. As vendedoras, todas elas com a coluna de um cansaço hereditário e o equilíbrio de uma fé inabalável, percorrem as vielas com cestos na cabeça, cheios de pão morno, bananas ainda com cheiro de quintal, e leite de vaca verdadeiro.

Não é qualquer leite. É leite de vaca, dito assim com toda a seriedade de quem ainda distingue entre o que é de verdade e o que é só embalagem. E não é só pão, é pão de casa, aquele que leva fermento de paciência e forno de lenha emprestado.

Chamam as pessoas pelo nome, sem gritar, como quem diz um segredo que já é sabido. Cada nome pronunciado é um laço marcado em cada olho nascido e envelhecido por cada canto, um contrato sem papel nem assinatura: 

— Dona Clara… 

— Nhô João…

O mundo, ali, ainda não se digitalizou. Os telefones dormem nas mesinhas de cabeceira. O que acorda a casa é a voz da vendedora, como se fosse a mãe do dia a puxar pelos filhos: 

— Está cá? Leite fresco!

O leite vem numa garrafa reciclada, que dantes foi de Fanta ou de água mineral ou garrafa de agua que varia de acordo com a marca registrada. E ninguém se importa. Aliás, até preferem assim, que o vidro conserva a dignidade do leite.

Há também um senhor que só vende bananas. E não diz mais nada além de:

— Banana! 


Mas diz aquilo com uma convicção de quem está a vender o futuro da espécie.

E é essa teimosia, essa coisa lindamente inútil de continuar a vender pão, banana e leite de vaca ao nascer do dia, que mantém Achada Moirão viva.

Não é por necessidade. Não é por lucro. É por amor. Um amor que não precisa de ser dito porque se ouve, todos os dias, logo que o silêncio acaba. Essas mulheres e homens, esses pequenos comerciantes da madrugada, são os poetas invisíveis do bairro. Fazem rima com o tempo, com o cheiro da terra molhada e com a fome tímida que ainda não sabe que já acordou.

São eles que lembram à vila, e a quem ainda tem ouvidos para escutar, que há uma forma antiga e bonita de existir. Que há gestos que valem mais do que um salário. Que há um pão que sabe a infância e um leite que sabe a colo.

E que, enquanto houver alguém a dizer “pão!”, “banana!”, ou “leite de vaca!”, chamando-nos pelo nome de manhã cedo, ainda estamos vivos. E ainda somos nós.


Crônica de Mário Loff


Por- Adilsom Santos
 

GUERRA POLÍTICA EM TERRA DE PAZ!

Clivagens políticas e a política do ódio em cabo verde: uma reflexão a partir do Município do Tarrafal de Santiago.

A radicalização das clivagens políticas no município do Tarrafal de Santiago não é um fenómeno recente. Contudo, nos últimos dez anos, assistimos a uma intensificação preocupante deste processo, o qual tem gerado efeitos profundamente nefastos para a consolidação da democracia local e para o desenvolvimento harmonioso do município. Esta escalada do divisionismo político tem-se tornado uma bola de neve que mina os alicerces da convivência democrática, comprometendo a coesão social e a confiança nas instituições.

Assistimos hoje a uma normalização do ódio político e à prática sistemática do linchamento moral como forma de exercício do poder e da oposição. A política deixou de ser um espaço de ideias e debate racional para se transformar num campo de batalhas simbólicas, onde os adversários são desumanizados e tratados como inimigos a abater. O fenómeno reflete uma fratura latente entre os decisores políticos e o povo — uma dissociação que se estende desde os centros do poder central até às instâncias locais, revelando a falência de uma cultura política inclusiva e responsável.

A Panfletagem Política e a Morte do Espírito Crítico

As redes sociais, enquanto novas ágoras do espaço público, tornaram-se ferramentas poderosas para o exercício da cidadania e da fiscalização dos poderes instituídos. Contudo, como já advertia Umberto Eco, “as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”. O que poderia ser uma revolução comunicacional democrática transformou-se, muitas vezes, num palco de manipulação, desinformação e propaganda cega. A facilidade de produção e partilha de conteúdos tornou-se terreno fértil para a proliferação de discursos vazios, agressivos e desprovidos de rigor, sobretudo no domínio político.

