Halloween party ideas 2015

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Por estas horas em que este texto chega às mãos do leitor, Cabo Verde está prestes a entrar em campo no mundo inteiro. E isto não é apenas uma figura de estilo: é quase uma irregularidade no calendário universal. Um jogo, um simples jogo, mas, em futebol nada é simples, até houve tolerância de ponto decretada pelo Governo, para que o país inteiro pudesse parar para assistir ao batimento cardíaco do seu próprio orgulho.
Do outro lado está a Espanha, essa ideia de país convertida em sistema futebolístico, em metodologia, em gramática minuciosa do passe, em religião do posicionamento em campo, um território onde a bola parece ter passado primeiro por uma escola técnica (longe da variante em São Domingos,) antes de aprender a tocar no relvado, onde o remate já vem com diploma e o passe curto tem genealogia europeia certificada, quem não se lembra do Barcelona de Pep?
Aqui, porém, a realidade é outra, aqui, apesar de termos escolas de futebol e alguma efervescência amadora, até para discutir o relvado é preciso convocar assembleia, comissão, parecer técnico e, se possível, uma espécie de consenso nacional que chega sempre atrasado ao apito inicial. E ainda assim… jogamos.
Do nosso lado há dez ilhas. Nove habitadas com uma teimosia que já devia constar em tratados de sobrevivência humana por sermos os últimos a chegar ao mundo. Não temos uma liga que se venda em catálogo internacional. Não temos a sofisticação industrial do futebol como produto global, mas temos os nomes dos craques internacionais por todas as ilhas, sempre cheiramos a fórmula do sucesso, nem que seja só pelos nomes dos outros. Temos outra coisa: improviso com dignidade, futebol de poeira nos pés e orgulho nos olhos, futebol que muitas vezes nasce em campos de terra batida que parecem ter sido desenhados por um vento distraído, com pressa de ir embora, e ainda assim, ou talvez exatamente por isso, continuamos a existir.
Há jogadores desta seleção que vivem do futebol, outros vivem com o futebol, e há ainda aqueles que vivem apesar do futebol, mas todos carregam a mesma contradição: nenhum joga verdadeiramente em casa, porque o “em casa” já não é geografia, a cabo-verdianidade atravessou os mapas físicos das ilhas e passou a residir na memória, a seleção nacional é, nesse sentido, a sua forma mais visível.
Desde os primeiros tempos, havia mais sonho do que estrutura, mais orgulho do que plano, mais improviso do que metodologia, jogava-se por prazer, sim, mas também por algo mais perigoso: a ideia de país. E isso, num arquipélago, nunca é simples, porque um país feito de ilhas nunca é inteiro, é sempre um esforço de junção.
Disse alguém, com razão emocional se não académica, que Cabo Verde é um país de insistência, e talvez seja isso: um país que só existe porque nunca desistiu de parecer possível, um país onde o impossível não é negação, mas apenas atraso, este último inspirei no PP e Ulisses, apesar de que neste momento o presidente José M. Neves, estar a medir a sua popularidade com a dos jogadores lá nos Staites, de qualquer forma, os dois estão em campanhas, uma para a nação e outros para a reeleição.
Há quem diga, com uma ousadia poética perigosa, que somos um país “sexualmente transmissível no sentido simbólico da palavra”: quem nos encontra leva-nos consigo, fica com um ritmo, uma leve febre, uma alegria triste que não sabe bem onde pousar, e então chega o jogo, amanhã, 15 de junho, data que já se comporta como história antes mesmo de acontecer.
Cabo Verde contra Espanha. O improviso contra a máquina, a ilha contra o continente, o instinto contra a técnico, o poeta contra o engenheiro, e, se quisermos exagerar com alguma elegância Literária, Manuel Veiga contra Cervantes, Mário Lúcio contra Javier Marías e José Luís Tavares contra Juan Ramón Jiménez, sem livros, apenas no relvado, respiração e transpiração.
Se empatarmos… o mundo não saberá onde guardar o espanto ou encanto. Se ganharmos… o mundo terá de reorganizar os mapas mentais onde guarda as suas certezas, e se perdermos… não será exatamente uma derrota, será apenas mais um capítulo da nossa forma peculiar de resistência: perder sem desaparecer.
Mas há uma verdade que resiste a tudo isto, uma verdade quase infantil, irresponsável, quase sagrada: Cabo Verde acredita, sem provas, sem garantias, sem estatuto, acredita como quem respira. Porque aqui o futebol é como se fosse uma espécie de linguagem, um passe errado pode ser uma teoria do destino, um drible pode ser identidade nacional em estado puro, um golo pode ser um país inteiro condensado numa única sílaba: golo.
Talvez seja isso que amanhã está realmente em jogo, não o resultado, mas a confirmação de que a grandeza não depende do tamanho, depende da insistência.
Cabo Verde não entra em campo para ser respeitado, entra para ser inevitável, e mesmo que o resultado diga outra coisa, já venceu aquilo que não cabe em estatísticas: o direito de ser visto.
E quando a bola começar a rolar, talvez o mundo descubra o que nós já sabemos há muito tempo: há países que não jogam futebol. Jogam destino.
E às vezes, só às vezes, o destino veste azul. Respira fundo.
E grita.
É Golo de alimária de oceano.

