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I

Ontem, Lídia Jorge, escritora belíssima e premida, com aquele ar beatífico de quem acabou de sair de uma sessão de meditação transcendental em Lubron de Grexa, brindou-nos com um discurso tão humanista, mas tão humanista, que quase me esqueci de que o arroz subiu outra vez, no fogão e no preço. Foi bonito, foi comovente, foi liricamente bem-pensado. Faltou só uma coisinha de nada: um único escritor africano. Nenhum. Nem um Ngũgĩ wa Thiong’o para arejar as ideias, nem um Craveirinha para dar um susto no eurocentrismo. Nada. Silêncio africano. Um humanismo tão puro que não admite sequer concorrência de outras humanidades.

Mas entende-se. O humanismo pós-colonial tem destas manhas: fala-se bonito, com citações de Gandhi e Hannah Arendt, Cervantes, e Camões, mas evita-se citar um africano, não vá alguém lembrar-se de que o continente tem mais do que safáris e refugiados. Nem José Luiz Tavares, o único poeta africano de atualidade e de outras que ambreia com esses.

E depois, há o nosso povo. Esse povo engenhoso que aprendeu, desde cedo, a arte milenar de enganar com elegância. É como se tivessem feito estágio em Lisboa e mestrado em São Vicente: mentem com estilo, seduzem com estatísticas, enganam com ar de quem está apenas a defender os valores da nação. E quando triunfam, porque às vezes, raios os partam, triunfam, fazem-no com aquele desprezo silencioso que roça o sublime. Um “foda-se educado”, servido em travessa de algodão e penas de vestruz de Txa meio e temperado com pós-colonialismo gourmet katxupeizadu.

II

Recentemente, os exames nacionais incluíram factos históricos concretos. Sim, senhores, factos com nomes e sobrenomes, sem fake news, com chancela do Ministério da Educação. Carlos Veiga o primeiro, primeiro ministro da era democrática do país e José Maria Neves ex. primeiro ministro e atual Presidente da República estão lá, sem paramentados, mas em papel timbrado da prova (pgi), sem fatos, mas com verdades escritas. É a liberdade oficializada com um certo rotura tendo em conta o passado idolatra de figuras poucos nacionais e africanas. Continuemos. O futuro chegou: o porto de cruzeiros de Mindelo! Dizem que vai revolucionar o turismo. Que maravilha! Que “game changer”! E logo aparecem os cínicos de sempre, os eruditos de esquina, os especialistas em tudo menos em calar, a dizer que “o povo precisa é de arroz, não de barcos, mas reclamado de falta de barcos e ligações entre as ilhas, que é necessário e importantes, demora em ser resolvida de forma definitiva”.

III

Há quem chore por ele, há quem o use como argumento geopolítico, há até quem ache que deviam constar na Constituição, entre a bandeira e o hino, logo ali, antes da parte dos direitos fundamentais. Porque, sejamos honestos: quando falta, o país entra em transe, em possessão coletiva. E quando vem de fora, de graça, os puristas correm a berrar "colonialismo gastronómico!" com o mesmo fervor com que devoram sushi de supermercado. A nossa agricultura é poderosíssima. Um colosso. Uma coisa tremenda. Tão potente que não produz nada, por pudor, talvez. Porque cultivar é para quem não tem dignidade nem cartões de crédito internacionais.

Os mesmos que vomitam arrogância sobre o Porto e a sua "bazofaria de badiu e sanpadjudu" babam-se todos em Barcelona diante de pontes iluminadas e estátuas em bronze de velhos racistas com nomes de ruas e museus. Lá fora, o luxo chama-se “urbanismo estratégico”. Aqui, é delírio de político com colete amarelo e selfie ao pé da grua, o fetiche do terceiro-mundista com aspirações de LinkedIn.

E o povo? O povo! Quer hospital sueco, escola finlandesa e estrada suíça. Mas não quer pagar impostos. Porque isso é coisa de otário e brajerisi alimentadu pa argun txiku spertu. Nos próximos tempos os impostos vão subir, sim senhor, porque se não subirem entramos todos em colapso. E não é daqueles colapsos românticos com lágrimas e violinos. É colapso mesmo, tipo blackout fiscal com cheiro a falência. O povo quer sustentabilidade, mas sustentado. Quer dignidade, mas subsidiada. Quer futuro, mas só se for retroativo.

Sonhar? Um crime de lesa-miséria. Imaginar melhor? Traição à pobreza tradicional, esse património imaterial da pátria. Aqui, qualquer visão é imediatamente sabotada com um sorriso cínico e um “quem te manda sonhar, menino?”