Em vez de promover o esclarecimento do cidadão, muitos agentes políticos aproveitam-se deste ambiente tóxico para perpetuar a ignorância política, infantilizando o eleitorado e cultivando o endeusamento de líderes. Esta lógica, que promove o culto da personalidade em detrimento da colegialidade e do pensamento crítico, tem fragilizado profundamente a democracia cabo-verdiana. A crença cega de que um político pode “salvar o país” é o cúmulo da precariedade democrática, revelando uma sociedade onde o individualismo do poder se sobrepõe ao projeto coletivo.

As Instituições e o Silêncio Cúmplice

Torna-se ainda mais grave quando partidos políticos com responsabilidades governativas se recusam a demarcar-se de páginas, perfis ou grupos que promovem a difamação, a exposição de dados pessoais, a instrumentalização da justiça e o linchamento moral como armas de combate político. Esta cumplicidade silenciosa é uma forma de legitimar o absurdo e institucionalizar o ridículo como norma da vida política. Documentos oficiais vazam com facilidade; acusações infundadas tornam-se virais; e a verdade perde valor perante a eficácia da mentira partilhada e curtida.

Estamos, assim, perante uma nova forma de panfletagem política, mais sofisticada, mais perigosa, pois conta com a inteligência artificial e os algoritmos para amplificar mensagens tóxicas e distorcer a opinião pública. A lógica do “like” passou a ser o novo barómetro da verdade, e a política converteu-se num espetáculo onde o ruído substitui o conteúdo.

As Milícias Digitais e o Clientelismo como Projeto de Poder

As chamadas milícias digitais constituem um dos sintomas mais visíveis da degeneração da ética política. São frequentemente compostas por indivíduos com baixa escolarização e dependência direta de empregos públicos obtidos por via do clientelismo político. Tornaram-se porta-vozes de uma ideologia acrítica, de defesa cega do poder, transformando-se em cães de guarda de interesses partidários.

Esta prática remete-nos à advertência de Amílcar Cabral: “Pensar pelas nossas próprias cabeças”. A incapacidade de desenvolver pensamento autónomo transforma estes cidadãos em instrumentos do atraso democrático, em autênticos analfabetos políticos que reproduzem e legitimam sistemas de dominação e exclusão.

Uma Oportunidade para Ruptura e Renascer Democrático

Apesar do cenário preocupante, ainda vamos a tempo de romper com essa lógica de dependência e cegueira política. Quase cinco décadas após a independência e mais de trinta anos de democracia multipartidária, persiste uma forte dependência do Estado como garante de tudo. Esta dependência tem sido estrategicamente alimentada por elites políticas com fins eleitoralistas, promovendo um assistencialismo que impede o empoderamento real da população.

Uma democracia verdadeira exige não só liberdade política, mas também liberdade económica e justiça social. É necessário criar condições para que os indivíduos possam realizar-se plenamente na sociedade, com acesso a emprego digno, educação de qualidade, saúde universal, saneamento básico, mobilidade segura e acesso justo ao solo urbano. Esses setores não podem continuar a ser usados como iscos eleitorais, mas devem ser tratados como compromissos estruturais de longo prazo com o desenvolvimento e o bem comum.

Caminhar para uma Nova Ética Pública

Chegou a hora de uma nova geração de líderes — éticos, informados e comprometidos — protagonizar uma ruptura com as lógicas clientelistas do passado. São esses cidadãos e cidadãs que devem assumir o protagonismo na reconstrução de um espaço público democrático, plural e respeitador da dignidade humana. Não podemos continuar a construir o futuro com os alicerces podres do divisionismo. Precisamos de uma ética da responsabilidade, uma política da verdade e uma cultura de serviço ao bem comum.

Só assim Cabo Verde poderá honrar os seus mártires da liberdade, os seus construtores de democracia, e cumprir plenamente o seu projeto de nação soberana, justa e verdadeiramente livre.









Por: Mário Loff


Estou no Tarrafal por um ano. E digo-o como quem diz: “fui enviado para o deserto da lucidez”. Durante algum tempo, mantive-me calado, a beber a brisa, a morder a língua e a mastigar o silêncio. Mas há silêncios que se tornam cúmplices, e há alturas em que até o silêncio perde a vergonha de ser cúmplice. Chegou a minha hora de voltar a falar.