                                   




Colhe Bicho nunca pediu licença ao Estado para existir. Nasceu da força das suas gentes, dos braços calejados e das mães que criaram filhos de mil homens e mil mulheres, porque muitos pais emigraram e nunca mais voltaram. O bairro cresceu sozinho, à margem, sem Estado colonial, sem partido único, sem os discursos ocos da capital. Cresceu com aquilo que sempre foi o mais precioso: a união e o orgulho de ser comunidade.

Éramos conhecidos por andar juntos, por não aceitar desrespeito nem abuso. Chamaram-nos de tudo: mokerus, salbaxus, malcriados, antissociais. Mas ser “antissocial” fora de portas até tinha o seu charme era a nossa marca de resistência, uma espécie de luxo político, um casaco malcheiroso mas cheio de estilo. Quem chegava com respeito, ficava. Quem vinha com pose, levava corretivo não com comunicados da Câmara, mas com o poder anónimo da comunidade.

No meio da dureza, havia festa. As crismas em julho viravam quase congressos populares: mesas na rua, kaldu pexi a rebentar as costuras das panelas, danças intermináveis e jovens com intenções sérias ou nem tanto. A fama era simples: quem viesse brincar com as moças do bairro, sem respeito, ficava a saber o que era disciplina popular. Um bairro que criava mais professores por metro quadrado do que muitas capitais africanas. E tudo isso sem Estado.

Depois, vieram os anos 90: água, luz elétrica, estradas, organização. Descobrimos que havia mundo para lá da vila, mas nunca perdemos a união. Até que um dia nos roubaram o campo de Txam Riba. Roubaram-nos o coração do bairro. Levaram o símbolo e deixaram a urbanização.

E chegamos ao presente, aos últimos cinco anos: um bairro arrumado, organizado, com quadros e doutores, mas também com jovens deixados à sua sorte, usados em campanhas e descartados como latas de cerveja no chão. A PJ invade, prende futuros ainda em gestação. As drogas circulam, as bebidas pesadas substituem a revolta e a alma virou negócio barato.

O mais engraçado ou trágico é que este foi o bairro que deu ao atual presidente alguns dos melhores resultados eleitorais. Aqui houve campanha, bandeira, promessas e até vereadores. Hoje, há abandono. Os jovens olham para os outros bairros com programas camarários e atividades financiadas, enquanto Colhe Bicho serve apenas para duas coisas: votos e relatórios da polícia.

Dizem que temos partidos, mas o que perdemos foi a alma. Vendida em discursos de humildade inúteis, esquecida em cerimónias de “faz de conta”, corrompida pelas drogas que substituíram a dignidade.

As autoridades que nos lêem se é que leem devem ser lembradas disto: O Estado só aparece em Colhe Bicho quando quer votos ou quando vem de farda e arma na mão.

O bairro que outrora criou professores, atletas e líderes comunitários é o mesmo que hoje exporta jovens para as prisões.

A alma que foi motor de revolta virou estatística de crime.

Mas Colhe Bicho não é só desgraça. Ainda respira. Ainda há velhos que contam histórias de união, ainda há mães que seguram a vida com mãos de ferro e ainda há jovens que sonham, mesmo quando o Estado insiste em tratá-los como pesadelo.

A pergunta é simples: até quando o Tarrafal vai permitir que um dos seus bai
rros mais históricos seja apenas visitado em tempo de campanha? Até quando a Câmara vai fechar os olhos à degradação, fingindo que “urbanizar” é suficiente? Até quando o Estado vai usar Colhe Bicho como vitrine de pobreza para relatórios internacionais, em vez de a reconhecer como o que sempre foi — uma comunidade com dignidade, memória e voz?

Porque Colhe Bicho não nasceu com Estado. E, se for preciso, também não morrerá com ele.


