Halloween party ideas 2015

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(em memória daquilo que nunca aconteceu)

O rapaz permanecia ardigadu na mesa, como se o tampo de madeira lhe sustentasse não apenas os cotovelos, mas também o peso acumulado de todas as horas mal dormidas da semana e dos anos anteriores. Não movia os dedos, nem sequer o olhar, mas subitamente ergueu a cabeça com a lentidão de quem se levanta num sonho espesso — e vislumbrou, ao longe, noutra mesa, um grupo de colegas que brindavam com café como se fosse champanhe, rindo do que beberam ontem, lamentando o que esqueceram.

Tinham levado as filhas na última caminhada à costa oriental da ilha. Deixaram as mães para trás, como quem esquece a chave dentro de casa. A sexta-feira não lhes fora benéfica — era agora claro: nem à cabeça, nem ao estômago, muito menos à alma.

O rapaz vira-se então, com um gesto mecânico, para a frente. A menina.

Ela morde os lábios como quem esconde a lâmina da palavra que não ousa dizer. Bebe a cerveja como se bebesse um veneno lento e libertador. Os olhos dela, abertos como janelas num sobrado antigo, procuram os dele. E chegam lá. Há carne crua na boca da menina, uma espécie de flor morta, de beleza obscena. Há desejo demais naquilo. Um desejo que treme por dentro dele como se cada nervo fosse um fio exposto a uma tempestade.

Na outra mesa, a amiga da menina — talvez cúmplice, talvez apenas observadora passiva da tragédia iminente — autoriza, com um gesto casual, a empregada a trazer mais duas cervejas. A moça da Shell, de calças demasiado apertadas para um corpo que não cabia nele, cruza as pernas e revela, sem saber, o segredo das manhãs perdidas.

Tudo nela parecia prestes a acontecer: os lábios, a carne, a cerveja, os olhos. Até o silêncio dela dizia mais do que muitos homens bêbados às portas do mercado. O rapaz, ainda imóvel, reconhece o calor da tragédia que se aproxima. Se ali estivessem sozinhos — ele pensa — aquilo seria mais do que um beijo ou um crime: seria um colapso de tudo o que é possível e permitido.

A menina é linda, meu caro — confidenciavam os velhos reformados ao lado, os mesmos que cheiravam a um perfume antigo feito de grogue, dor nas articulações e saudades que já não sabiam de quem eram. Era uma beleza com prazo vencido. Já não virgem, talvez nunca o tivesse sido. Mas ainda assim, bela como um erro de Deus.

E então veio o suor. E o mar ali perto. A promessa de lavarem o corpo num ritual primitivo. Como se o desejo se pudesse purificar no sal. Como se um beijo pudesse lavar um passado inteiro.

A menina disse, sem dizer:

— É desejo, meu amigo.

E do outro lado da mesa, um silêncio se instalou como um veredicto.

— Eu invejo esses meninos que exalam querer — murmurou ela. — Bom mesmo é quando ainda querem-se ver depois do querer.

Havia uma poesia no absurdo disso tudo, como se Kafka tivesse escrito a cena com uma caneta encharcada em cerveja e suor. A moça merecia, dizia alguém, ser levada à Terra do Nunca. Nunca se deve deixar de amar uma moça assim. Nunca.

Levantámo-nos e sentámo-nos mais perto, como cúmplices de um crime que ainda não sabíamos qual era. Observávamos o rapaz a falar por dentro. A menina lia-lhe os lábios. E eu, como um tradutor das sombras, tentava decifrar o que ele dizia com os olhos.

Ela ansiava por compreender. Eu ansiava por dizer. E ele, coitado, dizia o que nem sabia estar a dizer.

De repente, sem aviso nem preparação, a palavra certa atravessou o ar. Não sabíamos qual era. Mas era certa. Porque a menina crua, de cerveja na boca, agarrou o rapaz como quem agarra um destino que escapa — e beijou-o. Um beijo sem alívio, sem redenção. Um beijo que parecia o último gesto humano antes da extinção do sol.

Naquele instante, a manhã escondeu-se dentro de uma garrafa de Superbock. E nós, os que restávamos à volta, éramos apenas sombras no teatro mudo da paixão alheia.

A menina à minha frente fez-me sinal. Queria saber o que ele dissera. Fez um gesto com a mão, como quem atira uma pedra ao lago e espera ver as ondas.

Respirei. Preparei as palavras. Coloquei uma flor invisível na boca, como os rapazes de Abril na praça da República.

E disse.

Mas já não estavam lá.

O casal.  O beijo.  A palavra. Ficou apenas o silêncio. E a menina, ainda à espera, com a cerveja quase quente na mão.

 

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