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Mário Loff

Ô KÔROSIVO LÔKÔ



Neste preciso instante, não amanhã, nem ontem, mas agora, neste segundo amargo e simultaneamente absurdo, todo tarrafalense que respira sente, mesmo que não diga, que está a ser feito de trouxa. Ou pior: que já foi. E que agora finge não saber.

Recuemos a 2020, ano fatídico e promissor. Entra a nova equipa camarária, cheios de energia e boas intenções, presos, literalmente, à questão da viatura presidencial pouco tempo depois. Não havia carro para o homem. E, como bons cristãos tropicais, em vez de resolver o problema com a lógica elementar de quem gere um município e não uma paróquia, optaram por invocar a santidade do improviso. O novo presidente passou a usar, com muito orgulho e alguma encenação, uma viatura branca, de caixa aberta, do pelouro da Coesão Social. Uma pickup missionária, praticamente. Um veículo que transportava, antes de mais nada, uma ideia: a ideia de que um presidente deve ser humilde, quase pobre, quase mártir.

E assim se instituiu uma nova catequese municipal. A liturgia do "não precisamos de luxo", onde o carro não era símbolo de serviço, mas de sacrifício. O presidente, afinal, não era mais um gestor. Era um pastor. Um santo sobre rodas. Se estas não caíssem.

Esqueceram-se, porém, de um pequeno detalhe: a Câmara não é um mosteiro. Um município precisa de representação, eficácia, presença. E o presidente não é um figurante de novela bíblica, é a face política de uma máquina pública. Mas não. Institucionalizou-se o humildismo bacoco, a estética do faz-de-conta, o marketing da pobreza voluntária.

Avancemos quatro anos. Surge o comunicado solene, que ninguém sabe se vem do presidente enquanto indivíduo ou enquanto instituição, mas, a cada comunicado, outros muito pouco profissional, tem animado os seus seguidores que se recusam a contrair, mesmo notando o absurdo reinante, porque tudo no Tarrafal é tão simbiótico que já não se distingue o público do privado, o camarário do pessoal.

"Caros Munícipes Tarrafalenses, quero informar-vos por esta via, de que a Câmara Municipal do Tarrafal, no quadro da parceria com a TUACAR, negociou uma viatura no valor total de 3.500 contos para a necessária dignidade do seu Presidente."

Aleluia! Quatro anos depois, a dignidade apareceu, na forma de uma viatura preta, marca “JAC”, comprada (ou será oferecida? cedida? doada? benzida?) pela TUACAR, parceira do município. A viatura antiga, aquela da Coesão Social, era, afinal, um embaraço funcional. Aleluia, de novo!

Mas o que intriga, e muito, é a novela paralela que corre nos bastidores, nas oficinas e nas rodas da cidade: a "recuperação" da velha viatura presidencial, com mais de 12 anos de fidelidade cega. Foi retirada da sua sepultura mecânica, ressuscitada a muito custo, e exposta como símbolo de orgulho nacional, como se fosse uma relíquia de guerra. "Recuperámos a nossa velhota!" — bradam os convertidos do populismo manso.

E nós, pobres tarrafalenses, assistimos a esta pantomima como se fosse um milagre. Fica a sensação, não dita, mas sabida, de que fomos enganados. Todos. Vendidos a uma ética plástica, a um discurso de humildade conveniente, que afinal encobria o mais puro dos calculismos políticos.

A verdade? O populismo desmonta-se sozinho. É frágil como a tinta que cobre o carro velho. E agora, com a viatura nova a brilhar sob o sol da parceria, percebe-se que o tempo da encenação passou. Ou devia ter passado.

Que fique claro: um presidente de câmara merece uma viatura digna. Não por vaidade, mas porque o cargo exige mobilidade, representação, eficiência. Deve sair e entrar com sobriedade e sentido de Estado. O que não pode é continuar a ser vítima de uma ideologia falsa de humildade transformada em fetiche político.

E se há dinheiro para carros, que haja também para resolver as injustiças salariais dentro da própria câmara. Porque há trabalhadores que ainda hoje ganham o mínimo legal, esquecidos nos corredores desde os tempos do MPD, enquanto outros, mais recentes, mais bem relacionados, recebem muito mais, como se tivessem sido nomeados por decreto divino.

Por fim, uma nota de etiqueta institucional: o comunicado deveria ter sido publicado na página oficial da Câmara, e não apenas nas redes pessoais do presidente. Porque dinheiro público exige transparência, e o que é da Câmara não é do homem, é da República.

E sim, um presidente precisa de uma viatura só para ele. Mas também precisa de um novo condutor. Porque há viagens que exigem sigilo. E outras que exigem juízo.





 

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