Halloween party ideas 2015

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Ainda me lembro do meu pai dizendo à minha mãe:

 - Sua depravada e desgraçada.

E a minha mãe respondendo:

- Seu mal-amado desgraçado, e eles, os dois, diziam um ao outro ao mesmo tempo:

 - Mas amamos na desgraça e na graça.

Neles, concluí que amor é isso mesmo, uma desgraça com a cara de graça à frente de uma felicidade momentânea. Eu hoje não estou aqui, e vou contar a razão.

Já que não queres colaborar connosco, toma este cálice e beba o conteúdo que está aí dentro. Tremia a senhora que acabávamos de sequestrar. Pelo cheiro do perfume, dava a sensação de que era uma daquelas mulheres que aparecem na TV às nove horas da manhã ensinando as senhoras lá de casa a se comportarem na sociedade, a aprenderem a se apresentar, ficam enchendo a cabeça das nossas senhoras de ideias e depois vêm com aquela coisa de VBG perante nós os machos. Fico imaginando a minha mãe, que passa mais tempo no campo do que em casa, a deixar as suas lidas para aprender a usar um tacão alto, a aprender a botar um batom, a frequentar butiques, ou, então, a consultar o horóscopo e a ir ao centro comercial às sete da noite.

A nossa vítima aparenta ter cerca de quarenta a cinquenta anos de idade, fina e linda, isso tenho que admitir, muito bem vestida, ouro puro nas orelhas, a bolsa de mão que ela usava, via-se pelo produto do fabrico que é sublime, possui um fecho banhado a ouro. Limpamos os dedos, o pescoço, as orelhas e nos apoderamos de tudo.

Na bolsa, estavam alguns produtos de beleza, também estava um desses últimos telemóveis que saiu e que todos os copos de leite da cidade recebem dos seus pais e eu só olho pela TV, ou quando dou um caço bode com os meus camaradas, não é que esteja reivindicando que devia ter essas coisas de mão beijada, mas é que pessoas como eu e o Ak Bera, não temos muitas oportunidades de as ter honestamente.

O Ak Bera é o meu mano. Crescemos juntos, desde que tínhamos dois anos de idade, no meu bairro Tinta de Abrigo, já fizemos tudo o que é possível um bandido fazer, até para a cadeia já fomos juntos, não vivemos separados um do outro, a minha mulher também é amiga da mulher dele, convivem maravilhosamente bem, quando mulheres se dão bem, só pode ser onde não impera a ordem e a lei, e, neste caso, impera a lei dos bandidos, e as mulheres têm este poder de amar os seus homens mesmo estando em perigo de vida. A mulher do bandido ama no desamor, e, no perigo, que tem o amor. 

Quando um não tem, se ajusta ao outro, como disse o intelectual lá do bairro, ajustamos as nossas pobrezas, e isso só acontece com pessoas que já bateram de frente com a cara da pobreza, mas eu, às vezes, ficava a pensar na vida que eu levava assim como o Ak Bera. Dava-me vontade de desistir de tudo e arranjar um trabalho, e voltar a escrever os meus poemas e contos. 

Gostava muito de ler e de escrever, e o meu sonho acabou no dia em que participei num concurso. Fiz tanto esforço para sair vencedor e, no fim, nem apareceu o meu nome na lista final dos participantes. 

O concurso era para escrever um conto sobre os nossos bairros, baseado num livro que cada um de nos tinha lido. É mais ou menos nesta linha. O meu conto era sobre os problemas que os jovens da minha geração sofriam e ainda sofrem, só que eu fazia parte daquilo, eu pratico tudo o que tinha escrito. Fui tão contente e confiante, tinha o livro quase decorado, o livro de Bram Stoker com o título “Drácula”, sempre gostei dessas coisas assustadoras e de suspense, talvez justificasse a tragédia que é a minha vida.

No fundo o meu bairro, precisa de um Vam Helsinki contra os sugadores da alma, o Drácula do meu bairro é a cocaína, a pedra e a bala que matam muito dos meus manos e os meus colegas de infância, e perguntava sempre a mim mesmo se amanhã não seria eu ou Ak Bera. O maior Drácula que habitava dentro de mim era o medo de largar tudo e depois sofrer as retaliações de outros grupos, esse era o meu medo, enquanto eu praticava aqueles atos, estava tudo bem, porque contribuía para o sistema, e temos os dedos apontados uns aos outros e ficava tudo bem.