 


Em Cabo Verde, as reformas chegam sempre de gravata: falam bonito, sorriem para a fotografia e deixam a conta para o fim do mês. A mais recente chama-se PCFR do Pessoal Docente e vem com estatuto, anexos, mapas, tabelas e promessas de dignidade: a Assembleia aprovou, o Presidente promulgou e o Boletim Oficial carimbou. A lei existe, é nova e está em vigor. BOE

O que muda mesmo (com números à vista)

• Licenciados entram no GEF-5 (Nível I) a 91.000$00. A tabela transitória mostra, preto no branco, a linha “GEF 5”: 91.000 → 96.000 → 101.000 → 106.000 → … → 136.000. Cada mudança de nível vale +5.000$00. É a escada horizontal do professor cabo-verdiano. BOE

• O “salto de 2.000” morreu. O governo confirmou: no GEF-5 o incremento passou de 2.000 para 5.000$00, e o topo chega a 136.000$00. Não é poesia; é orçamento. Ministério de Educação

• A tabela transitória produz efeitos desde 1 de janeiro de 2025. Não é retrospetiva filosófica; é data legal. BOE

Tradução para quem vive com giz nas mãos: quem estava a 78.000 com licenciatura salta para 91.000 (nível I); com 5 anos de serviço tem estofo e créditos para estar tipicamente nos 96.000 (nível II); com 10 anos, 101.000 (nível III); com 15 anos, 106.000 (nível IV). É a mesma lógica da tabela, passo a passo de 5.000 em 5.000—sem truques. BOE

Mestres e doutores: menos pedestal, mais velocidade

O PCFR foi honesto (pela metade certa): a porta de entrada é a licenciatura; mestrado e doutoramento já não valem “ingresso especial”. Em vez disso, a lei dá bónus de créditos de desempenho: +210 pontos para mestrado, +280 para doutoramento—o que acelera a progressão nos níveis (logo, o salário). Em português simples: não entram mais alto, sobem mais depressa. BOE

Por isso é que muitos mestres que recebiam 91.000 no regime antigo veem-se agora posicionados acima (p. ex., 106.000), porque a linha de base do licenciado encostou ao valor antigo do mestre e os créditos empurram a carreira para o nível seguinte. É menos glamour e mais mecânica de tabela—mas paga contas. (O Governo e a imprensa oficial repetiram: o PCFR “valoriza” e “permite evolução rápida”.) Inforpress e Governo de Cabo Verde

Primária (monodocência): tirar a dúvida do mito

Circulou por aí que os professores do 1.º ciclo tinham +10%, +20%, +30%, +40% no salário pelos 15/20/25/30 anos. Não é percentagem. A lei escreveu valores fixos de subsídio por não redução da carga horária:

10.000$ aos 15 anos, 15.000$ aos 20, 20.000$ aos 25 e 25.000$ aos 30—com impacto na pensão se recebidos nos últimos dois anos. Nada de percentagens mágicas, tudo com vírgula e carimbo. BOE

Quem fica fora do GEF-5?

A regra é clara (e dura): só quem tem licenciatura ou superior é enquadrado no GEF-5. O restante subsiste nos cargos e evolui por outras vias. Está dito e repetido pelo próprio Ministério. Os que não têm licenciatura assim que completarem passarão para o GEF 5 , nível I. Reclassificação automática. Por isso, eu aqui nas alturas de mnte gracisa, apelo os professores a estudarem e darão com mão no peito com orgulho para konkor o pó das humilhaçoes. 

Transição e listas: a burocracia também tem calendário

O Boletim Oficial já publicou listas de transição e enquadramento, fechando a dança dos nomes que andou meses em “provisórios” e Facebooks. Quem precisava de ver o seu lugar no tabuleiro, já o pode ver sem boatos. Governo de Cabo Verde

E a crónica, então?

A nova grelha tem qualquer coisa de anúncio de telemóvel: promete rede, velocidade e minutos ilimitados, mas obriga a ler as letras pequenas. A letra pequena aqui diz isto: o patamar de dignidade mínima subiu para 91.000$00; quem estudou mais não entra por cima, mas chega ao topo mais cedo; e os professores do 1.º ciclo ganharam, finalmente, um subsídio que reconhece a heroicidade de dar tudo a uma turma inteira, sem descontos na carga horária.

Se é suficiente? Num país que se habituou a chamar “pendência” a tudo o que devia ter sido resolvido ontem, talvez o PCFR seja menos um final feliz e mais um princípio decente. A boa notícia é que, desta vez, a poesia bate certo com a aritmética: GEF-5 começa em 91.000, sobe de 5.000 em 5.000 e termina em 136.000. O resto é trabalho—e vontade política para que os créditos de desempenho não virem só carimbo e formulário.

Enquanto isso, a escola prossegue: giz, caderno, quadra de bola, poeira. E um país inteiro a descobrir, a muito custo, que a educação não é despesa: é o único investimento que rende léguas de futuro.

 

 

Fontes requisitados para este trabalho:

SIPROFIS

— Lei n.º 46/X/2025 (PCFR do Pessoal Docente) publicada no BO: aprovação, vigência e estatuto. BOE

— Tabela de Remuneração Transitória (GEF-5: 91.000→…→136.000; incremento 5.000). BOE

— Efeitos a partir de 1/1/2025. BOE

— Incremento no GEF-5 de 2.000 para 5.000 e teto de 136.000 (informação oficial). Ministério de Educação

— Bónus de créditos: +210 (mestrado) e +280 (doutoramento). BOE

— Subsídio de monodocência (10k/15k/20k/25k) e impacto na pensão. BOE

— Critério GEF-5 reservado a licenciados; comunicação do Ministério. Facebook

— Listas de transição publicadas oficialmente. Governo de Cabo Verde.

