Halloween party ideas 2015

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Ainda era cedo demais para ser dia, e tarde demais para se chamar noite, quando os primeiros vultos começaram a descer pelas veredas de pedra batida, rumo à praia de Bakanorte. O silêncio da vila era apenas aparente: nos telhados, as andorinhas acordavam os fantasmas, e nas cozinhas, as mulheres ferviam o café com um olho na cafeteira e outro no mar. Mas eram os homens quem davam corpo ao ritual antigo.

Cada pescador surgia com o cigarro barato colado ao canto da boca — um gesto herdado, não de vício, mas de pertença. Nem falavam. Cumpriam a ordem não dita: levar os botes até ao ventre da água, até o barco boiar como um desejo liberto. Era preciso força de ombros, mas também de pernas, e mais ainda: era preciso a força dos que sabem que dali depende a panela do dia.

A cena repetia-se como uma oração. Um de cada lado, puxando e empurrando ao mesmo tempo, como se o mar fosse um segredo que só se revela a quem o incomoda devagar. Os mais velhos, já curvados, tomavam a proa ou a popa com o remo firme, equilibrando o bote no mesmo lugar até que os outros se juntassem.

E depois, como uma linha invisível os chamasse, partiam todos — não para o alto-mar ainda, mas para a baía. Lá, entre pedras e correntes escondidas, pescariam primeiro as iscas vivas. Pequenos seres luminosos, frágeis, que seriam oferendas para atrair peixes maiores, os donos da fartura e do sustento.

O mar era um pai duro. Dava e tirava, com mãos de espuma e juízo de abismo. Mas havia uma coisa que nem ele podia apagar: o gesto humano de empurrar o horizonte com o próprio peito, todos os dias, todos os dias.

Em Bakanorte, ninguém precisava dizer que era pescador. Bastava olhar os ombros — largos como promessas — e as mãos, onde as linhas deixaram cicatrizes que nenhuma água lava. Eles eram os cronistas do sal e da espera. E sabiam que, mesmo que voltassem de mãos vazias, nunca regressariam de coração seco.

Porque só quem empurra o barco ao escuro, com um cigarro na boca e o corpo cansado de ontem, sabe o que é ter fé num peixe que ainda não veio.

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