O Tarrafal, esse paraíso com cheiro a carne salgada e calor de uma subida a graciosa, é, em muitos aspetos, um dos lugares mais belos para se viver. Se fez o básico há mais de cinquenta anos, para se viver é um lugar. Pacífico, tranquilo, com o mar sempre a prometer mais do que cumpre. Mas atenção: nem toda a paz se mantém pacífica. Há uma paz que é anestesia. Uma calma que é coma. É isso, meus caros, é um problema.

O potencial cerebral da cidade, esse músculo invisível que sustenta nações, parece ter sido sequestrado entre dois extremos perversos: um “humildismo bocó” (não confundir com humildade) e uma racionalidade rastacuera, feita de slogans, dreadlocks e resignação disfarçada de liberdade. Como dizia Nietzsche, “quem combate monstros deve cuidar para que não se transforme também em monstro”. E aqui, o monstro não tem sete cabeças, tem só uma, mas, potencialmente… muito vazia.

Não há debate de ideias. Há “likes” “partilhas”, “da padodu”. Há silêncios coniventes, há o endeusamento de figuras duvidosas que falam bonito e fazem feio. O trabalho, esse verbo que fundou a dignidade humana, virou sinónimo de castigo. A juventude, seduzida pelo brilho falso do facilitismo, já não quer fazer o caminho. Quer saltar para a meta. E se possível, com um tutuk nos ouvidos e um subsídio no bolso.

E atenção, não sou contra o tutuk. É até um escape válido, uma arte com ritmo e identidade. Mas quando o único projeto de vida é “mandar rimas até calhar uma viagem a Lisboa”, estamos mal. Quando ser artista significa fugir do esforço em vez de sublimar o esforço, temos um problema sério de educação cívica, e estética.

Estamos a educar uma geração para acreditar que tudo deve ser dado. Mas, como perguntava Camus: “será possível viver sem se revoltar?”. Sim, mas é uma vida vegetal. Um país que se habitua à gratuitidade total é um país que se esqueceu de suar, de planear, de produzir. A cultura do “dá-me” é irmã da cultura do “rouba-me”. Quando tudo parece vir de graça, também tudo parece poder ser tirado.

Nos últimos anos, o Tarrafal mudou. Parte desta, para pior. E não falo de política partidária, falo de controlo e ao mesmo tempo abandono emocional. A juventude começou a ocupar as ruas, as praças e os bairros como quem ocupa o vazio. Em Colhe Bicho, por exemplo, jovens vagueiam de noite, sem rumo, sem formação, sem ocupação, mas com faca na mão. E ao que tudo indica, as autoridades sabem. E ao que tudo mostra, não fazem nada. A polícia limita-se a observar, como se fosse figurante numa novela má.

É inconcebível que, com formações gratuitas ou quase gratuitas no IEFP, com escolas abertas, com centros culturais disponíveis (mesmo que mal geridos), tantos jovens estejam completamente fora do sistema. E atenção: não são todos, claro. Há rapazes e raparigas a lutar, a estudar, a trabalhar duro. Mas a rua, essa entidade democrática que acolhe todos, tem ganho o terreno.

Já houve fóruns de juventude. Já houve seminários, conferências, documentos lindíssimos impressos a cores. E no fim? Nada. É como pintar as paredes de uma casa que está a desmoronar. Em Colhe Bicho, sente-se o abandono da câmara municipal. O governo finge que não vê. A polícia assobia. E os jovens, esses, vão fazendo o que podem: alguns sonham, outros assaltam, outros dançam no TikTok. Cada um à sua maneira, procurando o que o sistema não dá: sentido.

O que falta? Ousadia. Estratégia. Verdade. E um bocado de vergonha na cara das lideranças. Uma coisa é certa: o governo local e nacional, tem que colocar líderes e dirigentes não cultural, mas sim culto e cultural a frente dos postos de decisão.  Falta criar espaços culturais onde os jovens possam ser mais do que figurantes de bairro. Onde se possa escrever sem medo de ser poético, compor sem autotune, programar sem precisar fugir para Lisboa, e expor sem ser na esquadra.

As escolas precisam deixar de ser aqueles lugares onde se vai só para cumprir castigo das 7h às 13h, com intervalos de tédio. Falta transformá-las em laboratórios de reinvenção, onde se aprende a fazer beats e a ler Fernandos Pessoas no mesmo dia, e sem parecer esquizofrenia.

