As pontes sobre o Douro eram cicatrizes abertas. A Ribeira dormia, mas não sonhava. No topo da Sé, as gárgulas pareciam cochichar conspirações antigas.
O narrador — um homem que já não tinha nome — caminhava pelas ruas, vendo tudo com olhos de quem sabe demais. Observava os prédios com varandas de ferro forjado, os azulejos partidos como dentes de um velho doente.
Escutava a cidade chorar:
“Estou cansada. Meus filhos matam por moedas. Meus velhos morrem sozinhos. Os amantes não se tocam mais. As igrejas estão cheias de silêncio.”
Ele via os grafites nos muros: "acorda", "somos poucos", "falta pão". As letras eram feridas abertas.
No Mercado do Bolhão, fechado àquela hora, pairava o cheiro de frutas podres e sangue de peixe. Tudo misturado. Um aviso.
Perto do rio, um mendigo acendia um cigarro com mãos trêmulas, repetindo em voz baixa:
— Vem aí o fim. O fim.
O narrador se ajoelhou diante dele e pediu:
— Diz-me como será.
O velho cuspiu no chão e falou sem olhar:
— Vai acabar assim como começou. Devagar. Depois de mil avisos. Vai arder em promessas quebradas. Vai apodrecer com discursos bonitos. Vai morrer sufocada no próprio lixo.
Mas do outro lado...
O homem silenciou.
— Do outro lado? — insistiu o narrador.
— Há uma cidade nova. Feita de gente que se ama. Sem grades. Sem fome. Sem mentira. Mas só quem morrer de si mesmo chega lá.
O narrador chorou.
As gaivotas gritavam no escuro como profetas desordenados.
Nas torres das igrejas, os sinos batiam as horas sem saber se avisavam o fim ou o começo.
E o narrador se levantou, secou as lágrimas e continuou a andar.
Porque a cidade não ia acordar sozinha.
II
O narrador desceu até a marginal, onde o rio corria como um veneno lento. A água refletia as luzes dos postes, transformando-as em serpentes líquidas.
No cais, encontrou um grupo reunido em torno de uma fogueira improvisada. Homens e mulheres de rostos cavados, vestidos em farrapos, segurando garrafas como relíquias sagradas.
Um deles falava alto — a voz rouca, mas convicta:
— Isto aqui é Sodoma! Lisboa come o que sobra do Porto, e o Porto come os filhos dele mesmo! Vendemos a alma por um subsídio, matamos por migalhas!
O fogo iluminava seus olhos como brasas.
— Ou vocês acham que alguém nos vem salvar? Quem? O governo? A Igreja? A Europa? Eles contam o nosso fim em tabelas do Excel!
Um dos ouvintes tentou rir, mas tossiu sangue.
O narrador avançou devagar. Sentiu o calor do fogo. O orador virou-se para ele:
— Tu aí! Vê alguma salvação nesta cidade?
O narrador respirou fundo. Olhou para as chamas, que tremiam como almas condenadas.
— Vejo morte, mas também parto. Vejo podridão, mas adubo para algo novo.
O grupo silenciou. O orador cuspiu no chão.
— Poeta, és? Vai rimar para os políticos!
— Não. — disse o narrador — Eu vim ouvir. Vim aprender.
O orador sentou-se, cansado de si mesmo. A fogueira estalava.
— Então ouve, poeta. Nós somos os profetas deste abismo. E a profecia é esta: tudo vai ruir. Os prédios vão cair. As pontes vão afundar. A água vai envenenar os peixes. E o último a sair apaga a luz.
O narrador fechou os olhos.
— E depois? — perguntou baixinho.
Ninguém respondeu.
Ele ouviu apenas o som do rio.
Mas em algum lugar, muito longe, pareceu-lhe ouvir uma criança cantar.
Uma voz pura, impossível, como se a cidade ainda guardasse um futuro em seu ventre.
E o narrador se levantou. Limpou a poeira das calças.
— Vou procurá-la.
O orador ergueu o queixo.
— Procurar o quê?
— Essa voz. Essa criança.
Os outros riram. Mas o narrador já não os ouvia.
Virou as costas para a fogueira e caminhou para o coração escuro do Porto.
As pedras frias pareciam vibrar sob seus pés como um coração cansado — mas vivo.
E ele continuou.
O narrador atravessou o centro da cidade como quem atravessa o tempo.
Passou pela Rua das Flores, onde flores não nasciam mais. Viu turistas bêbados tropeçando sobre moradores de rua invisíveis. Viu fachadas restauradas como máscaras num rosto doente.
A cada passo, sentia o Porto falar consigo:
— Eu era orgulho. Sou miséria pintada de cor viva.
Ele apertou o passo. Procurava a voz. A voz de criança que tinha ouvido — ou sonhado — junto ao rio.
Na Batalha, encontrou velhas prostitutas reunidas como aves molhadas. Uma cantava fado entre dentes podres.
— Já viste criança por aqui? — perguntou.
Elas riram sem alegria. Uma fez o sinal da cruz.
— Crianças? Foram levadas. Vendidas ou mortas de fome. Vai procurar noutra cidade.
Ele insistiu:
— Mas eu ouvi uma.
— Tu ouviste o diabo a rir. Vai-te embora.
Ele deixou algumas moedas. Seguiu.
Na Rua de Santa Catarina, tudo era vitrines e mendigos. Passou ao lado de um cartaz dizendo "Porto: Capital da Cultura".
Cuspiram-lhe nos sapatos. Ele não reagiu.
O narrador caminhava como quem sangra por dentro. Mas não parava. Porque ouvira algo puro. Algo impossível.
E mesmo quando os pés doíam, mesmo quando o coração se enchia de desespero, ele repetia para si mesmo:
— Eu ouvi. Eu sei que ouvi.
IV
Quando chegou à Sé, já era madrugada tardia. O vento varria as escadas, gemendo como um velho exorcizado.
Ele subiu os degraus um a um, arrastando-se.
No topo, parou.
E lá, em frente ao portal negro e maciço, estava a criança.
Pequena, magra, suja de lama. Tinha os olhos grandes como promessas.
Ela cantava. Baixinho. Uma melodia sem letra, sem língua.
O narrador caiu de joelhos. Chorou com o rosto entre as mãos.
— És real?
A criança calou-se. Aproximou-se. Encostou-lhe a mão gelada no rosto.
— Por que cantas? — sussurrou ele.
Ela respondeu sem mexer os lábios:
— Para lembrar que ainda posso nascer.
— Nascer onde? Numa cidade morta?
Ela sorriu. Um sorriso tão antigo quanto a pedra da Sé.
— Num homem vivo.
Ele entendeu. Num clarão de dor e beleza.
Sentiu o corpo queimar por dentro, como se todos os pecados da cidade pesassem nele. As traições, as mortes, os silêncios.
Gritou. Um grito que ecoou pelas pedras, pelos telhados, pelo rio.
As gaivotas levantaram voo em pânico.
As pessoas nas ruas se encolheram, cruzaram-se, rezaram.
E quando o silêncio voltou, ele estava só.
A criança tinha sumido.
Mas em seu peito havia algo novo. Uma chama. Pequena, frágil, mas viva.
Levantou-se. Respirou fundo.
— Porto. Ainda tens salvação.
E começou a descer as escadas.
Atrás dele, muito longe, os sinos tocaram. Não um réquiem.
Mas um nascimento.
Mário Loff
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