 

Celso Ribeiro

Ele está ali, erguido atrás do vidro frio do púlpito, como se fosse uma vitrine que denuncia as raivas e ameaças por vir depois do discurso. O fato azul bem passado não disfarça as rugas da história, nem o nó da gravata verde limão consegue dar um ar de primavera a este inverno cerimonial na Casa Parlamentar, num país que se engalana para festejar meio século de independência, ergueu-se uma voz diferente, não para atirar confetes ao passado, mas para sacudi-los do tapete onde os escondemos com tanto zelo. Celso Ribeiro, deputado do MpD, não se limitou a debitar o catálogo habitual de frases em saldo para as câmaras. Não veio vender slogans empacotados em celofane patriótico. Preferiu entregar-se ao sublime incómodo de quem, num momento solene, ousa dizer a verdade, aquela que não cabe em brochuras turísticas nem em discursos de ocasião.

Eric Hobsbawm lembrava que a história é o que dói recordar. José Mattoso, historiador de profissão, mas moralista por vocação, advertia que o maior dever de quem estuda o passado é dar voz ao silêncio. Celso Ribeiro não é historiador, naquele dia, fez-se historiador improvisado no Parlamento. Recusou a anestesia oficial que transforma memória em narcótico.  Porque celebrar não é esquecer. Cinquenta anos de independência não são propriedade privada de um partido, de uma geração, nem de certos guardiões autoproclamados da narrativa. Não são matéria para fanfarra amnésica, nem para redacções de quarta classe, diria aquele humorista conhecido que tanto preza a pontaria do sarcasmo.

Os donos do “não estraguem a festa”! Esses têm comichão só de ouvir falar no partido único, nas prisões arbitrárias no Tarrafal, na mordaça à imprensa, nos exílios forçados. São os mesmos que murmuram, com ar de padres em confissão, que “não é o momento”, como se a verdade histórica precisasse de pedir licença, marcar consulta, trazer atestado médico para se apresentar em público.

Celso Ribeiro recusou esse conforto almofadado. Disse, sem floreados: «O momento é agora.» Porque meio século depois não se pode aclamar a liberdade sem lembrar que ela foi sequestrada. Não se pode bater palmas à democracia sem lembrar que ela não veio embrulhada de fábrica no pacote da independência. Teve de ser arrancada à força, e só chegou quinze anos depois. Foi um murro na mesa. Mas um murro civilizado, no melhor estilo de Natalie Zemon Davis, que dizia que contar histórias incómodas não serve para dividir, mas para reconciliar.

E não foi só retórica: Ribeiro abriu a caixa de verdades mal arquivadas. Lembrou a proibição da manifestação da UPICV em Novembro de 1974. O assalto à Rádio Barlavento em Dezembro. As deportações para o Tarrafal, não o colonial, mas o do próprio Estado cabo-verdiano, que enviava para lá irmãos sem culpa formada.

Não são boatos. São factos. Datas. Arquivos. Testemunhos. Coisas que não aparecem em folhetos partidários impressos à pressa, mas se encontram em relatórios diplomáticos portugueses guardados no Arquivo Histórico de Cabo Verde e no Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa, esses locais que alguns fingem que não existem, na vã esperança de que os papéis, por serem velhos, se autodestruam por vergonha. Para os negacionistas de serviço, sempre tão ofendidos com a menção do crime, mas raramente com o crime em si Celso Ribeiro foi cristalino: «Falar disso não é dividir o país. É libertá-lo de uma mentira cómoda.»

E.P. Thompson escreveu que a História é o protesto dos vencidos contra o silêncio dos vencedores. Nesse dia, Ribeiro encarnou esse protesto com serena ferocidade. Lembrou-nos que falar não é trair os heróis da independência, é honrar os que foram silenciados para que outros falassem em nome de todos. Há quem chame a isso “revanchismo”, como se a memória fosse um ato de vingança, não de justiça. Mas revanchismo é quando se usa a História como arma para humilhar. O que Ribeiro pediu foi o contrário: um gesto de reconciliação. Um ato simples, mas, estranhamente, impossível até hoje, de pedir desculpas. Um reconhecimento público das vítimas. Uma reparação simbólica capaz de sarar uma ferida que continua a latejar no presente.

Foi o que poucos políticos ousam fazer: roubou a festa dos foguetes fáceis para devolvê-la ao povo. Não transformou a independência num bibelô para veneração passiva, mas num convite vivo à democracia, não como fórmula mágica ou fetiche institucional, mas como cultura. Como hábito. Como exercício permanente de memória.

