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Há uma tradição em Achada Moirão que só sobrevive por teimosia. E é essa teimosia, que mais parece um pacto secreto com os antepassados, que acorda a vila antes do sol, antes do galo, antes até do primeiro pensamento do dia.

É de madrugada que as coisas mais doces e mais banais acontecem. Coisas que não servem para nada, mas sem as quais a vida se desorganiza.

Na escuridão ainda molhada da noite, ouvem-se passos suaves e o tilintar do vidro do leite dentro das garrafas, o som quase extinto de uma economia feita à unha. As vendedoras, todas elas com a coluna de um cansaço hereditário e o equilíbrio de uma fé inabalável, percorrem as vielas com cestos na cabeça, cheios de pão morno, bananas ainda com cheiro de quintal, e leite de vaca verdadeiro.

Não é qualquer leite. É leite de vaca, dito assim com toda a seriedade de quem ainda distingue entre o que é de verdade e o que é só embalagem. E não é só pão, é pão de casa, aquele que leva fermento de paciência e forno de lenha emprestado.

Chamam as pessoas pelo nome, sem gritar, como quem diz um segredo que já é sabido. Cada nome pronunciado é um laço marcado em cada olho nascido e envelhecido por cada canto, um contrato sem papel nem assinatura: 

— Dona Clara… 

— Nhô João…

O mundo, ali, ainda não se digitalizou. Os telefones dormem nas mesinhas de cabeceira. O que acorda a casa é a voz da vendedora, como se fosse a mãe do dia a puxar pelos filhos: 

— Está cá? Leite fresco!

O leite vem numa garrafa reciclada, que dantes foi de Fanta ou de água mineral ou garrafa de agua que varia de acordo com a marca registrada. E ninguém se importa. Aliás, até preferem assim, que o vidro conserva a dignidade do leite.

Há também um senhor que só vende bananas. E não diz mais nada além de:

— Banana! 


Mas diz aquilo com uma convicção de quem está a vender o futuro da espécie.

E é essa teimosia, essa coisa lindamente inútil de continuar a vender pão, banana e leite de vaca ao nascer do dia, que mantém Achada Moirão viva.

Não é por necessidade. Não é por lucro. É por amor. Um amor que não precisa de ser dito porque se ouve, todos os dias, logo que o silêncio acaba. Essas mulheres e homens, esses pequenos comerciantes da madrugada, são os poetas invisíveis do bairro. Fazem rima com o tempo, com o cheiro da terra molhada e com a fome tímida que ainda não sabe que já acordou.

São eles que lembram à vila, e a quem ainda tem ouvidos para escutar, que há uma forma antiga e bonita de existir. Que há gestos que valem mais do que um salário. Que há um pão que sabe a infância e um leite que sabe a colo.

E que, enquanto houver alguém a dizer “pão!”, “banana!”, ou “leite de vaca!”, chamando-nos pelo nome de manhã cedo, ainda estamos vivos. E ainda somos nós.


Crônica de Mário Loff


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