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Há uma cidade submersa no fundo do mar de Kokeiro. Chamam-lhe Contaminobo.
Os habitantes são peixes. Mas não os peixes comuns — esses que os pescadores puxam com linha e isco ainda vivos. Não. São peixes humanos ou humanos peixes. Uns são dourados, ostentando ares de grandeza, os outros são sardinhas pequenas, a mendigar migalhas lançadas da proa dos primeiros. Cada escama brilha de acordo com a conta bancária do seu dono. É uma república de náufragos, onde o luxo se confunde com a lama e a glória boia sobre lodo antigo.

Os mais humildes, coitados, contentam-se com a última sílaba da palavra dignidade. Vivem enfileirados, escutando discursos reciclados de promessas que jamais flutuam. São gente-peixe, escamas gastas, olhos que já viram o suficiente para não acreditar em mais nada. Mas ainda assim, madrugam. Esperam.

Entre eles, nada com astúcia um tal de Sérgio José — peixe de cauda comprida, ambicioso e com um paladar aguçado por poder. Não nasceu em Contaminobo, mas fez-se filho da água podre. Quando chegou, lambia-se de sabedoria, adulava a chefia, colecionava cargos e dizia que era melhor nadar com tubarões do que morrer sardinha. E foi isso que fez.

Primeiro aprendeu a nadar com os maiores. Depois roubou-lhes os anzóis.
Quis ser presidente de Contaminobo — não para salvar os outros, mas para instalar seu trono de algas douradas. Sabia sorrir com os dentes do elogio e ferir com a cauda da mentira. Com a ajuda dos peixes da classe média (aqueles que ainda acreditam no mapa do tesouro), prometeu um novo mar: mais azul, menos salgado, sem redes nem pescadores. Só que quem acredita nisso numa cidade submersa?

Do outro lado estava Tibazi Aziz, o velho rei dos recifes. Também peixe, também dourado, também mestre da camuflagem. Enrolava palavras com o mesmo talento com que se enrolam algas ao pescoço de quem afunda. Sabia que o segredo do poder é parecer mais afogado que os outros.

O povo-peixe nadava entre a dúvida e o nojo. Uns acreditavam em Sérgio José, outros apenas tinham raiva de Tibazi. E a eleição tornou-se um grande cardume de ilusão — cada peixe com a sua boca aberta à espera da próxima mentira.

No fundo mais fundo de Contaminobo, um polvo sábio, chamado Dom Octávio, observava tudo. Não se metia. Apenas escrevia com tinta negra nas pedras das profundezas:
"Neste mar, todo líder começa por prometer terra firme. Depois afunda tudo."

No final, ganhou Sérgio José. Subiu ao trono com o séquito de enguias bajuladoras, reformulou a constituição para que a presidência passasse a ser vitalícia — porque peixe não envelhece quando se cerca de peixes mais novos e burros.

E o povo? O povo continua a nadar. Uns aprendem a morrer com elegância, outros a fingir que vivem.
Mas uma coisa é certa: quem sonha com ar puro não dura muito tempo em Contaminobo.

Mário Loff

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