Carlo Ginzburg, que tanto apreciava farejar rastos nos silêncios, dizia que o historiador não é apenas quem regista os factos, mas quem interroga o silêncio. Celso Ribeiro, naquele dia, interpelou o silêncio oficial. E a resposta, aquela cara de quem comeu e não gostou, foi um desconforto merecido. Reparação não é vingança. É higiene moral. Porque, sejamos francos, festa sem memória é ressaca anunciada.

Ele enfrentou os oportunistas da amnésia, esses que berram “chega de falar nisso!”, os moralistas de ocasião que gostam de cozinhar a História “a gosto”, como se fosse receita gourmet para banquete do poder. Esquecem que a História não é cozinha: não se escolhem ingredientes conforme o paladar dos comensais. A verdade é indigesta para alguns. Mas, como dizia Hobsbawm, “a História não existe para nos tranquilizar.”

Celso Ribeiro fez um discurso para adultos. Para um Cabo Verde que resista à tentação de se infantilizar com mitos convenientes. E é bom lembrar, mesmo que arrisque azedar o buffet, que há quem aspire a Primeiro-Ministro e, com ar de estadista de taberna, defenda a reabilitação de velhos milicianos com currículo de intimidação. Para quem entende que celebrar é, antes de tudo, não esquecer. Porque, e aqui vale lembrar Galeano, “a história nunca diz adeus. Diz até logo.”

Ele lembrou-nos, sem rodeios nem floreados, que não há independência sem liberdade. E que liberdade só merece o nome quando é para todos, até para quem discorda, até para quem insiste em lembrar. Porque liberdade que exclui o incómodo é apenas outra forma de domesticação.

Se a política cabo-verdiana quiser guardar algo deste discurso, no meio dos papéis, protocolos e selfies comemorativos, que seja isto: celebrar 50 anos não é fechar um livro e colocá-lo num altar para veneração passiva. É ter coragem de o reler. Página por página. Mesmo, ou sobretudo, as que doem. Porque só assim se constrói um país adulto.

Um país capaz de se olhar ao espelho sem pestanejar. Capaz de reconhecer as cicatrizes sem tentar escondê-las com pó de arroz patriótico. Capaz de se reconciliar consigo mesmo, não porque esqueceu, mas porque se lembrou.

Como diria Eric Hobsbawm, a História não serve para nos embalar, mas para nos acordar. E se quisermos, de facto, honrar este meio século de independência, talvez devêssemos aceitar o convite implícito nestas palavras, o convite para sermos um país adulto, um país inteiro, um país que saiba que recordar não é azedar a festa, mas garantir que ela faça sentido.

 



Abraão Vicente

Abraão Vicente talvez seja, neste momento da história de Cabo Verde, o homem mais lúcido e contraditório que o país produziu. E por isso mesmo, mais necessário. É difícil classificá-lo, mais ainda ignorá-lo. O seu nome vibra entre corredores de ministérios, paredes de bibliotecas, murais de exposições e palcos improvisados onde se lê poesia à sombra da brisa do mar. Há nele uma inquietação trazida de piku sor do mundu, como se as vozes de Assomada, onde nasceu, ainda lhe batessem no peito como um tambor de chamada permanente.

É poeta e político, dois ofícios que, em quase todas as geografias, se anulam mutuamente. Mas não em Abraão. A sua poesia pulsa na política e a sua política respira versos, com todas as contradições e virtudes que isso acarreta. Ele não é homem de trincheira: é homem de fronteira. Onde a esquerda da sua infância ideológica dava as mãos à nostalgia, ele preferiu virar à direita, mas uma direita com leitura, com arte, com insónia e ética. A família, supõe-se, tremeu com a escolha. Mas Cabo Verde ganhou um estranho caso de coragem intelectual.

Abraão Vicente é, acima de tudo, alguém que não se cala. E se fala, é porque pensa, o que já é dizer muito num tempo onde os discursos políticos são feitos para encher calendários e fingir ação. Ele não finge. Nem na literatura, nem na gestão, nem na vida pessoal. Homem de família, protetor, cristão e conservador em muitas coisas, é também um dos rostos mais duros da política cultural do arquipélago. Há quem o tema, há quem o admire. Mas ninguém lhe passa ao lado. Ele aparece onde não se espera, diz o que outros temem. Quando o mar político se agita, ele não rema para trás. Muda a vela.

O jovem que começou como jornalista e artista plástico foi entendendo cedo que o país precisava mais de pontes do que de retratos. Não que tenha deixado de pintar, pintou a cultura cabo-verdiana com políticas estruturantes, com programas de acesso, com academias de arte que nasceram do nada, como quem ergue um poema em pedra. Como ministro da Cultura e do Mar, cargos que mais parecem metáforas do que pastas ministeriais, fez o que poucos fazem: ouviu os artistas, os pescadores, os marginalizados do progresso, os órfãos da modernidade, e com isso redesenhou estratégias de futuro.