Imagina um puto com acesso a um microfone decente, uma câmara que não seja só de selfie, uma guitarra afinada, e um livro daqueles que, quando fechas, ficas mais vivo por dentro. Um livro de Fernando Pessoa ou José Luís Tavares, claro, mas também de Mário Lúcio, Germano Almeida, Dina Salústio, Gabriel García Márquez, tudo no mesmo saco, uma espécie de mochila mágica onde cabem todos os mundos. Com isso na mão, esse jovem não só se salva como ainda salva a rua dele, e talvez até o primo que anda a "fazer cena" no bairro.

Falta ouvir Amílcar Cabral, sim, (calma, não é sermão, e eu também não sou cabralista com carteira assinada), mas ouvir aquele Amílcar que dizia que "ninguém liberta ninguém"… a não ser que seja com um bom beat de fundo. Falta saber quem foi Carlos Veiga, Renato Cardoso, Pedro Pires, Jaime Figueiredo, José Estrela, Simão de Barros, José Leitão da Graça… não para votar neles no TikTok, mas para saber que já houve gente que pensou o país antes de haver Wi-Fi.

Falta ler a Mana Guta, o Manuel Veiga, o Herménio Vieira, o Osvaldo Alcântara, e aqueles posts heroicos e inspiradoras e pouco “couching” do Jorge Tolentino que, se fossem cantigas, batiam qualquer drill de coladera trap. Falta ler o Rasta Nguka do Mestre Arlindo Mendes. Tudo isto, de preferência, ao pequeno-almoço, com pão k’ôvu e xá di sidréra, e depois ir discutir Frantz Fanon ali no largo, ao pé da banca do tia Saburosa de Nhana, entre um oril, dama e uma teoria revolucionária sem Marx

E sim, falta trazer a tecnologia. Mas não aquela que só serve para fazer scroll até os polegares pedirem fisioterapia. Falo da tecnologia com alma, com memória, com aquele molho caboverdiano que mistura o cheiro do fundo no fundo da ilha e duplex na cidadela e com futuro. Uma espécie de Ubuntu digital com tempero de bura até cinguelo e visão de drone.

Tarrafal não precisa de mais discursos. Precisa de ação. Mas uma ação pensada. Com pés no chão e olhos no futuro. Com cultura e com alma. Com política, sim, mas daquela que transforma, não daquela que promete.

Se queremos que o Tarrafal volte a ser o que pode ser, temos de começar agora. Antes que seja tarde demais e a paz se transforme em estatística.








                               



Às vezes, ficamos no nosso canto a tentar compreender o mundo. Tentamos conquistá-lo, nem que seja apenas uma parte próxima de nós, a partir deste burgo tão norte e tão Tarrafal. Mas a história, essa velha senhora de memória longa e seletiva, parece rir-se da nossa ilusão. Há mais de 565 anos que o norte da ilha de Santiago aguarda a promessa da modernidade, enquanto o sul, com sua voracidade comercial, continua a ditar o ritmo do país. Desde a chegada de António da Noli e Afonso, acompanhados dos seus marujos tristes e rabugentos, que o Tarrafal permanece à margem das rotas de desenvolvimento. O que nos resta, então? A eterna sensação e utopia de que esta é a terra das oportunidades e potencialidades. Mas, sejamos honestos: o que se tem feito dessas potencialidades são as mesmas obras vistosas, erigidas para iludir os incautos e depois abandonadas ao esquecimento.

Aqui, neste Tarrafal meu e teu, há coisas que desafiam a lógica. Mas desafiar a lógica é, talvez, o exercício favorito do poder. E dentro dessa sobreposição de poderes, ninguém assume realmente a responsabilidade. Porque o poder aqui é a moeda de troca das promessas eleitorais, uma dança de cadeiras onde os novos ocupam os lugares dos velhos e perpetuam os mesmos vícios. Desde os tempos do branco e preto que a política tem sido uma procissão de missa sem padres, mas com muitos compadres. Teve um que tentou mudar algo e perdeu o poder. O atual, bem, este recuperou as tradições impostas e fez delas um espetáculo de ilusionismo político. A auditoria prometida desde 2000 e tal nunca passou de um anúncio, um truque de desaparecimento tão eficaz que nem Houdini conseguiria replicar. Com isso, ilibou os antigos dirigentes que pervagaram no município, se tornaram limpos.

