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A Colónia Penal do Tarrafal, situada no lugar de Chão Bom do concelho do Tarrafal, na ilha de Santiago (Cabo Verde), foi criada pelo Governo português do Estado Novo ao abrigo do Decreto-Lei n.º 26 539, de 23 de abril de 1936. Em 18 de outubro de 1936 partiram de Lisboa os primeiros 152 detidos, entre os quais se contavam participantes do 18 de janeiro de 1934 na Marinha Grande (37) e alguns dos marinheiros que tinham participado na Revolta dos Marinheiros ocorridos a bordo de navios de guerra no Tejo em 8 de setembro daquele ano de 1936. O Campo do Tarrafal, ou Campo de Concentração do Tarrafal, como ficou conhecido, começou a funcionar em 29 de outubro de 1936, com a chegada dos primeiros prisioneiros. Na segunda fase funcionou como campo de trabalho recebendo os presos políticos africanos, entre os quais angolanos, guineenses e os cabo-verdianos. Foi encerado definitivamente em 74 como prisão e, em seis messes depois de os presos africanos terem ido embora as FARP ocuparam o Ex.campo até 1986 e depois transformado em escola primaria.

Um pequeno vídeo de uma conversa interessante retirada no perfil do Facebook de Mário Loff numa conversa com o poeta Paulo Varela a onde falam de uma forma curiosa sobre o ex-campo que poucos tinham observado. Também tem um filme completo sobre o campo com as falas dos ex-presos da segunda fase. 


No filme que se segue pode-se ouvir frases como essa.

Obrigavam-nos a cavar as nossas próprias covas…

comi quase um quarto de farelo...                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               

Localização Geográfica e seu enquadramento no espaço
Tendo como suporte uma superfície de cerca de 991 km2, Santiago constitui a maior ilha do arquipélago de Cabo Verde. É nesta ilha que o Concelho do Tarrafal encontra o seu suporte, estando na zona setentrional da mesma. Ocupa, assim, uma superfície de cerca de 121 km2, tendo, assim, uma população de cerca de 17.784 habitantes, fazendo fé no Censo de 2000. Mais de um terço deste número da população vive em Chão Bom, que conta com várias escolas primárias, uma escola secundária, alguns jardins infantis, entre eles o de Cruz Vermelha, que fica na entrada das imediações do Ex-Campo de Concentração do Tarrafal.


