Halloween party ideas 2015

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Mário Loff

ô korosivu

(ou como o ridículo se tornou protocolo)

Aqui na nossa Tapadinha, perdoem, quis dizer Tarrafal, mas a língua tropeça no eufemismo, andamos a assistir ao mais recente episódio da telenovela político-folclórica intitulada “obras, esperança e outra vez nada”. O enredo é pobre, os atores repetem-se e o final já se adivinha: há sempre uma inauguração com obras e uma obra sem inauguração, como a pintura do Beto Dias que não teve aquelas fotos dos camaradas.

Desta vez, veio o Primeiro-Ministro. Em carne, osso e slides de apresentações em papel. Ulisses Correia e Silva, ele mesmo. Trouxe na bagagem o “projeto de reconstrução do porto de Mangui”, aquele porto velho de sal e saudade, onde o povo pescava peixe e esperança. Porto onde se ouviram mais promessas do que motores de lantxa e barco de pesca, quem não lembra de ponta rena?. Porto que, dizem, será agora renovado para fins multifuncionais: pesca, turismo e quem sabe até lançamentos de foguetes com destino à próxima eleição.

Estavam lá todos os figurões vivos. Menos os poetas. Claro. Poetas de verdade não servem para inaugurações: atrapalham o alinhamento dos discursos e têm a mania de dizer coisas como “pátria”, “povo” e “dignidade” sem parecerem patrocinados pela gráfica do município.

Faltaram também uns quantos dirigentes locais do MpD, ou foram ignorados, ou esconderam-se atrás dos cartazes desbotados de campanhas passadas, como fantasmas de promessas que nunca chegaram a tempo. Ou pior: foram convidados e recusaram por estarem ocupados a engolir a vergonha com colheres de indiferença.

Mas a cena digna de Oscar, ou de Kafka com coreografia de circo, foi outra. No meio do discurso do Primeiro-Ministro, um dos bajuladores de serviço (há sempre um disponível) interrompeu o momento solene para cantar, com voz de profeta embriagado, o nome do Presidente da Câmara. Um hino ao ego. E o edil, em êxtase silencioso quase carnal, sorriu. Um sorriso satisfeito, húmido, de quem acredita estar a ouvir o seu nome em latim gregoriano no Vaticano da porcaria local.

Ali está o problema: a idolatria. A epidemia silenciosa que mata mais democracias do que o tédio. Tarrafal padece dessa doença crónica que consiste em transformar políticos em santos de altar, uma concorrência feroz com santo amaro, humildes, claro, mas com desejo de arranjar um Mercedes através de terrenos municipais e outros passados em nome de primos. E as pessoas, coitadas, aplaudem. Como quem agradece a mão que rouba desde que venha com a camisola certa.

Veja-se o Presidente: Mayka, nome de profeta da cidade, marketing de mártir. Apresentado há 5 anos como o símbolo da humildade reciclada em poder. Afirmaram que já não havia terrenos da câmara durante as campanhas de 2020, e como quem joga Monopoly com imóveis invisíveis, colocaram a Bunda no sofá os preços subiram e os terrenos multiplicaram-se. Milagre? Não. Método.

Reduziu taxas de um lado e aumentou-as do outro com a mesma destreza com que se vira a capa da Bíblia para citar versículos convenientes. Quem critica, é acusado de falta de fé, fé no projeto, fé no partido, fé no homem. Porque é assim que chamam agora: o homem. Já não é Presidente, é entidade espiritual, o ungido, o bilubilu das moças e afins. Daquelas que distribui nomeações, empregos e silêncios bem pagos.

A cidade inteira parece ter engolido o sapo da conveniência. O que antes eram cidadãos indignados viraram monjas do silêncio que vestem tanga e bebem suco de luz. Gente que escrevia posts furiosos sobre a moral pública, agora bajula o poder com emojis de mãos postas e comentários tipo “força líder” “deus no comendo” “nho é doutor pizado”. Foram todos lavados, não com água benta, mas com gasolina de clientelismo.

E a oposição? Dorme. Ou melhor, ronca num berço feito de ressentimento e selfies mal enquadradas. Oposição que não se opõe, apenas inveja e se autodestroem entre si, desde. São pessoas que passaram vida inteira a “comer” no lombo da camara a custa do partido que hoje anda a trair, morder e sopra, é isso ao MPD sabe criar seus próprios inimigos. Não se revolta, apenas lamenta. É preciso mais do que barulho: é preciso sangue novo com ideias, rotura, coragem e vergonha na cara. Que empurre os jovens para a frente, mas não para o fundo do autocarro dos cargos, para o debate, para a rua, para a verdade.

Porque, convenhamos, a situação no Tarrafal é deplorável. Obras iniciadas antes das eleições? Paradas. Promessas? Encostadas ao cais como barcos furados. A ética? Escorrendo pelas sarjetas, se é que ainda temos sarjetas. E o povo? Encalhado. Mas contente, desde que a promessa venha com brinde de inauguração e selfie com um qualquer secretário de nome esquecível. No fundo, é isto: esquecemos o nome da avó para gritar o nome do edil. Batemos palmas a quem devia ser fiscalizado. Chamamos “progresso” ao barulho das máquinas que cavam buracos sem fundo. E confundimos humildade com subserviência.

A pergunta que fica é esta: De que serve um porto reconstruído, se a cidade inteira continua a remar em círculos dentro da servidão?

 

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