Agora, os novos senhores do poder tornaram-se artistas na arte da manipulação. São requintados em ludibriar, sabem como moldar a população com mansidão, enviam capachos para atormentar aqueles que se atrevem a questionar o absurdo. São os polícias da memória, vigilantes incansáveis da amnésia coletiva.

E então, surge mais uma obra. No mercado de artesanato e cultura, as máquinas começaram a roncar, mas ninguém sabe bem o que estão a construir. Não há esclarecimentos, não há planos divulgados, não há informação sobre a função da obra, o dono, os beneficiários, se será uma construção definitiva ou desmontável. O que se sabe, sussurrado pelas ruas, é que se trata de mais um pagamento de promessa, uma oferenda ao altar da militância.

O problema é que a lei sobre a proteção do património é clara, tanto a nível nacional como internacional. A UNESCO estabelece diretrizes rigorosas para a preservação do património, e a Lei nº 85/IX/2020 de Cabo Verde reforça a necessidade de proteger os bens culturais e arquitetónicos. Mas de que vale a lei quando a prática a ignora descaradamente? Já se tentou, em tempos, erguer uma construção nesse mesmo espaço, e a câmara recusou. Foi então que um artista, ofendido com a decisão, resolveu marcar o território com uma pintura pomposa. Quando se sentiu desrespeitado, vandalizou a obra com tinta negra, a sua própria imagem, como quem proclama que esta cidade está muda e calada. Ou, talvez, tenha sido uma premonição: a construção que agora se ergue parece cumprir a profecia do artista.

Exemplos desse tipo de descaso estão por toda a cidade. O património histórico tem sido destruído a um ritmo alarmante, engolido pela negligência e pela ganância. Não há muito tempo, uma obra na igreja do Tarrafal provocou a indignação geral, denunciada com pompa e circunstância pelo Mário Loff. Custou-me a reputação. Chamaram-me anarquista, confundiram-me com agitador. A ferida já cicatrizou, mas a mancha ficou. E aqui estou eu, mais uma vez, a fazer a mesma “animação” outros protagonistas, a repetir a mesma análise. Será que desta vez nos ouviremos a tempo? Será que aqueles que ocupam os lugares de decisão, oposição, situação e assembleia, terão a decência de fornecer informações sobre esta nova obra antes que seja tarde demais?

Que pensem profundamente, que assumam a responsabilidade. A história é impiedosa com os que ignoram os seus erros. O Tarrafal, este meu Tarrafal, não merece ser mais um exemplo de desleixo e descaso. Sejamos, ao menos, dignos do nosso próprio passado. O certo é que o nosso “príncipe” de todos nós já foi. Só espero que a Rosa, que há mais de 10 anos ganha pão naquele espaço com  a grelha, não seja removida.


Mário Loff






E de repente, não mais que um momento de impetuosidade, perceber que todas as agulhas que tornaram vivas e jogadoras e foram jogadas com as mãos, pés e bocas eram, também, os punhais que indicaram a completude de um homem, Victor Hugo disse que um homem deve ser razoável, dessa distância até sermos razoáveis é preciso entender a ponta dos dedos até sabermos que aquilo se chama paciência. Por vezes, pode ser tarde, mas, ele compreendeu que é necessário para a revolução interna, termos de sangrar por dentro para entendermos os outros que dão sangue em, e para alguma coi mo 8 desa. 

Os tchetchenos quando curtem um fresquinho numa espinheira, dizem que a sombra daquela planta lhes curam os seus males da alma, aqui no país, criam os malas com almas. Na obra de Constantino Kavafis “o profeta" ele criou o personagem Francisco, fala sobre os sacrifícios e as vantagens das dores, homens de grande perigrinação. 

Agora sobre nós por aqui. A dor era tanta pela banda da consciência, não por ter tentado pôr as suas ações a serviço de alguma renovação, porém, concluíram que havia no ar da badiulandia e arredores umas poucas ciências e muitos poetas no lugar de alguns resistentes que decidiram negar o poema e o nome por algum tempo em nome de umas poucas poesias e poemas, mas com aziados. 