Chão Bom, das zonas mais populosas do Concelho do Tarrafal, continua a ser consequente com a sua história, sendo uma das regiões mais pobres do concelho, carente em quase tudo aquilo de que precisa para a sobrevivência da sua população. A queda do parque de produção agrícola de Colonato veio agudizar, ainda mais, o problema, desafiando a própria estabilidade alimentar e económica de dezenas de famílias de Chão Bom. As ofertas culturais são, quase, reduzidas a nada, não contando a região como nenhuma biblioteca de fôlego, nenhum cinema, nenhum parque de diversão, nem mesmo uma capela para que os fiéis possam colocar as suas preocupações nos ouvidos de Deus.
Com uma topografia variada, o Concelho do Tarrafal estende-se entre duas grandes maças de montanhas: a Sul, as montanhas que compõem a Serra Malagueta, que alcançam 1063 metros de altitude; e a Norte, o Monte Graciosa, com cerca de 642 metros de altura. Em termos climáticos, Tarrafal de Santiago, à semelhança do que se passa no resto do país, assinala-se por duas estações com marcações acentuadas: o tempo das águas e o da seca ou das brisas.
3- Tarrafal de Santiago -
Num olhar marcadamente geográfico, o Concelho do Tarrafal de Santiago sinaliza-se pela existência de uma zona árida que se estende sobre o litoral, alcançando uma altitude média de 200 metros; um lençol semi-árido que cobre a faixa sub-litorânea, atingindo também uma altitude média de 200 metros, abraçando o Monte Graciosa, que serve de protecção à Cidade do Tarrafal; as zonas sub-húmidas do interior, que abarcam sobretudo as terras de maior altitude do interior do Concelho.
Localizado na parte norte da Ilha de Santiago, o Concelho do Tarrafal é abrangido pelos ventos húmidos do Nordeste. Porém, as características marcadas por um relevo pouco acentuado torna-o num dos concelhos mais áridos da ilha onde se encontra inserido.
Tarrafal de Santiago: Visão História
Compreender a História imanente ao Concelho do Tarrafal implica que se conheça os fluxos e contra-fluxos que marcaram, de forma indelével, a divisão administrativa de Cabo Verde, com particular realce para a Ilha de Santiago. Isso leva-nos a debruçar sobre a própria história política de Cabo Verde que nos fornece elementos catalisadores, como a compreensão da faixa territorial que cobre o Concelho do Tarrafal e a sua geografia política no período Colonial, recolocando-o no mapa da Ilha de Santiago como parte do Concelho de Santa Catarina; a importância que a Vila de Mangue ganha numa atmosfera de sucessivas mudanças da sede do Concelho (ora nos Picos, ora em Achada Falcão), precipitando, assim, a sua transferência para a então Vila do Tarrafal nos finais do século XIX.
1- Tarrafal de Santiago -
Desde logo, considera-se o facto do Concelho de Santa Catarina ter sido criado, em 1834, englobando, na altura, as freguesias de São Miguel Arcanjo, São Salvador do Mundo, Santa Catarina e Santo Amaro Abade. A separação do Tarrafal com Santa Catarina deu-se na segunda metade do século XIX, passando o primeiro Concelho a albergar as freguesias de Santo Amaro Abade e São Miguel Arcanjo, tendo a então Vila do Tarrafal como a sua sede. Este quadro administrativo se estende até 1997, quando, formalmente, São Miguel assumiu os seus próprios destinos, impondo um desmembramento do então Concelho, passando a registar-se, desde então, o Concelho do Tarrafal e o Concelho de São Miguel Arcanjo.
Tarrafal, o concelho mais nortenho da ilha de Santiago, sobrevive à base das actividades agropecuárias e das remessas dos emigrantes, que desempenham um papel de extrema importância no dia-a-dia da população local. A pesca constitui também um outro indicador forte de sobrevivência das famílias locais, havendo um número considerável de homens que vivem dessa actividade e mulheres que vivem da venda dos pescados.
Falar do Concelho do Tarrafal, acentuando sobretudo a sua dimensão histórica, implica, antes de tudo, conhecer o percurso do regime salazarista, que, açambarcando a opinião da maioria, encaminhou uma massa humana para o Campo de Concentração do Tarrafal por o considerar dos lugares mais inóspitos de Cabo Verde. Hoje, transformado em Museu de Resistência, o edifício que albergava os desterrados guarda a trágica memória da luta contra o fascismo.
4- Tarrafal de Santiago -
O Concelho do Tarrafal, tal como as outras partes de Cabo Verde, conheceu um desenvolvimento acentuado durante os anos 90, prolongando-se para o novo século. O surgimento de novos bairros, o movimento do êxodo rural e as movimentações dos cidadãos entre a diáspora e o concelho têm sido desafios para Tarrafal. Daí a necessidade de encontrar respostas adequadas aos problemas que se apresentam. Uma delas passa pela promoção do conhecimento. Isto porque, a educação, a cultura e o conhecimento constituem as grandes chaves para desencravar o desenvolvimento das amarras da pobreza.
O êxodo rural precipitou uma expansão de Chão Bom que, cada vez mais, assume as características próprias de uma Vila. O tecido urbano está a conhecer um processo de integração profunda, havendo registo de uma mobilização grande das populações do interior sul do Concelho, provocando a expansão de Chão Bom nas latitudes Norte-Sul-Este-Oeste. O desenvolvimento do turismo é uma promessa das autoridades locais e nacionais, mas constitui um grande desafio para o Concelho, que deve preparar as suas populações para uma possibilidade de alteração do seu tecido e estruturas sociais.
Demografia e Visão Sociocultural: Um concelho em crescimento 
O Censo de 2000 situava a população do Tarrafal na fasquia de aproximadamente 18 mil habitantes, com uma percentagem de indivíduos do sexo feminino consideravelmente superior aos do sexo masculino. Cerca de 3900 famílias serviriam, então, de suporte à integração dos tarrafalenses numa base coesa de harmonização. Cerca de sete mil indivíduos viviam então em Chão Bom, a localidade escolhida pelo regime de Salazar para emprestar o nome a uma parte considerável da história da liberdade no espaço lusófono.
A população de Chão Bom, maioritariamente jovem, contava então com 46,8% da população com menos de 15 anos de idade, 46,3% da população com idades entre 15 a 64 anos, o que mostra ser uma sociedade marcadamente jovial. Tendo feito um percurso no ramo do associativismo, Tarrafal conta actualmente com mais de duas dezenas de associações com vocação comunitária e agro-pecuária. Há um número significativo de jovens, sobretudo filhos de agricultores e pescadores, que se reúnem em associações juvenis, grupos desportivos, recreativos e culturais, procurando dar vida e dinâmica ao concelho.
Chão Bom tem beneficiado desta dinâmica, contando com grupos como Associação Cívica de Chão Bom, Escola de Futebol Tó, Associação das Batucadeiras de Cabeça Carreira, Grupo Futebolístico Real Júnior. Desde há cerca de cinco anos, os jovens de Chão Bom tem estado a organizar, anualmente, um conjunto de actividades, conhecido como ‘Chão Bom em Movimento’, que agrega actividades culturais, desportivos, cívicos e de promoção do conhecimento. A primeira edição aconteceu, em 2008, e de lá para cá não mais se parou.
Mercado de Trabalho, Pobreza e Ambiente
O emprego constitui um grande desafio à população do Tarrafal, mormente para os cidadãos que vivem em Chão Bom. A pouca instrução académica que marca o percurso de vida de muitos filhos desse lugar faz com que, em muitas ocasiões, se registe uma troca simétrica de actividades virtualmente benéficas (como o cultivo do conhecimento) com outras actividades menos boa, como o consumo abusivo das bebidas alcoólicas. Neste sentido, faz-se necessário promover uma alteração do quadro, dando alternativas aos jovens. O ensino e a formação técnica e profissional surgem como caminho adequado para orientar os jovens sem uma linha profissional, promovendo, assim, o autoemprego, na medida em que as poucas empresas que ali existem são praticamente revestidas de características de microempresas ou unidades empresariais de natureza familiar.
A agricultura tem sido uma aliada das famílias tarrafalenses na fuga ao desemprego, promovendo, assim, o autoemprego. Porém, regista-se a necessidade de uma melhor formação para que se tire melhor proveito do segmento da agricultura. A transformação dos produtos agrícolas, a rentabilização da água, o melhoramento da produção agrícola e animal, são factores que poderão contribuir para o empoderamento das famílias cuja actividade económica se estriba na agricultura e criação de gado.
5- Tarrafal de Santiago -
O desemprego, o baixo nível de instrução académica, as condições de habitação, o elevado número de famílias monoparentais com mulheres à chefia, evidenciam uma situação de pobreza, situando o Concelho na faixa dos mais pobres de Cabo Verde. A falta de alternativas de emprego obrigou a que muitas mulheres se enveredassem para o caminho da extracção de inertes, acabando, assim, por degradar o ambiente. Por aqui, também, está-se a prestar um mau serviço ao turismo enquanto motor de desenvolvimento do concelho porque as praias de Tarrafal vão perdendo importância turística, complicando ainda mais o tecido económico de um concelho que tem nas actividades ligadas ao turismo a sua esperança de desencravamento económico.

