ô korosivu
(ou como o ridículo se tornou protocolo)
Aqui
na nossa Tapadinha, perdoem,
quis dizer Tarrafal, mas a língua tropeça no eufemismo, andamos a assistir ao
mais recente episódio da telenovela político-folclórica intitulada “obras, esperança e outra vez nada”. O enredo
é pobre, os atores repetem-se e o final já se adivinha: há sempre uma
inauguração com obras e uma obra sem inauguração, como a pintura do Beto Dias que não teve
aquelas fotos dos camaradas.
Desta
vez, veio o Primeiro-Ministro. Em carne, osso e slides de apresentações em papel. Ulisses Correia e
Silva, ele mesmo. Trouxe na bagagem o “projeto de reconstrução do porto de
Mangui”, aquele porto velho
de sal e saudade, onde o povo pescava peixe e esperança. Porto onde se ouviram
mais promessas do que motores de lantxa e barco de pesca, quem não lembra de ponta rena?. Porto que, dizem, será
agora renovado para fins multifuncionais: pesca, turismo e quem sabe até
lançamentos de foguetes com destino à próxima eleição.
Estavam
lá todos os figurões vivos. Menos os poetas. Claro. Poetas de verdade não
servem para inaugurações: atrapalham o alinhamento dos discursos e têm a mania
de dizer coisas como “pátria”, “povo” e “dignidade” sem parecerem patrocinados
pela gráfica do município.
Faltaram
também uns quantos dirigentes locais do MpD, ou foram ignorados, ou esconderam-se atrás dos cartazes desbotados
de campanhas passadas, como fantasmas de promessas que nunca chegaram a tempo.
Ou pior: foram convidados e recusaram por estarem ocupados a engolir a vergonha
com colheres de indiferença.
Mas
a cena digna de Oscar, ou de
Kafka com coreografia de circo,
foi outra. No meio do discurso do Primeiro-Ministro, um dos bajuladores de
serviço (há sempre um disponível) interrompeu o momento solene para cantar, com
voz de profeta embriagado, o nome do Presidente da Câmara. Um hino ao ego. E o
edil, em êxtase silencioso
quase carnal, sorriu. Um sorriso satisfeito, húmido, de quem acredita estar a ouvir o seu nome em latim
gregoriano no Vaticano da porcaria
local.
Ali
está o problema: a idolatria. A epidemia
silenciosa que mata mais democracias do que o tédio. Tarrafal padece dessa
doença crónica que consiste em transformar políticos em santos de altar, uma concorrência feroz com santo amaro, humildes,
claro, mas com desejo de arranjar um
Mercedes através de
terrenos municipais e outros
passados em nome de primos. E as pessoas, coitadas, aplaudem. Como quem
agradece a mão que rouba desde que venha com a camisola certa.
Veja-se
o Presidente: Mayka, nome de profeta da cidade, marketing de mártir. Apresentado há 5 anos como o símbolo da humildade
reciclada em poder. Afirmaram
que já não havia terrenos da câmara
durante as campanhas de 2020, e como quem joga Monopoly com imóveis invisíveis, colocaram a Bunda no sofá os preços subiram
e os terrenos multiplicaram-se. Milagre? Não. Método.
Reduziu
taxas de um lado e aumentou-as do outro com a mesma destreza com que se vira a
capa da Bíblia para citar versículos convenientes. Quem critica, é acusado de
falta de fé, fé no projeto,
fé no partido, fé no homem. Porque é
assim que chamam agora: o homem. Já não
é Presidente, é entidade espiritual,
o ungido, o bilubilu das moças e afins. Daquelas que distribui
nomeações, empregos e silêncios bem pagos.
A
cidade inteira parece ter engolido o sapo da conveniência. O que antes eram
cidadãos indignados viraram monjas do silêncio que vestem tanga e bebem suco de luz. Gente que escrevia posts
furiosos sobre a moral pública, agora bajula o poder com emojis de mãos postas
e comentários tipo “força líder” “deus no comendo” “nho é doutor pizado”. Foram todos
lavados, não com água benta,
mas com gasolina de clientelismo.
E
a oposição? Dorme. Ou melhor, ronca num berço feito de ressentimento e selfies
mal enquadradas. Oposição que não se opõe, apenas inveja e se autodestroem entre si, desde. São pessoas que passaram vida
inteira a “comer” no lombo da camara a custa do partido que hoje anda a trair,
morder e sopra, é isso ao MPD sabe criar seus próprios inimigos.
Não se revolta, apenas lamenta. É preciso mais do que barulho: é preciso sangue
novo com ideias, rotura, coragem
e vergonha na cara. Que empurre os jovens para a frente, mas não para o fundo
do autocarro dos cargos, para
o debate, para a rua, para a verdade.
Porque,
convenhamos, a situação no Tarrafal é deplorável. Obras iniciadas antes das
eleições? Paradas. Promessas? Encostadas ao cais como barcos furados. A ética?
Escorrendo pelas sarjetas, se é que ainda temos sarjetas. E o povo? Encalhado.
Mas contente, desde que a promessa venha com brinde de inauguração e selfie com
um qualquer secretário de nome esquecível. No
fundo, é isto: esquecemos o nome da avó para gritar o nome do edil. Batemos
palmas a quem devia ser fiscalizado. Chamamos “progresso” ao barulho das
máquinas que cavam buracos sem fundo. E confundimos humildade com
subserviência.
A pergunta que fica é esta: De que serve um porto
reconstruído, se a cidade inteira continua a remar em círculos dentro da
servidão?
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