O homem em questão que acabara de se recompor, por ter tido feito muita tarde a luta que perdera, sentiu-se orgulhoso do aprendizado,


lhe permitiu ver a real contabilidade dos íntimos no coração e dos imos metidos no intestino que dará, já agora, acesso ao sanitário, assim, percebeu que uma das coisas mais importantes da vida, mais do que a dor, é a constante construção do nosso bom nome, é lá que devemos fazer as obras e os outros, que inauguram. quando dizem o nome nome: Tu só precisas ouvir e exigir que seja repetida em voz alta na proporção maiúscula. O corpo pertence à terra e a nós só o nosso nome, é nela que devemos prestar atenção. O nome, fazer o nome ser lembrado. O corpo não!, disse o poeta. Então, depois da dor. 


Os olhos permaneceram fixos no mesmos lugar, a luz apagou a escuridão e a neblina, a primeira imagem que viu a sua frente foi de uma torneira que se recusou a ser aberta da forma tradicional veio da fábrica, então começou a perceber que todo o sistema de passagem da água vem acumulando problemas durante anos. O assunto não era dele, apesar de ser o elo de ligação de muito pouco compromisso com a nação, mas, percebeu que é o problema com o próprio povo, terá esperança, usar a esperança até cair alguma coisa muito pouco coisa. Então o homem, provocou e mexeu no sistema das coisas, usou o circuito e fugiu com um preso para a cidade das luzes e um passeio para o Tour Eiffel. Pensa sempre no seu menino que deixou na barriga de uma linda tarrafalense. depois disso inquérito, averiguação e chamadas internacionais. 


Trouxeram técnicos estrangeiro para tentar debelar o problema, cobrou caro, teve boa vida em pouco tempo que esteve na terra, o povo lhe tratou bem, o homem é loiro, alto e branco. Mas não conseguia descobrir o problema do sistema de distribuição da água para que a sede seja menos visível na garganta. Homem não tem muita culpa, não é daqui e mesmo que o sistema esteja estressado, ele pode até dançar sobre a dor, sede e suor das gentes, mas, nunca poderia sentir a boca das ilhas ou a porta do problema por onde o sistema mudará a nova saída para a resolução e distribuição do problema da água. Deram-lhe o fim do contrato de trabalho, não adiantava muito, lamentou muito por não ter conseguido muita coisa, mas se vangloriou por ter convivido com um povo tão diferente e tão....uns pretos e mulatas iguais aos europeus.O sistema mudou de porta, da janela, de cara, e virou ao contrário. Fé fazia o nome daquelas gentes, karastia ainda lhes era habitação no coração, fome em alguma memória. Aguentaram firmes por longos dez anos, no entanto, tinha nascido o rapaz branco de cabelo bedjo, filho do antigo consultor de sistemas, nasceu pretuguês, badiu e muito curioso. Ele queria saber do sistema. O assunto da distribuição da maior riqueza do país, voltou novamente ao debate. 


É sede demais!  


Nesses anos todos, pouca gente esteve perto de resolver o problema do sistema de destruição. O rapaz ficou orgulhoso ao saber que o seu pai estava ali a tentar. Olhou, reparou, deu a volta ao país e concluiu que é necessário o sangramento, uma criança não pode ouvir e nem ver demasiado cedo as desgraças de um país. Virar a torneira ao contrário, é simples, nesse caso era ver por detrás do pensamento, em vez de abrir para cima em direção do céu, temos de começar a abrir por baixo em direção à terra e o próprio país precisa sentir o seu ku já que a cabeça anda dolorido com os pés na terra. 



Vem lá os rapazes, neste caso, os de arredores da cidade, alguns depois do pouso do remo e do tal facão. É correria, sim. Comenta o varredor das ruas da cidade, senhor Litxi. Num ataque de pé contra a terra, depois contra os primeiros basaltos colocados no centro da cidade, é avenida, feito em calçada, é nosso, disse o senhor Pantaleão, um homem alto e de causas municipais, nome curioso, brincou o Litxi, que ao lado do amigo, atravessou com coragem toda a rua do senhor Papacho, e a própria rua que dá acesso à casa cinema, mas o cheiro de pães era mesmo uma tentação que só é superada só por feitio de Leão, um homem com leão no nome. Provavelmente e muitas vezes já se sentiu pantaleão e depois se transforma em estado natural, a sua forma natural é ser pantaleão. Pães de Papacho tinha esse efeito, de alterar as pessoas no nome.