É por isso que ele é tão difícil de seguir e tão fácil de escutar. Porque há coerência na sua mudança, lógica na sua rotura. É como se vivesse permanentemente num estado de criação. Ao invés de deitar a toalha ao chão, ele transforma a toalha em manifesto. Desafia o sistema sem destruir a ordem. Questiona a cultura sem trair a tradição. E talvez por isso não caiba bem nos rótulos políticos fáceis. Porque ele pensa, e pior ainda: pensa alto. e neste momento esta a prestar um grande esclarecimento ao país que parece querer correr para um passado desabonatório, é que o fácil normalmente sai caro. 

Quando aceitou ser Ministro do Mar, muitos torceram o nariz. Mas foi no mar que mostrou o que é governo com profundidade. Enquanto outros se perdiam em reuniões de protocolo, ele tratava de cais, de pesca, de política azul, de internacionalização da costa cabo-verdiana. E quando voltou ao Parlamento, depois de ter perdido as autárquicas da Praia, fê-lo com a mesma dignidade com que um poeta se ergue após o silêncio, sem rancor, sem espetáculo, apenas com o desejo teimoso de continuar.

A sua obra literária, embora menos visível nos jornais do dia, é das mais sinceras da sua geração. Escreveu cartas improváveis à ex. mulher amada, publicou poesia de labirintos íntimos, fez literatura como quem sopra brasas para manter a alma quente num país que às vezes esquece os seus. “Amar sem medo” é o seu livro mais revelador: não é só sobre amor, é sobre convicção. Abraão escreve como vive: sem pedir licença. E governa como escreve: sem perder a lucidez do espanto.

Ele é um daqueles raros exemplos de homem público que não trai o artista que carrega dentro. E talvez por isso, seja também dos poucos políticos que não se deixam vencer pelo cansaço. Porque há sempre mais uma ideia a propor, mais uma lei a questionar, mais um poema a semear em terra de cinismo. É essa resiliência, essa capacidade de sonhar como um menino e trabalhar como um velho sábio, que o faz único.

Cabo Verde precisa de gente que acenda a luz sem apagar as estrelas. Abraão Vicente é isso: uma estrela crítica que prefere criar a repetir. E enquanto viver, há de continuar a escrever este país como quem escreve um poema, com raiva, com ternura, com método, com liberdade.
E sem medo de ser, simultaneamente, poeta e ex ministro, filho da esquerda e voz da direita, artista e gestor, navegante e porto.
Homem, simplesmente. Mas um homem inteiro.

 



Como antes já tinha escrito há algum tempo, o Tarrafal tem aquele charme de cidade, antes vila, onde até as pedras sabem demais, mas são caluda, há demasiado tempo. Cada beco conhece um segredo, cada praça e banco bem identificado tem um palanque (in)visível e cada estrada sabe o que é ser prometida, adiada, esquecida, relembrada, e depois adormecida num despacho qualquer.

Estamos a viver tempos onde a política se faz como se faz o funaná talvez até umas sangazuzas em casamentos: com um passo à frente, dois para o lado e muitos tropeços que ninguém quer assumir. A diferença é que o funaná é honesto e sangazuza é uma espécie zanga. Já os discursos…

A verdade é simples: criámos um exército. Não um com botas e fuzis com vontade de disparar o fim da alegria, que esses, coitados, só marcham em desfiles, mas um batalhão de comentadores da rede, repetidores de verdades recicladas, clones políticos com microfone nos dedos e slogan nos dentes bem ensaiados e repetidos em algum comité central nos gabinetes municipais.

São os “copistas da verdade paralela”: gente que repete até acreditar. Mentiras? Só até à segunda-feira. Na terça já são dogmas.

Este exército repete que "eles" — a oposição — são os maus, e "nós" — os novíssimos salvadores de calça engomadae perfumados com cheiros vindos da novíssima loja da primark da capital, é que somos os bons. O velho enredo da telenovela do poder. Entretanto, as obras?


— A estádio de raiz e polidesportivos reabilitados já tem mais idas e voltas que o Tarrafalense num campeonato distrital ou campeonato de takada.

— A rua pedonal, no futuro terá o seu impacto esperado a Santa Engrácia dos nosso tempos , esperado há cinco anos? Está em obras há tanto tempo que já devia pedir bilhete de identidade.

E claro, enquanto se adiam aumentos salariais por “falta de verba”, há sempre verba para mais uma viaturazinha com ar condicionado. Duas, três… Sete mil contos, ainda se ouve a frase mágica: “Foi tudo dentro da legalidade.” Legalidade, neste contexto, é só o nome simpático que se dá àquilo que se faz porque pode, mesmo que não se deva.