Lia tantos livros que não me serviram de nada. Até já li o Dante, aquele grande livro por partes. A parte de que mais gostei foi a da chegada ao inferno, assim como o livro de Blake com o seu matrimónio de céu e do inferno, já faz tanto tempo que de tão poucas coisas que aquele livro diz me lembro, pelo menos ele não tinha medo de tocar nas coisas sagradas, e ele disse: “todas as bíblias ou códigos sagrados foram as causas dos seguintes erros. Que o homem tem dois princípios existentes e reais a saber: o mal e o bem, todos eles estão na alma e no corpo do homem. O Bem é para o bem, o mal e o bem estão intimamente juntos e só sabem provocar guerra e paz, e um não vive sem o outro, é como a religião e o seu apego aos bens materiais, cada vez que a negam, mais em quantidade conseguem, através das guerras entre povos e nações, nisso valeu a pena ter lido aquele livro que tem o título …. Agora não me lembro … ahn, a viagem de Theo, um bom livro que explica de forma simples a origem de todas as religiões. Bom, pelo menos aqui na minha terra, nós não fundamos nada até hoje. Nada. Aliás, nós mesmos fomos criados, somos típicos crioulos. 

Enquanto permanecia sentado a fumar e a pensar na vida e naquela minha vidinha passada, o Ak Bera chamou-me.

-Lil Notxi, afinal o que vamos fazer com a madame? Ela não quer beber o conteúdo!

Levantei-me e me aproximei da cadeira onde estava sentada a senhora. Ela estava tão cheirosa, que me fez lembrar da miss perfumada da música de Cesária Évora, “perfumadas são um perigo”. Dava vontade de estar ali curtindo aquele aroma e o seu corpo, mas não gosto da carne das madames da alta sociedade, mas aquela era diferente até no modo de se comportar.

Apanhei o copo e voltei a entregá-lo a senhora para beber o conteúdo devagarinho e sem pestanejar, já tinha passado tanto tempo, já estava quase a amanhecer e foi à meia-noite de sábado, que amanheceu domingo, quando sequestramos aquela senhora. 

Nós a detivemos na saída de um jantar beneficente num dos bairros ricos da cidade da Praia, ela e o seu carro, com a nossa arma de brinquedo pintado de preto brilhante, produzíamos a impressão de ser verdadeira até para um policial frouxo.

-Quem são vocês? – perguntou-nos a senhora.

-Afinal, “ela” fala, disse Ak Bera. Aquela senhora era diferente de todas as vítimas que tínhamos sequestrado, calma e de olhar sereno. A sua calma dava a sensação de que tinha algum trunfo contra nós, e eu não tenho o hábito de me assustar com as pessoas, é que já tinha lido num livro que disse “todos os seres humanos são infinitamente sociáveis, mas odeiam o seu semelhante”, por isso nenhum ser humano me assusta.

- Por que não me contam sobre as suas vidas e vos arranjarei a forma de serem melhores do que isso? – Perguntou-lhes a mulher. 

Continuou ela a falar com toda a altivez de quem está por cima, e nós por baixo, feito lixo. A forma como ela falava dava esta sensação, em cada palavra que ela tirava da sua boca, soava a desprezo. O que me irritava era a pena que ela sentia de nós. Mesmo presa podia sentir pena de nós, isso fez-me sentir inútil e uma barata sarnenta, mesmo sabendo que leio e sou um pouquinho preparado, mas ela me superou com aquele comportamento. Cheguei mais perto dela.

-Olha, desde que te sequestramos, estamos sendo muito brandos com a senhora, afinal quem é? - disse com raiva e tirei a arma com fúria, apertei a caneca contra a sua boca, obrigando-a a beber o conteúdo. A presença do conteúdo era mais para assustar.

- Bebe, porra, bandida de merda. Sabes o que tem nesta caneca? É veneno, não queremos acabar contigo com a arma de fogo, só queremos que tenhas uma morte serena, beba, desgraçada. 

Este meu comportamento amedrontou-a.

-Por favor, digam-me o que precisam e vão sair vivos daqui! 

Já amanheceu e o barulho dos carros já se sentia na rua, e os rádios de alguns comércios vizinhos já estavam a relatar que desaparecera a primeira-dama sem deixar rastro; logo concluí que tínhamos sequestrado a primeira-dama; desta vez não iriamos sair vivos daquela acção.