fonte: Nos genti

José Soares – Fidju di Tarrafal
(Mestre em História Cultural e Política – FCSH –UNL)

Contextualizar & Compreender
O Regulamento interno do ex-Campo de Concentração do Tarrafal de Santiago
29 de Outubro de 1936 – 29 de Outubro 2012



No Campo de Concentração do Tarrafal, assim como em todos os estabelecimentos prisionais, quer no Continente, quer fora do Continente, havia um regulamento interno. Tudo era feito segundo aquilo que estava estipulado pelo regulamento, se bem que em muitas situações ele fosse completamente esquecido e posto de lado, principalmente por parte dos guardas, dos carcereiros e dos próprios Directores. A situação no Tarrafal foi o exemplo típico deste facto. Alias, não é por acaso que o Campo de Concentração de Tarrafal foi considerado na historiografia portuguesa como a quinta-essência do terrorismo do Estado sob a tutela de Salazar.

A carência de documentação escrita sobre o referido regulamento, leva-nos a basear o nosso conhecimento em testemunhos dos presos e de alguns naturais do Concelho para, neste dia que se contextualiza e recordar-se mais um ano da abertura do Ex-Campo de Concentração do Tarrafal de Santiago, 29 de Outubro de 1936 (há 76 anos), apresentar aquilo que foi o funcionamento dessa prisão, desde o levantar até á hora do recolhimento obrigatório em que tudo era regulado com o alerta do sino do Campo.

A vida dentro dessa prisão começava ás 5h da manhã com o tocar do sino por parte do guarda que fazia o serviço no portão da entrada principal. Cândido de Oliveira, na obra o Pântano da Morte, nesta mesma óptica diz que ás 5h começava o dia. Era a alvorada. A essa hora, gritada na parada pela companhia indígena através da corneta, e à porta do Campo por um pequeno sino, abriam-se as portas das camaratas”. A actividade dos prisioneiros neste período entre as 5h e as 5h30 resumia-se ao levantar, vestir, calçar, isto é, prepararem-se para o pequeno-almoço. Ás 6h tocava para a primeira formatura na avenida das Acácias. Esta avenida foi baptizada pelos reclusos, visto que, foram eles que plantaram as Acácias rubras nessa via. É relevante realçar que a formatura constituía um dos momentos formais dentro do Campo. Nos primeiros anos do seu funcionamento, ela era um ponto a cumprir todos os dias, principalmente nos momentos de içar e arriar da bandeira.