Lembro, a título de crónica e não de ofensa, que o Presidente da Câmara Municipal, que tem dias de Sócrates e outros de coach motivacional, reapareceu recentemente para largar umas pérolas discursivas com mais raiva que razão. Está no vídeo. Circula. Ganha views. E é ali, naquele momento, que percebemos que a raiva também é um plano de comunicação.

Mas o mais poético, se me permitem usar essa palavra num texto sobre política local, é que ele próprio, no seu primeiro mandato, prometeu uma auditoria à Câmara. Palavra de honra! Prometeu com a convicção de quem jura que segunda-feira vai ao ginásio. Nunca mais se ouviu falar da tal auditoria. Talvez esteja guardada numa gaveta com as medalhas do tempo de juventude.

Enquanto isso, as sessões da Assembleia transformaram-se num misto de novela mexicana e “stand-up” com má dicção. Quem discorda é acusado de estar “contra o desenvolvimento” contra o sôr presidente. Como se pensar fosse traição. Como se questionar fosse crime. Como se o Tarrafal fosse um aquário e nós os peixes decorativos, bonitos, silenciosos e sempre a girar em círculos.

Sim, senhor Presidente: fui um dos que reclamou. Reclamo outra vez. E volto a lembrar, com o respeito que se deve a qualquer servidor público, que o discurso de “não há dinheiro” não combina com viaturas novas, salários gordos para uns e atrasos para outros. E sobretudo, não combina com arrogância. A arrogância é o perfume dos incompetentes. E não, isto não é despeito. É cidadania. O Tarrafal não precisa de muralhas ideológicas, mas de pontes. Pontes para as zonas esquecidas, para os jovens sem futuro, para os trabalhadores que já não acreditam em nada.

E olhe que voltarei ao assunto, com mais ironia se for preciso, com mais poesia se for justo. Porque amar uma terra não é bater palmas. É bater o pé. E fazer barulho quando ela está a ser maltratada. E fiz no passado e volto a fazer, é a minha maldição e faça questão que ela seja assim.

 






Era madrugada no Porto, e a cidade respirava como um animal cansado.
Os becos de granito, molhados da última chuva, guardavam segredos sussurrados entre paredes sujas de musgo. Havia no ar um cheiro acre, de velhas promessas quebradas — e de sangue.

As pontes sobre o Douro eram cicatrizes abertas. A Ribeira dormia, mas não sonhava. No topo da Sé, as gárgulas pareciam cochichar conspirações antigas.

O narrador — um homem que já não tinha nome — caminhava pelas ruas, vendo tudo com olhos de quem sabe demais. Observava os prédios com varandas de ferro forjado, os azulejos partidos como dentes de um velho doente.

Escutava a cidade chorar:

“Estou cansada. Meus filhos matam por moedas. Meus velhos morrem sozinhos. Os amantes não se tocam mais. As igrejas estão cheias de silêncio.”

Ele via os grafites nos muros: "acorda", "somos poucos", "falta pão". As letras eram feridas abertas.

No Mercado do Bolhão, fechado àquela hora, pairava o cheiro de frutas podres e sangue de peixe. Tudo misturado. Um aviso.

Perto do rio, um mendigo acendia um cigarro com mãos trêmulas, repetindo em voz baixa:

— Vem aí o fim. O fim.

O narrador se ajoelhou diante dele e pediu:

— Diz-me como será.

O velho cuspiu no chão e falou sem olhar:

— Vai acabar assim como começou. Devagar. Depois de mil avisos. Vai arder em promessas quebradas. Vai apodrecer com discursos bonitos. Vai morrer sufocada no próprio lixo.

Mas do outro lado...

O homem silenciou.

— Do outro lado? — insistiu o narrador.

— Há uma cidade nova. Feita de gente que se ama. Sem grades. Sem fome. Sem mentira. Mas só quem morrer de si mesmo chega lá.

O narrador chorou.

As gaivotas gritavam no escuro como profetas desordenados.

Nas torres das igrejas, os sinos batiam as horas sem saber se avisavam o fim ou o começo.

E o narrador se levantou, secou as lágrimas e continuou a andar.

Porque a cidade não ia acordar sozinha.

II

O narrador desceu até a marginal, onde o rio corria como um veneno lento. A água refletia as luzes dos postes, transformando-as em serpentes líquidas.

No cais, encontrou um grupo reunido em torno de uma fogueira improvisada. Homens e mulheres de rostos cavados, vestidos em farrapos, segurando garrafas como relíquias sagradas.

Um deles falava alto — a voz rouca, mas convicta:

— Isto aqui é Sodoma! Lisboa come o que sobra do Porto, e o Porto come os filhos dele mesmo! Vendemos a alma por um subsídio, matamos por migalhas!

O fogo iluminava seus olhos como brasas.

— Ou vocês acham que alguém nos vem salvar? Quem? O governo? A Igreja? A Europa? Eles contam o nosso fim em tabelas do Excel!