-Já vos tinha avisado para me libertarem e ficaria tudo bem - disse a primeira-dama. 

Ak Bera sentiu-se incomodado com a dimensão que o caso tomava e me convenceu a libertar a senhora. Porém, neguei e Ak Bera fugiu sozinho. Não ouvi a porta bater quando ele saiu.

-Senhora primeira-dama, eu morava lá fora. O tratamento que vocês daqui de “dentro”, sim, vocês da cidade dão às pessoas do interior é muito ruim. Eu sou natural do Tarrafal, vim para Praia com sete anos de idade, sou o décimo quinto  filho de vinte e dois irmão e irmãs. A calça que vestia tinha que trazer logo antes da uma da tarde para o meu outro irmão vestir para poder ir assistir às aulas. A minha bolsa de saco servia para comprar pão e para eu e o meu irmão levarmos à escola. Já houve dias em que fui despido na frente dos meus colegas por ter roubado uma calça do puto do meu vizinho. Ele tinha tantas e a que eu tinha roubado era uma calça dele que estava rasgada na coxa, e logo pensei que seria inútil. Na sala de aula, eu era um bom aluno, mas a professora não me via como criança, só olhava a representação do lixo e da porquidão, porque ia à escola mal lavado, por vezes sem sapato, cabelos mal penteados,  dentes amarelados, e gostava da filha dela. Só pelo olhar dela se percebia que ela me assassinou milhares de vezes com o ódio que saía dos seus olhos. Eu era criança, não dava conta disso, mas hoje sinto uma revolta quando me lembro daquilo, sinto uma mágoa e um grande vazio, porque não a culpo e não lhes acho culpados. Já fui preso várias vezes em São Martinho, e a maioria dos jovens como eu já passaram por instituições de caridade deste país e concluo que, às vezes, nada acontece, e, quando acontece creem que sabem de tudo sobre a vida das pessoas. Senhora, a pior humilhação que sofri foi quando eu era criança. Eu me preparei para um concurso literário e o meu nome nem na lista final saiu, eu amava a literatura, nela eu aprendi a guardar as minhas raivas e frustrações que as pessoas como a senhora provocam de forma involuntária. Às vezes, acho que os meus pais me tinham enviado para este mundo sem querer, e hoje, então, eu vou morrer – disse ele decidido.

-Achas que matando-me te salvas? Então, eu vou beber o veneno - disse a primeira-dama encarando-me comovida com a minha história que nunca tinha pensado em contar a alguém, e ela bebeu o veneno. 

-Antes de morrer, queria-te contar uma coisa. Sempre desejei deitar ao lado de um bandido só para sentir se existe alguma adrenalina, só para sentir a segurança que as vossas esposas sentem, queria sentir o ao contrário de fato e gravato e dos pareceres que vos produzem aos milhares. Às vezes, vocês também nos produzem, e pensamos que somos deuses.

Ela fez-me sinal para a desamarrá-la, aproximei-me dela, e a desamarrei. Agarrou-me pela mão, levou-me para um canto da casa que tinha um papelão estendido e se estendeu, pediu-me para se aproximar e deitei ao lado dela e ela pós a cabeça no meu peito enquanto esperava a morte por envenenamento, senti que ela queria morrer em nome de todas as senhoras da sociedade que pensam que em baixo não tem a pobreza e este é o outro mundo que eles desconhecem.

Disse para ela:

-Senhora primeira-dama, aquilo não é veneno, não é nada, é só um sumo em dose duplicada, pelo menos vi que não se importa em morrer por se sentir culpada. Ela me tocou no rosto, levantou-se e se vestiu. 

- Gostou de deitar com a primeira-dama? perguntou-me ela.

E eu respondi-lhe:

- O que eu gostava não chegou a acontecer, mas gostei de deitar com a primeira-dama, são de carne e osso. Eu quero entrar em ti de uma outra forma e mais profundo. Dá-me essa chance? Retorqui. 

Ela olhou-me fixamente, vestiu-se com um ar de quem voltou novamente à vida e abandonou aquele local. Eu fui atrás dela e, para o meu espanto, vi Ak Bera baleado na porta, quando olhei, atingiram-me no meio da testa. Hoje, não estou aqui, a minha alma irá abandonar este mundo e o meu corpo vai ser dado à terra, sem conseguir ser escritor. Agora concluo que a morte é tão silenciosa e solitária. Morrer jovem é ser lindo eternamente.



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