Quando um homem frouxo come, chama-se “homo”, bom mesmo é ver os grandes senhores que se resumem nas filas à procura do trigo com fermento feito na mão do homem de Cristo.
Sem perseguição para a continuidade do costume antigo, melhor “ancieni” palavras sempre repetidas pelo imigrante francês enviado de volta depois de quinze anos na França, nunca enviou nada a terra. Tarrafal é longe, imagina eu saí de lá para praia, e de praia para Portugal e de Portugal para França, quem vai lembrar do norte da ilha de Santiago a partir do norte de França, só se for aqueles que ainda vão de encontro com o pão de Papacho, a única coisa que presta no período depois da tarde, dizia o imigrante nos botequins de arredores de Marselha.

Tudo o que ganhou está presente na sua boca, em tempos, juntava belas palavras, iluminadas quase que trazidas das cidades das luzes, teve filhos e filhas, mas, também ouvia das boas que era um filho da palavra feia, a sua boca está cheia de dentes de ouro, tem duas em falta devido a um ataque sofrido na cidade da praia devido a um intenso jogo de batota. Pagou com dois dentes e uns tabefes por ser de Tarrafal, e ali quem é de fora é tratado com foro, bom gozo o dito de gostoso, mesmo que seja bem feio, é gostoso e ponto final.
As Sete da noite, abria a porta de casa cinema, todo o mundo no momento acalmou, e outros tantos que chagavam a pingar suores e a exalação de sovaco e uns tantos rapazes de mangue que cheirava a milho iladu no bolso do jaquetão do pai velho, se destacavam a alguma distância e sempre em grupo, os de arredores da cidade em outro grupo e mais perto da porta de entrada está os pescadores que se entende pelos pés sem sapatos e calças de boca larga, cabeleiras grandes e outras tantas palavras agradavelmente desajeitadas que saem de forma normal da boca tomado pelo vento. O senhor de ‘perestroika’ abre a porta, primeiro chama o Mário Tucha para assegurar a porta até a sua volta e recomendou-lhe.

- Meu filho, não deixe ninguém entrar aqui sem pagar, mesmo que fosse a tua mãe.
O menino Mário ouviu, concordou com a cabeça e tomou a conta da porta, cobrou todos os bilhetes, com a faca 180 e um pequeno Nabadja barba pregada a calça, os rapazes entraram de forma calma e ordeira, inclusive Buluria, homem de cabeçada e o domingo cabalo barulhento, assistiram filme, dormiram, por meia ora e depois se ouviu um tiro, todos acordaram a comentar “é agora que vai ser bom mesmo”, outros já estavam meio esfomeado, mas, o filme é de romance e o ator principal era um mundo deficiente e boca vedada.

Os rapazes foram enganados pelo cartaz, o próprio Buluria por acreditar que foi roubado carregou sete bancos de uma só vez para arremessar no ar, no entanto, alguém reparou no meio de escuro algo estranho e acendeu a luz, ele ficou no meio dos homens com o grande banco e envergonhado e justificou-se.

— Já carreguei e vou derrubar. E a partir dali até a rua o senhor de ‘perestroika’ ouviu o barulho, ele que acabara de chegar da casa de uma senhora que ele apanhou na rua a "dar café" e viciou naquilo e na sua cama. Então correu para a porta para forçar a entrada, o Mário barrou o homem.

— Mas Mário sou eu?
— Eu sei. Respondeu o Mário.
— Então deixa-me entrar?
— Não vou deixar entrar nem a minha mãe, muito menos o senhor, julgas que és mais importante que a minha mãe?

O homem ficou a pensar sobre a tarefa dada a um pescador. — Ele leva isso muito a séria pá. Então, vinte minutos depois acabou o filme, com os rapazes a resmungarem sobre o filme de merda sem nenhum carate, nenhum homem fumou um, bula bom, nada dos Raston Bedju.

Para acabar a noite, foram dar a casa de Nhu Papacho para o tal pão de modo a terminar a noite. Foi bom nê Senhor Pantaleão. Ele vê com a ponta dos olhos e acorda num outro mundo, ao pé da igreja onde os primeiros fiéis acabaram de rezar em nome da sua alma.


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