Após o pequeno-almoço, na formatura, o chefe dos guardas aparecia para fazer a distribuição das tarefas. A presença dos chefes dos guardas e das outras autoridades implicava sempre que os prisioneiros tirassem os seus chapéus como prova de submissão ou de um simples cumprimento. Nas fases mais duras da vida no Campo, como por exemplo durante a direcção de João da Silva, (1938-1940), o não tirar do chapéu implicava automaticamente um castigo.

Depois da formatura e do cumprimento ao chefe dos guardas, fazia-se então a distribuição das tarefas ou das brigadas: a Brigada da Pedreira, Brigada da Estrada, Brigada de Água, Brigada das Oficinas, etc. Aqueles que não podiam trabalhar, os mais fracos, ou que não eram escolhidos para as brigadas, ficavam no Campo para fazer outras tarefas. Despejavam a lata que servia de urinol durante a noite, ajudavam os que estavam de fascina na cozinha, varriam a caserna, lavavam a loiça da colectividade, etc.

Segundo os testemunhos dos reclusos do Tarrafal, nos primeiros tempos, os carcereiros não lhes impunham regulamentos rígidos nem se preocupavam muito com a disciplina e nada diziam. Também fora do Campo, durante o trabalho, podiam comprar géneros e frutas aos naturais, claro fora dos olhares dos guardas que os vigiavam durante a jornada. Podiam cozinhar para reforçarem o Rancho. Nessa altura, ainda os trabalhos não eram excessivamente pesados. O trabalho resumia-se nas limpezas, na capinagem, no transporte de água e pouco mais do que isso. Entretanto à medida que a Guerra Civil espanhola se decidia a favor dos franquistas a repressão no Campo tornava-se mais dura.

Às 10 horas e 30mn, o sino tocava para o término do trabalho da manhã. Os que estavam nas brigadas fora do Campo regressavam trazendo ao ombro as picaretas, as pás, as alavancas que deixavam à entrada da porta principal. Todavia, antes de se dirigirem para as barracas, as ferramentas eram primeiramente conferidas pelos guardas. Manuel Francisco Rodrigues, um dos carrascos de Salazar, dizia que ideia de que os operários das oficinas do Campo de Concentração de Tarrafal eram os aristocratas do burgo. Trabalhavam à sombra, enquanto que os que arrancavam pedra, construíam os muros à volta ou estavam ao serviço da água, torravam-se literalmente ao Sol. Eles eram considerados como os idiotas da prisão. Mas contudo, dentro do Campo todos eram iguais em relação ao salário, porque não recebiam nada. No seu entender e também dos outros presos que passaram pelo Tarrafal, no inferno, toda a gente trabalhava de graça!

O toque de dez pancadas no carril, ás 11h era o sinal para o almoço. Os que estavam de fascina comiam na cozinha e os que estavam nas brigadas comiam no refeitório. O refeitório, nos primeiros anos do funcionamento do Campo, era uma barraca de madeira com cerca de 20 mesas também de madeira. Cada uma tinha capacidade para dez pessoas. Em cada mesa havia um encarregado que fazia a distribuição da comida. Entre as 12h e as 14h era o período do descanso nas barracas ou nos pavilhões. Durante esse período era proibido fazer barulho e deslocarem-se pelas barracas para conversarem uns com os outros. Era um período de silêncio absoluto.

Às 14 horas tocava para mais uma formatura. Fazia-se a leitura das ordens e distribuições dos serviços e fazia-se ainda a entrega da correspondência das cartas que provinham de direcções permitidas. Os reclusos tinham uma hora para se prepararem para o jantar. Se acaso houvesse água, o que era muito raro, tomavam banho antes do jantar. Às 17 horas e 30 tocava para o jantar. Em cada barraca havia quem se dirigisse à cozinha para ir buscar o jantar, sempre sob a vigilância dos guardas auxiliares e dos carcereiros. Verificamos, assim que o jantar, ao contrário do pequeno-almoço e do almoço, era servido nas barracas e posteriormente, após a construção dos pavilhões em pedra, passou a ser servido nesses pavilhões. O período que mediava entre o jantar e o recolher era considerado pelos reclusos como um grande momento de convivência. Nesse pequeno espaço de tempo, dedicavam-se às leituras, às conversas sobre temas variados, enfim, era um dos momentos de maior liberdade no quotidiano dentro do Campo.