Temos cá umas certas gentes, homens, mulheres, não políticos tradicional, mas, sim, políticos anfíbios que negam partidos, negam políticas, mas vivem disso como peixe vive de água suja. São os apóstolos da desordem higienizada na redes a partir dos seus escritórios e algum kafé Sófia da vida: quanto mais obtêm canais com segredos cabeludos e comentadores escandalizados, melhor temperado o prato de salbaxaria.

Esses mesmos que acendem fogueiras de guerra aparecem depois como pacificadores. Ungidos. Humildes. Cheios de “povo” na boca, e contas off-shore no bolso. Quando se sentem ameaçados, vitimizam-se como se o mundo os devesse proteger do próprio veneno. Pilantras profissionais.
Quando não há lugar ao sol, encostam-se à sombra do povo, que é sempre fresca, ignorante e disponível para ser manipulada entre eleições e funerais.

E aparecem sempre, como herpes em ciclo eleitoral. Reciclados. Indignados. Prontos para o caos. À caça do próximo subsídio com nome de “causa”.
A justiça? A nossa justiça é um bingo. Se tens dinheiro e amigos: és inocente, até ao fim do mundo, mesmo que sejas apanhado com a boca no pacote (e não estou a falar de arroz). Se és pobre: és suspeito ao nascer. Dois pesos, duas justiças. A balança está tão desequilibrada que já parece fazer gangasta yoga. Mas continua de olhos vendados, talvez de vergonha.

IV

No meio desta tragicomédia tropical, surgem os caçadores de ideias, salteadores elegantes, com blêizer de liberalista, com pós-graduação em plágio.
São senhores e senhoras que roubam discursos inteiros, borrifam com um spray de verniz académico e vendem como se tivessem ouvido a voz de Deus num seminário do TEDx Praia até o Mindelo. Funcionam lindamente num país onde o orgulho nacional só se manifesta quando marcamos golo… geralmente em fora de jogo, com a perna adiantada e o VAR desligado por falta de luz na várzea e a estatua de Cabral xatiadu, mas mudo.

Seguimos assim: um país de crítica instantânea, autoestima com coto e fé a pilhas.
Tudo o que se tenta é imediatamente ridicularizado, porque elogiar é sinal de fraqueza, e sonhar… uma heresia. Um atentado contra o realismo institucional da miséria herdada.
Sonhar, aqui, é quase pornografia: algo que se faz em segredo, e com culpa.

E depois vêm os europeus. Os manos europeus! Em missão humanitária estética nos verões. Aparecem com câmaras caríssimas para fotografar as nossas feridas, como se fossem arte contemporânea. Fazem selfies com crianças descalças nos escombros do antigo campo de concentração, jantam lagosta grelhada em restaurantes gourmet, e no fim postam no Instagram com uma hashtag solidária:
#EuAmoÁfrica. Claro que amam. Desde que África continue pobre, exótica e agradecida como figurante de documentário da Netflix com música tribal e filtro sépia.

Do nosso lado, temos os radicais de internet. Anti-Europa, mas financiados pela Europa.
Gritam “África para os africanos!” num iPhone importado, com dados móveis pagos por um projeto da União Europeia. São defensores da raiz africana, desde que o sinal não caia. Revolucionários de sofá, que não vivem sem ONG e outros koisas do géneros e semelhantes, nem sem cappuccino em copo biodegradável. E os humanistas de gravata de seda? Esses são os melhores: Discursam com palavras doces e pausas ensaiadas, enquanto esmagam sonhos com o salto social dos seus sapatos italianos.
Defendem a criatividade como quem tolera uma criança que impede a caída do material no nariz: com nojo, condescendência e vontade de dar uma chapada pedagógica igual as pedagogias do Kim ferro a Geovana..

Não sei em que fase estamos, mas parece que o país está com febre. Delira entre a grandiosidade que uns pensam e implementam e a miséria consentida exploradas que os outros permitem e implementam com desculpa de igualdade boboca ilusória, parasitaria de uma idolatria fedorenta e dorminhoca . É uma espécie de bipolaridade política com sintomas de esquizofrenia fiscal.

E talvez só nos resta rir. Rir com veneno. Rir com classe. Rir com raiva. Porque o humor, esse sim, ainda é de graça, e é talvez a última forma de resistir sem pedir licença nem recibo verde.

Quem sabe, um dia, o tal “humanismo” deixe de ser apenas mais um número bonito de kanbar di sol, lido em congressos com ar-condicionado e pastelinhos de kasa kiminta,
e passe a ser coisa comum, rotineira, banal, como pão com manteiga, arroz japonês e um país que, por uma vez, se leva a sério sem precisar de aprovação externa nem like europeu.

 

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