Um dos ouvintes tentou rir, mas tossiu sangue.

O narrador avançou devagar. Sentiu o calor do fogo. O orador virou-se para ele:

— Tu aí! Vê alguma salvação nesta cidade?

O narrador respirou fundo. Olhou para as chamas, que tremiam como almas condenadas.

— Vejo morte, mas também parto. Vejo podridão, mas adubo para algo novo.

O grupo silenciou. O orador cuspiu no chão.

— Poeta, és? Vai rimar para os políticos!

— Não. — disse o narrador — Eu vim ouvir. Vim aprender.

O orador sentou-se, cansado de si mesmo. A fogueira estalava.

— Então ouve, poeta. Nós somos os profetas deste abismo. E a profecia é esta: tudo vai ruir. Os prédios vão cair. As pontes vão afundar. A água vai envenenar os peixes. E o último a sair apaga a luz.

O narrador fechou os olhos.

— E depois? — perguntou baixinho.

Ninguém respondeu.

Ele ouviu apenas o som do rio.

Mas em algum lugar, muito longe, pareceu-lhe ouvir uma criança cantar.

Uma voz pura, impossível, como se a cidade ainda guardasse um futuro em seu ventre.

E o narrador se levantou. Limpou a poeira das calças.

— Vou procurá-la.

O orador ergueu o queixo.

— Procurar o quê?

— Essa voz. Essa criança.

Os outros riram. Mas o narrador já não os ouvia.

Virou as costas para a fogueira e caminhou para o coração escuro do Porto.

As pedras frias pareciam vibrar sob seus pés como um coração cansado — mas vivo.

E ele continuou.

III

O narrador atravessou o centro da cidade como quem atravessa o tempo.

Passou pela Rua das Flores, onde flores não nasciam mais. Viu turistas bêbados tropeçando sobre moradores de rua invisíveis. Viu fachadas restauradas como máscaras num rosto doente.

A cada passo, sentia o Porto falar consigo:

— Eu era orgulho. Sou miséria pintada de cor viva.

Ele apertou o passo. Procurava a voz. A voz de criança que tinha ouvido — ou sonhado — junto ao rio.

Na Batalha, encontrou velhas prostitutas reunidas como aves molhadas. Uma cantava fado entre dentes podres.

— Já viste criança por aqui? — perguntou.

Elas riram sem alegria. Uma fez o sinal da cruz.

— Crianças? Foram levadas. Vendidas ou mortas de fome. Vai procurar noutra cidade.

Ele insistiu:

— Mas eu ouvi uma.

— Tu ouviste o diabo a rir. Vai-te embora.

Ele deixou algumas moedas. Seguiu.

Na Rua de Santa Catarina, tudo era vitrines e mendigos. Passou ao lado de um cartaz dizendo "Porto: Capital da Cultura".

Cuspiram-lhe nos sapatos. Ele não reagiu.

O narrador caminhava como quem sangra por dentro. Mas não parava. Porque ouvira algo puro. Algo impossível.

E mesmo quando os pés doíam, mesmo quando o coração se enchia de desespero, ele repetia para si mesmo:

— Eu ouvi. Eu sei que ouvi.

IV 

Quando chegou à Sé, já era madrugada tardia. O vento varria as escadas, gemendo como um velho exorcizado.

Ele subiu os degraus um a um, arrastando-se.

No topo, parou.

E lá, em frente ao portal negro e maciço, estava a criança.

Pequena, magra, suja de lama. Tinha os olhos grandes como promessas.

Ela cantava. Baixinho. Uma melodia sem letra, sem língua.

O narrador caiu de joelhos. Chorou com o rosto entre as mãos.

— És real?

A criança calou-se. Aproximou-se. Encostou-lhe a mão gelada no rosto.

— Por que cantas? — sussurrou ele.

Ela respondeu sem mexer os lábios:

— Para lembrar que ainda posso nascer.

— Nascer onde? Numa cidade morta?

Ela sorriu. Um sorriso tão antigo quanto a pedra da Sé.

— Num homem vivo.

Ele entendeu. Num clarão de dor e beleza.

Sentiu o corpo queimar por dentro, como se todos os pecados da cidade pesassem nele. As traições, as mortes, os silêncios.

Gritou. Um grito que ecoou pelas pedras, pelos telhados, pelo rio.

As gaivotas levantaram voo em pânico.

As pessoas nas ruas se encolheram, cruzaram-se, rezaram.

E quando o silêncio voltou, ele estava só.

A criança tinha sumido.

Mas em seu peito havia algo novo. Uma chama. Pequena, frágil, mas viva.

Levantou-se. Respirou fundo.

— Porto. Ainda tens salvação.

E começou a descer as escadas.

Atrás dele, muito longe, os sinos tocaram. Não um réquiem.

Mas um nascimento.


Mário Loff








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