Às 20:30mn tocava para o recolher. Antes do recolher obrigatório, os reclusos formavam em frente das suas camas, em filas, e esperavam que os chefes dos guardas fizessem a contagem dos prisioneiros. Depois da contagem, e com a certeza de que todos se encontravam nas barracas, com excepção daqueles que estavam de castigo ou na Mitra, esta que era um local onde depositavam os reclusos doentes, considerados inofensivos e considerados pelo Médico do Campo como não tendo grandes probabilidades de sobreviver ou de castigo. Os presos diziam que o período que se prolongava até o primeiro toque da alvorada era considerado como o momento das trevas.

Aos fins-de-semana, sábados e domingos, não havia brigadas fora do Campo. Esses dias eram reservados às limpezas e às arrumações. Os reclusos aproveitavam para a lavagem das roupas e limpeza geral das casernas e espaços em redor. Aos sábados de manhã, normalmente depois do toque da alvorada, retiravam para fora das casernas as camas, as prateleiras, as roupas, enfim, tudo o que aí existia a fim de facilitar a limpeza geral. Era o dia da batalha contra os parasitas, diziam.

O Domingo era considerado dia de descanso. Apesar disso o levantar tinha lugar sempre às 5 horas. Todos, excepto os que estavam acamados e os que estavam de castigo, eram obrigados a levantar-se. Nos períodos de menos pressão aproveitavam os domingos para as leituras, para escreverem aos familiares e amigos e também para se dedicarem às questões políticas, académicas e culturais. Nos tempos de maior repressão dirigiam-se para o refeitório sob a vigilância dos guardas, a fim de escreverem as suas cartas e postais. Depois, tinham que devolver o resto dos papéis e dos lápis que sobrassem da escrita.

Este regulamento sofria algumas alterações pontuais de acordo com as necessidades e com as ideias dos diferentes e sucessivos elementos que foram passando pela sua direcção. Contudo, houve aspectos em que nenhuma das direcções responsáveis interferiu, como sejam, a existência das brigadas de trabalho fora do Campo, as faxinas na cozinha, os castigos na Frigideira.


Tarrafal de Santiago, aos 29 de Outubro de 2012



Tarrafal parte 1

A história do Tarrafal contada aos miudos da Escola do Tarrafal por dois ex presos politicos

Tarrafal parte 2

Dois ex presos politicos voltam ao Tarrafal

Tarrafal parte 3

Terceira e ultima parte das memórias de dois ex presos politicos no campo de concentração do Tarrafal.


Conheça Historial de Tarrafal

Apesar de algumas opiniões apontarem a criação do concelho do Tarrafal no decorrer de 1872, a informação mais fiável,  de acordo com a carta orgânica da província de Cabo Verde, indica o ano de 1917 e delibera que a divisão administrativa deste arquipélago que, como consequência, foi separado do Concelho de Santa Catarina que até então tinha a sua sede na Vila do Tarrafal, remonta também ao ano de 1917.  Segundo o estudo monográfico de António Carlos Silva, duas foram as razões que fundamentaram a transferência da sede de concelho dos Picos para o Tarrafal: a primeira pelo facto de Tarrafal se localizar junto da zona influente da freguesia de Santa Catarina e a segunda justificada pela necessidade de equilíbrio entre o norte e o sul a nível de desenvolvimento.

As referências históricas sobre Tarrafal retratam-no “Ora como terra bem-amada, Ora odiada”. Bem-amada por apresentar condições geográficas ideais para estabelecer um bom porto marítimo, o qual foi concretizado e se distinguiu na comercialização de sementes de purgueira, apesar da sua posterior decadência devido ao aparecimento de novas estradas; mal amada ou odiada devido ao seu insalubre clima e à instalação da Cadeia Penal do Tarrafal, mais conhecida por Campo de Concentração do Tarrafal ou também por Campo de Morte Lenta, em 1936, em Chão Bom, perto da Vila. Logo, se o regime colonial de ideologia nazista ali implantou uma prisão onde torturavam os presos, as pessoas que não estavam de acordo com o Estado Novo, é porque o local não era "coisa boa".

Em 1997,  Tarrafal reduziu as suas fronteiras com a criação do concelho de São Miguel Arcanjo, passando, assim, a ser constituído por uma única freguesia, a de Santo Amaro de Abade, nome do Santo Padroeiro do Concelho.

Anteriormente,  Tarrafal era visto como o pesadelo da ilha de Santiago mas, actualmente, em virtude de possuir uma das mais belas praias de Cabo Verde, é classificado como uma das pérolas de turismo e considerado o diamante da ilha.
fonte:cmt

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