(em memória daquilo que nunca aconteceu)
O rapaz permanecia
ardigadu na mesa, como se o tampo de madeira lhe sustentasse não apenas os
cotovelos, mas também o peso acumulado de todas as horas mal dormidas da semana
e dos anos anteriores. Não movia os dedos, nem sequer o olhar, mas subitamente
ergueu a cabeça com a lentidão de quem se levanta num sonho espesso — e
vislumbrou, ao longe, noutra mesa, um grupo de colegas que brindavam com café
como se fosse champanhe, rindo do que beberam ontem, lamentando o que
esqueceram.
Tinham levado as
filhas na última caminhada à costa oriental da ilha. Deixaram as mães para
trás, como quem esquece a chave dentro de casa. A sexta-feira não lhes fora
benéfica — era agora claro: nem à cabeça, nem ao estômago, muito menos à alma.
O rapaz vira-se
então, com um gesto mecânico, para a frente. A menina.
Ela morde os lábios
como quem esconde a lâmina da palavra que não ousa dizer. Bebe a cerveja como
se bebesse um veneno lento e libertador. Os olhos dela, abertos como janelas
num sobrado antigo, procuram os dele. E chegam lá. Há carne crua na boca da menina,
uma espécie de flor morta, de beleza obscena. Há desejo demais naquilo. Um
desejo que treme por dentro dele como se cada nervo fosse um fio exposto a uma
tempestade.
Na outra mesa, a
amiga da menina — talvez cúmplice, talvez apenas observadora passiva da
tragédia iminente — autoriza, com um gesto casual, a empregada a trazer mais
duas cervejas. A moça da Shell, de calças demasiado apertadas para um corpo que
não cabia nele, cruza as pernas e revela, sem saber, o segredo das manhãs
perdidas.
Tudo nela parecia
prestes a acontecer: os lábios, a carne, a cerveja, os olhos. Até o silêncio
dela dizia mais do que muitos homens bêbados às portas do mercado. O rapaz,
ainda imóvel, reconhece o calor da tragédia que se aproxima. Se ali estivessem
sozinhos — ele pensa — aquilo seria mais do que um beijo ou um crime: seria um
colapso de tudo o que é possível e permitido.
A menina é linda,
meu caro — confidenciavam os velhos reformados ao lado, os mesmos que cheiravam
a um perfume antigo feito de grogue, dor nas articulações e saudades que já não
sabiam de quem eram. Era uma beleza com prazo vencido. Já não virgem, talvez
nunca o tivesse sido. Mas ainda assim, bela como um erro de Deus.
E então veio o
suor. E o mar ali perto. A promessa de lavarem o corpo num ritual primitivo.
Como se o desejo se pudesse purificar no sal. Como se um beijo pudesse lavar um
passado inteiro.
A menina disse, sem
dizer:
— É desejo, meu amigo.
E do outro lado da
mesa, um silêncio se instalou como um veredicto.
— Eu invejo esses
meninos que exalam querer — murmurou ela. — Bom mesmo é quando ainda querem-se
ver depois do querer.
Havia uma poesia no
absurdo disso tudo, como se Kafka tivesse escrito a cena com uma caneta
encharcada em cerveja e suor. A moça merecia, dizia alguém, ser levada à Terra
do Nunca. Nunca se deve deixar de amar uma moça assim. Nunca.
Levantámo-nos e
sentámo-nos mais perto, como cúmplices de um crime que ainda não sabíamos qual
era. Observávamos o rapaz a falar por dentro. A menina lia-lhe os lábios. E eu,
como um tradutor das sombras, tentava decifrar o que ele dizia com os olhos.
Ela ansiava por
compreender. Eu ansiava por dizer. E ele, coitado, dizia o que nem sabia estar
a dizer.
De repente, sem
aviso nem preparação, a palavra certa atravessou o ar. Não sabíamos qual era.
Mas era certa. Porque a menina crua, de cerveja na boca, agarrou o rapaz como
quem agarra um destino que escapa — e beijou-o. Um beijo sem alívio, sem
redenção. Um beijo que parecia o último gesto humano antes da extinção do sol.
Naquele instante, a
manhã escondeu-se dentro de uma garrafa de Superbock. E nós, os que restávamos
à volta, éramos apenas sombras no teatro mudo da paixão alheia.
A menina à minha
frente fez-me sinal. Queria saber o que ele dissera. Fez um gesto com a mão,
como quem atira uma pedra ao lago e espera ver as ondas.
Respirei. Preparei
as palavras. Coloquei uma flor invisível na boca, como os rapazes de Abril na
praça da República.
E disse.
Mas já não estavam lá.
O casal. O beijo. A palavra. Ficou apenas o silêncio. E a menina, ainda à espera, com a cerveja
quase quente na mão.
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